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Porquê?

por henrique pereira dos santos, em 24.02.21

"Em entrevista à RTP, António Lacerda Sales falou na importância do número de camas de enfermaria ocupadas com doentes Covid, que deve ser inferior a 1500, o número de camas em Unidades de Cuidados Intensivos, que deve ser inferior a 200, e, por fim, uma incidência cumulativa a 14 dias que deve ser de 60 casos, o que significa 400 a 428 casos por dia".

Do ponto de vista do Governo (e de grande parte da sociedade) a sociedade deve organizar-se para obter uma determinada pressão sobre os serviços de saúde, em vez de se organizarem os serviços de saúde para garantir o apoio adequado à sociedade.

Mas ainda que se faça essa opção, por que razão se devem escolher estes limites em detrimento de outros?

Durante semanas a fio de incidência relativamente baixa, por exemplo, durante todo o Verão, a questão não eram os números verificados, mas as tendências, agora que as tendências são todas no mesmo sentido, isso já não interessa, o que interessa são os números e, note-se, não os números relevantes da epidemia, mas sim os números relevantes para a gestão dos serviços de saúde.

Repare-se que a incidência referida nunca existiu desde o início de Setembro. A pergunta, legítima, é se se tenciona manter um confinamento, com escolas fechadas, até ao Verão.

Acresce que se se calcula a incidência acumulada a 14 dias, contando com os treze dias antes da data, então significa que haverá um atraso dos números em relação à realidade, o que quer dizer que o governo e os especialistas acham que abrir uma semana mais cedo ou mais tarde as escolas é irrelevante, pode perder-se uma semana de aulas pelo mero artifício estatístico de usar uma incidência acumulada a 14 dias, em vez de usar os dados do relatório semanal de incidência e transmissibilidade.

Do mesmo modo, o número de internamentos considerado fundamental nunca existiu desde o fim de Outubro, e o número de camas de cuidados intensivos consideradas fundamentais nunca foi atingido desde 20 de Outubro, ou seja, passámos todo o Outono e Inverno, até agora, sem problemas de maior com os níveis de pressão dos serviços de saúde acima do que se pretende ter agora, com excepção de Janeiro.

Mas porque em Janeiro, por razões que podemos discutir, mas razões indiscutivelmente excepcionais, houve uma pressão excepcional, passamos a achar que a sociedade não pode funcionar, que a vida de milhares de pessoas pode ser condicionada, para que os serviços de saúde funcionem com limites de ocupação que os responsáveis pela sua gestão acham confortáveis.

E acham confortáveis por razões que consideram não ter de explicar convenientemente, em especial, demonstrando a ponderação de ganhos e perdas globais para a sociedade da definição desses limites.

Isto não é governar, é simplesmente gerir o medo da facção que ocupa o poder tem de perder as eleições seguintes.



20 comentários

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De balio a 24.02.2021 às 10:09


gerir o medo da facção que ocupa o poder tem de perder as eleições seguintes


Dizer isto é aceitar que a população é a favor destas medidas restritivas. Eu estou convencido de que isso não é verdade. A maior parte da população quer ser libertada das restrições.


Além disso, a "facção que ocupa o poder" (o PS) não tem que ter medo de perder as eleições seguintes por causa disto, dado que a facção oposta (o PSD) está totalmente de acordo com o confinamento adotado.
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De Anónimo a 24.02.2021 às 13:09

Não estou tão seguro da maioria da população seja contra o confinamento, até porque o endoutrinamento da comunicação social manteve a maioria da população borrada de medo. O governo está a gerir a situação mais pelo 'focus group' do que pelos "especialistas". 
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De SAP2ii a 24.02.2021 às 10:15

Não estará a cometer um erro? Medo de quem, se são o Regime? Ninguém liga ao Covid, desde nov2020.
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De SAP2ii a 24.02.2021 às 10:25

Esses políticos não são alternativa. A sua oscilação binária é a causa do actual Regime. A Abstenção sabe isso.
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De SAP2ii a 24.02.2021 às 10:27

Os eleitores já perceberam que o Covid é uma guerra no microbioma. Cá em cima, é só política e negócio.
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De Anónimo a 24.02.2021 às 10:19

Não são só as escolas. É também a grande injustiça de ter uma parte da população desconfinada, a trabalhar, para a outra parte poder estar em casa confinada.
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De Anónimo a 24.02.2021 às 11:24

De nada serve perguntas racionais a uma sociedade e governação irracionais. Por mais lógicas e inteligentes que sejam as questões as respostas serão sempre estúpidas. 
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De Anónimo a 01.03.2021 às 02:50

Excelente.
Não diria melhor...
Cumprimentos 
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De balio a 24.02.2021 às 11:28


uma incidência cumulativa a 14 dias que deve ser de 60 casos, o que significa 400 a 428 casos por dia


Há aqui um erro, deve ser 6000 e não 60.


