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Estas fotografias, parecendo não ser tiradas exactamente do mesmo sítio (ou as características técnicas das fotografias não são semelhantes) são do mesmo sítio: a casa é a mesma, a ponte é a mesma.
A fotografia de cima é de 1956, a de baixo é de 2016, sessenta anos de diferença.
A economia que produzia a paisagem de 1956 não existe mais, não volta. Ainda bem, porque era uma economia de miséria e fome.
Daí que as propostas de gerir o problema dos fogos com base na ideia de que é preciso trazer pessoas para o interior sejam propostas enganadoras: mesmo que se fixem muito mais pessoas, seguramente não será a produzir o milho, feijão e abóbora que pagavam a gestão cujos resultados se vêem na fotografia de 1956.
Deixar correr o marfim, deixando que a evolução dos sistemas naturais prossiga com os resultados visíveis na fotografia de 2016 é uma opção. E é uma opção razoável (é aquela que é defendida, por exemplo, pelas pessoas que apoiam a Rewilding Europe) e, parcialmente, parece-me uma opção muito válida e sensata.
O que é fundamental é perceber os custos sociais associados a esta opção e fazer opções de política consequentes já que esta opção é a opção a que está associado o padrão de fogo que hoje conhecemos, cujos custos sociais ficaram bem claros neste ano.
O que interessa discutir são as opções de mercado e as políticas públicas que podem, ao mesmo tempo, ser sustentáveis a prazo e obter melhores resultados na gestão do fogo.
E isso tem muito pouca relação com as medidas que têm sido tomadas até agora pelo actual, e anteriores governos, para o mundo rural.
O que me tem levado a recusar a abrir a leque de propostas para a gestão do fogo, limitando-me a repetir exaustivamente: 1) é preciso pagar a produção de serviços de ecossistema e viabilizar as economias que podem gerir combustíveis; 2) é preciso integrar prevenção e combate; 3) é preciso profissionalizar bombeiros florestais, separando-os das funções de socorro; 4) é preciso que as comunidades que vivem no meio destes barris de pólvora sejam capazes de identificar os riscos e se mobilizar para se defenderem.
Tudo o que saia disto não me interessa porque só serve para dispersar esforços e recursos, como a ideia peregrina de gastar rios de dinheiro na recuperação de áreas ardidas quando o risco imediato está nas áreas que não arderam e precisam, urgentemente, de ser queimadas de forma controlada para se tornarem geríveis.
No fundo, para mim, o que é fundamental é saber responder a quem me mandou as fotografias: que faço eu, que vivo aqui ao lado? Como me defendo? Que técnicas e que meios existem que me possam garantir um mínimo de segurança sem me levar à ruína?
Que eu não saiba responder, é apenas a medida da minha ignorância, que nós todos, como sociedade, não saibamos responder, é uma tragédia.
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