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Preço e valor

por henrique pereira dos santos, em 25.10.23

Os meus últimos posts sobre o mundo rural geraram dois comentários a que achei que valia a pena dar atenção.

O primeiro diz respeito a uma afirmação minha sobre os preços baixos dos alimentos e fibras produzidas, que considero uma imposição dos consumidores urbanos, dando origem a um mercado europeu (mas não só) de produtos alimentares e fibras altamente condicionado por decisões administrativas, relacionadas quer com regulamentação sobre a forma de produzir, quer com condicionamentos de preço fortes e continuados.

O mercado muito iliberal, resumindo.

Insurgia-se o comentador dizendo que não era verdade, exemplificando com o azeite que, na sua opinião, está muito caro.

Vamos saltar por cima do valor conjuntural dessa afirmação (um mau ano de produção não chega para caracterizar um sector) e reparar na definição de "caro" usada pelo comentador: uma coisa cara é uma coisa que tem um preço acima do que podemos pagar com o nosso ordenado.

Esta afirmação é muito interessante porque enfatiza um facto: um preço é alto ou baixo em função das circunstâncias de cada potencial consumidor.

Fiz notar que essa não era a definição de caro ou barato para o produtor, para o produtor uma produção está barata quando remunera mal (ou não remunera) a sua produção.

O preço é o mecanismo que as sociedades inventaram para fazer o encontro entra o valor que cada comprador atribui a um bem ou serviço e o valor que o seu vendedor lhe atribui e parece ser, ainda hoje, o mais eficiente mecanismo de produção de informação que as sociedades têm para fazer uma alocação eficiente de recursos.

O comentador foi mais longe na ilustração da ideia: até era dono de olivais, mas não apanhava a azeitona porque o tempo não dava para tudo, numa demonstração de que o preço do azeite está baixo para produtores que não optimizam a eficiência da produção, mesmo que, enquanto consumidores, achem o preço do azeite muito alto.

Note-se que a pessoa em causa é dona de olivais que não vende - com certeza porque o preço pago pelos potenciais compradores não chega para equivaler o valor que o vendedor atribui aos olivais, que pode não ter como base nenhuma racionalidade económica, se excluirmos da racionalidade económica os valores emocionais - mas cuja produção não aproveita porque o valor do seu tempo não é compatível com o produto que resultaria do tempo que era consumido nessa tarefa.

Do ponto de vista social, o que estamos a fazer é esmagar o preço no consumidor para o azeite corrente, ao mesmo tempo que o deixamos livre para azeites de nicho.

Os produtores reagem a estes estímulos, racionalmente, de três formas distintas:

1) Investem o mais que podem na eficiência da produção para que o custo da produção seja compatível com os preços artificialmente baixos que a regulamentação e os apoios agrícolas potenciam;

2) Optam por produções de nicho, isto é, concorrem pela diferenciação e não pelo preço, o que os obriga a ser excelentes vendedores, mesmo antes de serem produtores eficientes;

3) Abandonam a gestão, ou dedicam-se a uma gestão de lazer e paz de espírito, com consequências sociais negativas quanto à eficiência da produção de azeitona e azeite, à gestão do fogo, à criação de emprego, etc. mas provavelmente positivas quanto à conservação da biodiversidade, ao bem estar do produtor e à velocidade de regeneração do solo, por exemplo.

E isto leva-me ao segundo comentário, o de um agricultor biológico que achou que eu o estava a acusar de ser uma moda urbana, dizendo que "O autor do artigo aponta e bem que as remunerações são baixas mas depois acusa-me de por fazer isso já sou um "nicho urbano da moda"".

Confesso que fiquei bastante espantado com esta leitura do que eu tinha escrito mas, pensando bem, é bem possível que resulte de uma das características que mais frequentemente tenho encontrado nos produtores de alimentos e fibras, quer nos que trabalham para concorrer no mercado com base no preço, quer nos que trabalham para concorrer no mercado com base na diferenciação: a sensação de estarem permanentemente sitiados por circunstâncias adversas de que têm de se defender permanentemente.

Absolutamente nada nos meus textos permite ler acusações a produtores que escolhem produzir assim ou assado (pelo menos eu não consigo ler isso no que escrevo), a definição de preço é a que resulta do encontro entre vendedores e compradores, e os dois podem ter ficado insatisfeitos com a transação, mas a definição de valor é feita por cada um de nós em cada momento, portanto não me passaria pela cabeça acusar ou criticar alguém pela definição de valor que se escolheu para base da sua vida e da sua actividade profissional.

O que sinto é que é relativamente raro encontrar um produtor com uma atitude de orgulho e auto-confiança no que faz, que seja feliz a dizer que faço isto porque gosto e me sinto útil, e sou tão bom naquilo que faço que consigo ter um retorno - económico e não económico - catita, mais que suficiente para ter uma vida boa, portanto, não vale a pena queixar-me das circunstâncias.

É difícil ser produtor de alimentos e fibras, é frequente uma certa atitude de vítima das circunstâncias porque há muito de verdade nesse estatuto de vítima, sobretudo quando o ideal seria ter Sol na eira e chuva no nabal, ideal que corresponde a uma utopia.

Se se confundir essa utopia com a realidade possível, é natural que se acabe a protestar com todas as circunstâncias adversas que, dia após dia, impedem a materialização dessa utopia.

No fundo talvez seja o mesmo tipo de confusão entre preço e valor que todos nós estamos sempre a fazer, quer queiramos, quer não.


8 comentários

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De urinator a 25.10.2023 às 11:20

vivo assim-assim na nova 'CLASSE MÍNIMA'
o que menos desejo é ser proprietário rural face: ao socialismo, dificuldade de prever custos de produção, carestia e falta de mão-de-obra.


'cada vez que um produtor abandona o mundo rural surge mais um consumidor'

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