Eu iria jurar que há duas semanas o primeiro-ministro disse que só se poderia desconfinar quando a incidência cumulativa fosse de 240 casos por 100 mil habitantes, isto é, 24 mil casos para todo o país. Agora vem este e exige que a incidência seja quatro vezes menor, 6 mil em vez de 24 mil, desautorizando o primeiro-ministro. Claramente, estes tipos vão movendo o alvo para trás por forma a poderem manter o desejado confinamento.
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De Anónimo a 24.02.2021 às 13:15

Mas desejado porquê? Isso é que não consigo perceber!
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De Anónimo a 24.02.2021 às 15:58

Ora, porquê? para testar a nossa "resistência" à força exercida de cima para baixo. Percebeu?
Mas o povo é sereno, é tudo gente de paz! Os portugueses contentam-se com pouco. 
 'Tá-se bem, lucidez é coisa que não lhes assiste. 
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De Antonio Maria Lamas a 24.02.2021 às 12:32

Se estes números tivessem sido aplicados no inicio da pandemia, desconfio que ainda estávamos como em Março de 2020.
Não estávamos, porque entretanto metade da população portuguesa tinha morrido por outras causas ou emigrado.
Dá a sensação que estes senhores se levantam da cama todos os dia a pensar "o que eu vou dizer e fazer"? sem qualquer ideia e à espera que terceiros, engenheiros matemáticos ou não lhe acendam a vela.
Assim não vamos á.
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De Carlos Sousa a 24.02.2021 às 13:59

Se todos tivessem o ordenado com menos 1/3 queria ver quem era a favor do confinamento? 
O governo está a gerir a pandemia com base nas sondagens, e infelizmente a maioria está a receber a 100%.
Quero ver é se a economia estoirar quem é que fica confinado com medo do vírus?
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De Anónimo a 24.02.2021 às 15:49

Também quero ver quando vier o contributo de complemento de solidariedade social!
Vem, vem! Mas "mascarado" com outro nome...
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De Anónimo a 24.02.2021 às 14:27

 As personalidades de esquerda pressionam a comunicação social por ter tão fraco sentido democrático a avaliar a governação na crise pandémica. Exigem que se acabe com o  excesso de imagens, de informação e menos escrutínio. 
Escusado será dizer que, no fim, caem todos nos braços uns dos outras e fica tudo resolvido a contento do governo. Medo de perder o poder?! Quem? 
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De Anónimo a 24.02.2021 às 15:13

salles quem puder
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De Anónimo a 24.02.2021 às 15:51

Em Portugal, servimos o estado e não o contrário e, por isso estamos a cuidar do SNS. Enfim. Pobre de quem precisa dos serviços de saúde. Espera, se aguentar. 


Henrique, sabe se está estimado, ou se é possível estimar, as pessoas realmente infectadas? Com os positivos para o vírus, mais os vacinados quantos de nós já teremos tido contacto com o SARS-COV2?


Fiquem bem,
Catarina Silva
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De Elvimonte a 24.02.2021 às 23:57


Não pretendo substituir-me ao autor do post, apenas tento fornecer alguns números.


No início de Outubro de 2020, afirmava um responsável da OMS:


«"Our current best estimates tell us about 10% of the global population may have been infected by this virus," said Mike Ryan, the head of emergency operations at the WHO.


Ryan made the comments as he addressed the WHO's 34-member executive board focusing on COVID-19. 


