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Pontos no ii sobre eucaliptos, fogos e Estado

por henrique pereira dos santos, em 30.07.18

Se se olhar para os números, ver-se-á que o eucalipto se vai expandindo paulatinamente até aos anos 80 do século passado, tem uma expansão bastante rápida nesses anos 80, e depois passa a uma expansão mais lenta a partir dessa altura, com uma quase estabilização nos últimos tempos.
Nada disso tem qualquer relação com o Estado, e passo a explicar.
A expansão inicial corresponde à procura, pelas pessoas comuns, de alternativas ao abandono de terras: a vida era miserável e as pessoas foram procurar uma vida melhor nas cidades, em França, na Alemanha, nos EUA (tal como tinham feito no fim do século XIX, princípios do século XX em relação ao Brasil e América, até à crise dos anos 20).
Na altura, plantar eucaliptos ou pinheiros era mais ou menos indiferente, mas o eucalipto, em Portugal, tem uma área de produção bastante mais restrita que o pinheiro, para além de exigir plantação, enquanto o pinhal já estava instalado e tinha boa regeneração natural. Note-se que ainda hoje o eucalipto não ocupa um milhão de hectares, mas o pinheiro já ocupou bem mais de um milhão de hectares, no seu apogeu, tendo-se hoje reduzido para metade, em poucas décadas.
Acontece que à medida que o consumo de papel aumenta e os processos industriais permitem o fabrico de uma excelente pasta de papel a partir de eucalipto glóbulos, o valor da madeira de pinheiro vai estabilizando ou mesmo diminuindo.
Ao mesmo tempo o abandono agrícola levou ao abandono do aproveitamento dos matos e o pinhal, cujo sub-bosque era gerido pela agricultura e a pastorícia, e começa a acumular-se combustível, dando origem à alteração do padrão de fogo tradicional (muitos fogos, pouco intensos e em mosaico) para o padrão de fogo actual (menos fogos, mas muito mais intensos e contínuos). Este processo está longe de ser específico de Portugal, afecta toda a Europa e está na base do crescimento da ideia de Rewilding, mas a velocidade a que se desenvolvem as plantas é que é, no Noroeste da Península Ibérica (Portugal a Norte do Tejo, Galiza litoral e Astúrias), bastante maior que na maior parte da Europa.
O pinheiro convive muito mal com padrões de fogo abaixo dos vinte a vinte e cinco anos, porque precisa de vinte anos para produzir um bom banco de sementes, ao contrário do eucalipto que convive razoavelmente com fogos com um período de retorno em torno dos 12 a 15 anos, visto que dá um corte aos 10 a 12 anos e rebenta de toiça após fogo.
Esta evolução deu uma vantagem enorme ao eucalipto e, nas zonas do país em que o eucalipto produz bem (essencialmente a faixa litoral a Norte do Tejo, o vale do Tejo, Mochique, e uma ou outra coisa fora destas zonas), o pinhal foi substituído por eucaliptal como alternativa ao abandono, a que acrescem os matos que foram transformados em povoamento florestal, primeiro sobretudo de pinheiro, depois sobretudo de eucalipto.
O eucalipto está mais ou menos no limite da sua área de boa produtividade, em especial porque os custos de produção aumentaram mas o valor da madeira estabilizou, o que vai reduzindo a área em que é rentável produzir eucalipto (o pinheiro, salvo áreas em que está instalado e uma ou outra região, há muito que deixou de ser rentável, ainda por cima com o risco de fogo que existe).
Ora o papel do Estado nisto tudo é um papel marginal (com alguma excepção no tempo do programa florestal do Banco Mundial, que financiou muita florestação, incluindo com eucalipto. A maior parte destas florestações desapareceram por falta de gestão, excepto o eucalipto, quando tinha gestão), entre outras razões porque os instrumentos administrativos têm alguma relevância para conduzir processos económicos dinâmicos, mas são razoavelmente inúteis quando não há processo económico (da mesma forma que uma barragem pode tirar partido de um rio, mas não produz água onde ela não existe).

Se se quiser continuar a ignorar a realidade e achar que são manobras obscuras de interesses inconfessáveis, continue-se, mas o mais provável é simplesmente não se ir a lado nenhum naquilo que verdadeiramente interessa: trazer gestão para onde ela faz falta e o mercado não a financia.

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5 comentários

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De Anónimo a 30.07.2018 às 11:14

arvores malditas:
sobreiro: no inicio do sec xx devido à pastorícia
pinheiro: Salazar mandou semear de avioneta e proprietários pagavam às crianças da escolas por cada  centena de plantas com um palmo
eucalipto: actualmente
como nas barbearias: 'o freguês que se segue'
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De Anónimo a 30.07.2018 às 12:43

Alguém viu eucaliptos em volta daquelas casas na Grécia?
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De Anónimo a 30.07.2018 às 13:53

A gestão florestal sempre existiu no montado inclusive naqueles onde o olival cortou milhares de hectares de azinheira e sobreiro. Infelizmente em Portugal omite-se muito por interesse... Omite-se no licenciamento, omite-se nas áreas de ocupação do eucalipto, omite-se nas áreas ardidas, omite-se nas áreas ardidas gerdidas por empresas de celuloses e agro florestais(existem milhares de hectares e de exemplos bem geridos que arderam abundantemente), omite-se nos apoios estatais e comunitarios que vão desde a agricultura, as barragens, aos bancos...portanto também existem na floresta e no eucalipto, o real problema são as organizações do chamado Bem  Comum que promovem elas mesmas os fogos baseados em interesses politico economicos. Porque se fossem interesses estrangeiros Portugal não seria o país com mais área ardida da europa e menos area geográfica. Ponto final.
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De Pedro Afonso a 07.08.2018 às 17:06

Deixo aqui um link para uma opinião de quem pensa em algo mais que meter dinheiro ao bolso com o negócio dos eucaliptos.
https://www.jn.pt/local/noticias/faro/monchique/interior/quercus-diz-que-perigosidade-do-fogo-de-monchique-deve-se-sobretudo-a-eucaliptos-9688606.html
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De Henrique Pereira Dos Santos a 07.08.2018 às 17:24

Talvez seja útil saber que a QUERCUS recebe muito mais dinheiro das celulose que eu (o que não é difícil porque eu não recebo nada, ao contrário da QUERCUS) 

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