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Prentender condicionar os limites da opinião aceitável é chantagem

por henrique pereira dos santos, em 03.11.18

Durante a campanha eleitoral no Brasil, alguns tribunais eleitorais locais tomaram decisões completamente tontas, como se documenta aqui.

Como é bom de ver, estas acções foram rapidamente contestadas e proibidas pelas instâncias superiores do sistema de justiça brasileiro, demonstrando que funcionaram os mecanismos de garantia das liberdades.

Em nenhum momento Bolsonaro foi tido ou achado no assunto.

Isso não impediu que os que discordam dele de forma mais radical lhe atribuíssem a "responsabilidade moral" pelo que se passou (no que diz respeito ao condicionamento da liberdade de expressão, não no que diz respeito à rápida reposição das garantias constitucionais), tal como David Dinis não tem qualquer dúvida em atribuir o envio de cartas bomba nos Estados Unidos ao discurso de ódio de Trump (um rapaz que, como todos sabemos, é delicadamente tratado pelo imprensa todos os dias, sem o mínimo vestígio de ódio, como se pode verificar neste discurso fofinho de Robert de Niro, baseado na conhecida forma tradicional de cumprimento entre amigos, no Porto).

Ontem, por eu me ter limitado a assinalar duas ou três coisas fora da cartilha estabelecida sobre Bolsonaro (com fascistas a única atitude aceitável é estar na barricada oposta e quem tiver alguma dúvida de que o homem seja fascista ou, sendo-o, talvez não tenha condições para impôr um regime fascista, é porque é tão fascista como ele) fui praticamente insultado duas ou três vezes por amantes da liberdade de expressão e da democracia.

Uma das coisas que motivaram esta crispação foi eu ter assinalado que uma notícia que por aí circula (a queima de uma sede do IBAMA) como sendo um resultado prático da eleição de Bolsonaro e a demonstração de que a ditadura está a ser implantada, era de há um ano.

Eu já nem reajo à enésima partilha desta notícia, mas como era feita por uma jornalista experimentada, lá fiz uma pequena nota sobre a data da notícia, o que motivou o seguinte comentário: "Admito que não reparei na data da noticia, porque a notícia não me admirou na era bolsonaro. A notícia é de 2017, vi agora, mas infelizmente notícias como esta vão repetir-se cada vez mais no Brasil".

E é isto, de cada vez que alguma coisa sirva para demonstrar o avanço da ditadura no Brasil (ao fim de dois anos de Trump já começa a ser mais difícil encontrar demonstrações de que Trump vai destruir a democracia americana), sejam decisões de tribunais eleitorais, sejam queimas de edifícios de há um ano, sejam incêndios em acampamentos do Movimentos dos Sem Terra (por sinal, incêndios de que existem notícias há vários anos, em vários sítios), seja o facto de um governador e um tribunal impedirem um espectáculo de Caetano Veloso numa ocupação ilegal, sejam assassinatos de opositores de Bolsonaro (só no Rio ocorrem 16 homicídios por dia, em todo o Brasil a média diária corresponde ao número de assassinatos em Portugal num ano e meio, portanto haverá gente de todos os partidos a serem assassinados todos os dias), tudo isso é atribuído a Bolsonaro para que seja possível dizer que quem se limita discordar de Bolsonaro, tratando-o como qualquer outro político até prova em contrário, é um inimigo da democracia que merece o ostracismo.

O problema é outro e bastante inquietante: o que fragiliza a democracia é o candidato derrotado de uma eleição fazer um minuto de silêncio pela democracia antes do seu discurso de derrota, o que fragiliza a democracia é a insistência de que a lavajacto é uma operação política e não uma investigação a um monumental esquema de corrupção, o que fragiliza a democracia é considerar que Lula é um preso político e não um político preso, isso sim, a demonização do outro, a descredibilização das instituições democráticas, em especial do sistema de justiça, e a ideia de que defender a proibição do aborto, a liberalização do porte de arma e outras coisas que tais, sendo certas ou erradas, são ataques à democracia e não escolhas sociais legítimas que devem ser discutidas civilizadamente, isso sim, é que é inquietante.

As parvoíces sistemáticas que tentam transformar declarações políticas normais, como a de que entre Haddad e Bolsonaro é difícil ou mesmo impossível uma pessoa moderada tomar partido, procurando encostar Fernando Henrique Cardoso, Ciro Gomes ou Assunção Cristas ao campo do fascismo, só porque recusam uma visão maniqueísta do bem e do mal, são muito mais perigosas do que parecem à primeira vista porque na realidade, podendo não ser o seu objectivo, o seu resultado é o condicionamento da opinião que não encaixa no quadro de referência estabelecido pela esquerda dominante.

Se algum dever têm os democratas não é o dever de ostracizar Bolsonaro, é o dever de se recusarem a aceitar o quadro mental em que se quer meter toda a gente, recusando o condicionamento de opinião chantagista em que nos querem enfiar.

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4 comentários

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De Eremita a 04.11.2018 às 15:08

Foi o Henrique a avançar a extraordinária tese de que não importa o que os candidatos dizem, só as suas acções. É uma tese que o vai perseguir enquanto houver memória, mas ninguém o obrigou a escrever tamanho absurdo. Como se não bastasse, fez agora um branqueamento preventivo das más acções futuras de Bolsonaro, que para si serão inexistentes e uma invenção dos opositores. Dá ainda  um exemplo de manipulação de informação contra Bolsonaro, quando se algo caracterizou estas eleições foi a enorme campanha de informação falsa nas redes sociais que favoreceu o futuro presidente. E nem sequer reprimiu uma boca a Robert de Niro pela forma como criticou Trump, o que me parece paradoxal vindo de si e de um timing desastrado, tendo em conta que po ter criticado Trump de Niro recebeu há uns dias uma bomba armadilhada pelo correio enviada por um apoiante de Trump (como fica a sua distinção entre as palavras e os actos?). 


Não espere de mim qualquer impulso censório que lhe dê uma oportunidade de vitimização. Limito-me a assinalar disparates óbvios. 
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De Henrique Pereira Dos Santos a 04.11.2018 às 20:28

O óbvio é uma coisa muito subjectiva.
Por exemplo, para mim é óbvio que o seu comentário não tem nenhuma relação com o que escrevi.
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De Anónimo a 05.11.2018 às 13:45

Deixe lá, Henrique. Não se zangue: o Eremita não vive neste mundo, é eremita e está tudo dito.
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De Terry Malloy a 06.11.2018 às 00:58

Talvez fosse de recordar aos dinizes desta terra que, enquanto este hediondo "crime de ódio", claramente incentivado por Trump, de enviar pelo correio engenhos que nunca sequer chegaram perto dos destinatários - nem os colocaram em risco, nem sequer se sabendo da sua capacidade para tal - em 2017 tivemos um senador candidato presidencial pelos Republicanos violentamente espancado à porta de casa por um democrata registado (costelas partidas e outros ferimentos - Rand Paul) e no mesmo ano o líder da maioria republicana no congresso (Steve Scalise) baleado com gravidade num treino de basebol por um outro activista de esquerda - que primeiro perguntou se eram republicanos ou democratas que estavam a treinar.


Alguém recorda notícias em Portugal sobre estes "crimes de ódio"? Terão sido apoiantes de Trump?


E perguntar aos dinizes?

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