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Preço e serviço

por henrique pereira dos santos, em 10.11.25

Os preços da habitação, ou de outra coisa qualquer, serem altos ou baixos não é, em si, bom ou mau, é o que é.

Os preços são um mero sistema de informações que resiste a todos os regimes, e há milhares de anos, porque são muito eficientes como sistema de informação, permitem rapidamente e de forma muito, muito transversal, perceber se há muita ou pouca gente interessada em ter ou vender uma coisa.

Na discussão da habitação, infelizmente, tem-se perdido demasiado tempo a discutir a necessidade de baixar o seu preço, quando na verdade o preço da habitação estar alto não é muito relevante na discussão.

Por um lado, é preciso deixar as pessoas organizarem-se em função da informação transmitida pelo preço: se a habitação é muito cara em Lisboa, talvez alguns empresários decidam investir em Alcaravelas, porque isso lhes permite ter trabalhadores satisfeitos com o seu nível de vida, com ordenados que não sejam incompatíveis com o preço do produto ou serviço que esses empresários pretendem fornecer.

Para este aspecto, o melhor que o Estado tem a fazer é retirar da frente tudo o que distorce o sistema de preços (a comparação clássica é com a válvula da panela de pressão, se alguém, irritado com o silvo da válvula da panela de pressão, resolve fixar a válvula para ela deixar de fazer barulho, o resultado não é o silêncio pretendido, mas a explosão da panela).

Sobra um outro aspecto que diz respeito ao acesso das pessoas à habitação, que é um problema social se houver um grande desfasamento entre o que as pessoas recebem pelo que produzem e o que pagam para ter acesso à habitação.

Se o Estado acha que deve garantir o acesso à habitação às pessoas que não têm recursos para isso, o que tem a fazer é apoiar essas pessoas, ou fornecendo directamente casas a preços fora do mercado (e a experiência dessa solução, em Portugal, não dá grande esperanças), ou apoiando-as na diferença entre o que podem pagar e o que precisam para ter uma casa (solução complicada, até por favorecer o aumento do preço da habitação, se tudo o resto se mantiver igual mas, ainda assim, uma solução potencialmente interessante).

Qualquer que sejam as opções, a verdade é que o conjunto de factores que contribuem para definir o preço é influenciado pelo número de casas disponíveis no mercado (seja para venda, seja para renda), e pelo número de pessoas interessadas em casas.

Enquanto o mercado imobiliário era praticamente local, o preço das casas tenderia a não estar muito mais alto que aquilo que a generalidade das pessoas poderiam pagar, sendo certo que sempre houve faixas muito alargadas de pessoas que, em cada momento, não conseguiam pagar o suficiente para ter uma casa (e o Estado tem ilegalizado a construção individual de um tecto, de acordo com os baixos rendimentos dessas pessoas, por entender que o resultado são condições de habitabilidade abaixo de limiares de dignidade).

Só que a procura potencial tem sido aumentada por factores externos, em especial, o turismo e a disponibilidade financeira global.

Citando o ChatGPT "Políticas monetárias ultra-expansivas, Globalização do investimento imobiliário, Regulação e fiscalidade, Transformações culturais e demográficas", para além do turismo, têm contribuído para um aumento da procura acima do aumento da oferta, o que implica aumento de preços globais, acima dos factores clássicos que sempre empurraram os preços do imobiliário: "Oferta insuficiente, Custos de construção, Pressão migratória urbana".

Ainda o ChatGPT (com cortes e pequena alterações):

"O resultado é um mecanismo de retroalimentação financeira:

O crédito barato e o excesso de liquidez aumentam a procura de imóveis.

A subida de preços reforça a percepção de que o imobiliário é um bom investimento.

Essa percepção atrai mais capital — inclusive estrangeiro — elevando ainda mais os preços.

Isto gera três consequências críticas:

a) Exclusão habitacional e desigualdade patrimonial
b) Risco macroeconómico
c) Distorsão do investimento produtivo"

O risco macroeconómico e a distorsão do investimento produtivo são questões que os empresários e consumidores resolvem com as suas opções, tomando o sistema de preços como fonte de informação.