The figure represents more than 20 times the number of confirmed cases, which currently stands at more than 35 million.»
(https://www.dw.com/en/coronavirus-who-estimates-10-of-global-population-infected-with-covid-19/a-55162783)


«...our estimates showed that, as at 31 August 2020, the true number of people to have been infected across our sample of 15 countries was 6.2 (95% CI: 4.3–10.9) times greater than the reported number of cases. In individual countries, the true number of cases exceeded the reported figure by factors that range from 2.6 (95% CI: 1.8–4.5) for South Korea to 17.5 (95% CI: 12.2–30.7) for Italy.»
("Robust estimates of the true (population) infection rate for COVID-19: a backcasting approach", 
https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rsos.200909)


Outros números, agora relativos a taxas de mortalidade de infectados - número de infectados maior que o número de "casos" por um factor entre 2,6  e 20:


1- provenientes do artigo científico "Infection fatality rate of COVID-19 inferred from seroprevalence data", publicado no Bulletin of the World Health Organization:
«Across 51 locations, the median COVID-19 infection fatality rate was 0.27% (corrected 0.23%) (...). In people <70 years, infection fatality rates ranged from 0.00% to 0.31% with crude and corrected medians of 0.05%.»

(https://www.who.int/bulletin/online_first/BLT.20.265892.pdf)


2- provenientes da resposta ao artigo científico "Infection fatality risk for SARS-CoV-2 in community dwelling population of Spain: nationwide seroepidemiological study", publicada no BMJ:
« In Denmark, when blood donors were tested for coronavirus antibodies, the death rate for COVID-19 was only 0.16% (8).»
(https://www.bmj.com/content/371/bmj.m4509/rr)


Agora, como dizia alguém: "é só fazer as contas".

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De Anónimo a 25.02.2021 às 12:47

Grata pela resposta. 
Tentei encontrar algum estudo em relação à população portuguesa, mas não consegui. Já tivemos cerca de 800.000 casos positivos, se considerarmos o valor médio de 6,2 (média de 15 países, como tem acima) dá quase 5 milhões (3,5 milhões, se considerarmos o valor mais baixo, 4,3).
Será já suficiente para a "imunidade de grupo"? 


Catarina Silva
 
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De Elvimonte a 25.02.2021 às 18:38

Não me parece que haja alguém que possa responder à sua questão de forma peremptória. Aproveito, no entanto, para lhe deixar alguns artigos científicos - dos cerca de 20 existentes sobre o tema - onde se mostra que cerca de 50% das pessoas apresentam imunidade (cruzada) prévia ao SARS-COV-2 conferida pelas células T. Um facto sempre escamoteado e que convirá ter em conta. 


"Targets of T Cell Responses to SARS-CoV-2 Coronavirus in Humans with COVID-19 Disease and Unexposed Individuals" (publicado na Cell) 
(https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32473127/)
«Importantly, we detected SARS-CoV-2-reactive CD4+ T cells in ~40%-60% of unexposed individuals, suggesting cross-reactive T cell recognition between circulating "common cold" coronaviruses and SARS-CoV-2.» 


 "SARS-CoV-2-specific T cell immunity in cases of COVID-19 and SARS, and uninfected controls" (publicado na Nature)
(https://www.nature.com/articles/s41586-020-2550-z)
«SARS-CoV-2-specific T cells in uninfected donors exhibited a different pattern of immunodominance, and frequently targeted NSP7 and NSP13 as well as the N protein. Epitope characterization of NSP7-specific T cells showed the recognition of protein fragments that are conserved among animal betacoronaviruses but have low homology to ‘common cold’ human-associated coronaviruses. Thus, infection with betacoronaviruses induces multi-specific and long-lasting T cell immunity against the structural N protein.»  


"Immunodominant T-cell epitopes from the SARS-CoV-2 spike antigen reveal robust pre-existing T-cell immunity in unexposed individuals"

(https://www.biorxiv.org/content/10.1101/2020.11.03.367375v1)
«A key finding of our study is that pre-existing T-cell immunity to SARS-CoV-2 is contributed by TCRs that recognize common viral antigens such as Influenza and CMV, even though the viral epitopes lack sequence identity to the SARS-CoV-2 epitopes. This finding is in contrast to multiple published studies in which pre-existing T-cell immunity is suggested to arise from shared epitopes between SARS-CoV-2 and other common cold-causing coronaviruses.»


E será a grande prevalência deste tipo de imunidade, segundo se argumenta em determinados meios científicos, que tem permitido aos países asiáticos tão baixas taxas de mortalidade, ao contrário daquilo que a indústria noticiosa propala sobre a eficácia das medidas não-farmacêuticas lá usadas. 

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