A desigualdade patrimonial não me interessa por aí além e sobra, portanto, a questão da exclusão habitacional para um próximo texto.


6 comentários

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De cela.e.sela a 10.11.2025 às 10:41

'quem não tem dinheiro não tem vícios'.
o meu dinheiro serve para tudo: casas gratuitas, abortos, drogados, satisfazer as necessidades de 1,6 milhões de emigrantes (principalmente na saúde) ...e não só. PqP.
meu AVÔ não conseguiu alugar casa: Roma 1958; Paris 1971, Viena 2001.
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De Anónimo a 10.11.2025 às 10:43


talvez alguns empresários decidam investir em Alcaravelas


A coisa não é assim tão simples, porque não é só em Lisboa que a habitação é escassa e cara.
Na minha terra, uma aldeia perto de Oliveira do Bairro, casas que se arrendavam por 250 euros arrendam-se agora por 400 euros, devido ao influxo de imigrantes vindos para trabalhar na indústria. (Os autótones, envelhecidos, já não fornecem trabalhadores suficientes.)
Ouvi este fim de semana dizer que uma empresa chinesa vai construir nas proximidades de Sines casas para os 1800 trabalhadores que tenciona contratar, caso contrário não conseguiria contratá-los porque não haveria casas para eles. E que o porto de Portimão também já está a construir casas para trabalhadores, porque sem fornecer casa não os consegue contratar.
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De Anónimo a 10.11.2025 às 11:51

Exposição límpida e cristalina.


O Estado faz muitissimo bem em não intervir nem disciplinar, pois tem mais que fazer indo atrás dos gajos que roubam dois cêntimos.


Além disso também rapa a sua pequenina parte e ganham ainda outros intervenientes pois quanto maior o preço maior a comichão.


É quase o típico caso imaginado pelo velho Adam Smith; todos ganham.


Quase 😕 porque a vítima, essa paga e não pia.




PS - Já agora se há Grupos, Comités, Gabinetes, Comissões e etc., de Acompanhamento, Estudo, Avaliação e etc., de tantas coisas, porque não há para isto ?!


Mistério bem misterioso, enigma enigmático, se calhar, do domínio do oculto.
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De Anónimo a 10.11.2025 às 12:29


se a habitação é muito cara em Lisboa, talvez alguns empresários decidam investir em Alcaravelas


Isto não é assim tão simples, porque os habitantes, supostamente ricos, de Lisboa estão dependentes de serviços prestados por outros habitantes bastante mais pobres.
Ou seja, os habitantes ricos de Lisboa precisam de médicos, professores, cozinheiros, limpadores de latrinas, etc, e esse pessoal todo tem que ter dinheiro suficiente para conseguir pagar uma casa em Lisboa.
O que se passa atualmente em Lisboa é que as casas estão nela tão caras que já não há médicos, professores, etc de fora que consigam instalar-se em Lisboa (situação parecida ocorre no Algarve; ouvi dizer que na ilha de Ibiza, em Espanha, a situação neste domínio é dramática).
A desigualdade tem custos económicos subtis, mas muito reais.
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De Anónimo a 10.11.2025 às 13:27

O Quadro Geral é de Pato Bravice endémica, extrema e sistémica.


Ou como diria o Aldous Huxley; 


O Admirável Mundo Novo
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De Filipe Costa a 10.11.2025 às 18:16

Vou contar o meu caso para se pensar, em 2003 tinha eu 33 anos, encontrei uma casa numa cooperativa que estaria pronta em 2004, a cooperativa é a Nortecoope. Paguei 2500 euros para segurar o lugar e fiquei a pagar 200 por mês. A casa custou 92500 euros, um apartameno T3 com 100 m2. Em frente tinha outras casas a 120 mil euros, mas para mim já era muito.


Em 2004, entregaram a casa, fiz hipoteca, o dinheiro adiantado foi abatido, tudo certo. Estou quase a acabar de pagar a casa, mas digo que nos primeiros anos a taxa de esforço foi de 50%, tive que me conter em férias e jantaradas.

Finalmente, hoje, oferecem-me 300 mil euros pelo apartamento, acho normal que em 20 anos uma casa triplique de preço, sempre foi assim.

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