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Pode ser que assim se perceba

por henrique pereira dos santos, em 26.11.17

1956.JPG

 

2016.JPG

 Estas fotografias, parecendo não ser tiradas exactamente do mesmo sítio (ou as características técnicas das fotografias não são semelhantes) são do mesmo sítio: a casa é a mesma, a ponte é a mesma.

A fotografia de cima é de 1956, a de baixo é de 2016, sessenta anos de diferença.

A economia que produzia a paisagem de 1956 não existe mais, não volta. Ainda bem, porque era uma economia de miséria e fome.

Daí que as propostas de gerir o problema dos fogos com base na ideia de que é preciso trazer pessoas para o interior sejam propostas enganadoras: mesmo que se fixem muito mais pessoas, seguramente não será a produzir o milho, feijão e abóbora que pagavam a gestão cujos resultados se vêem na fotografia de 1956.

Deixar correr o marfim, deixando que a evolução dos sistemas naturais prossiga com os resultados visíveis na fotografia de 2016 é uma opção. E é uma opção razoável (é aquela que é defendida, por exemplo, pelas pessoas que apoiam a Rewilding Europe) e, parcialmente, parece-me uma opção muito válida e sensata.

O que é fundamental é perceber os custos sociais associados a esta opção e fazer opções de política consequentes já que esta opção é a opção a que está associado o padrão de fogo que hoje conhecemos, cujos custos sociais ficaram bem claros neste ano.

O que interessa discutir são as opções de mercado e as políticas públicas que podem, ao mesmo tempo, ser sustentáveis a prazo e obter melhores resultados na gestão do fogo.

E isso tem muito pouca relação com as medidas que têm sido tomadas até agora pelo actual, e anteriores governos, para o mundo rural.

O que me tem levado a recusar a abrir a leque de propostas para a gestão do fogo, limitando-me a repetir exaustivamente: 1) é preciso pagar a produção de serviços de ecossistema e viabilizar as economias que podem gerir combustíveis; 2) é preciso integrar prevenção e combate; 3) é preciso profissionalizar bombeiros florestais, separando-os das funções de socorro; 4) é preciso que as comunidades que vivem no meio destes barris de pólvora sejam capazes de identificar os riscos e se mobilizar para se defenderem.

Tudo o que saia disto não me interessa porque só serve para dispersar esforços e recursos, como a ideia peregrina de gastar rios de dinheiro na recuperação de áreas ardidas quando o risco imediato está nas áreas que não arderam e precisam, urgentemente, de ser queimadas de forma controlada para se tornarem geríveis.

No fundo, para mim, o que é fundamental é saber responder a quem me mandou as fotografias: que faço eu, que vivo aqui ao lado? Como me defendo? Que técnicas e que meios existem que me possam garantir um mínimo de segurança sem me levar à ruína?

Que eu não saiba responder, é apenas a medida da minha ignorância, que nós todos, como sociedade, não saibamos responder, é uma tragédia.



9 comentários

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De Anónimo a 27.11.2017 às 09:37

é a opção a que está associado o padrão de fogo que hoje conhecemos, cujos custos sociais ficaram bem claros neste ano

Não propriamente. A opção que se vê na fotografia é o crescimento de espécies autótones, que na maioria dos casos ardem devagar e fazem poucas projeções a longa distância. O padrão de fogo que hoje conhecemos não depende, em grande parte, desse crescimento, mas sim da plantação deliberada de eucaliptos e pinheiros bravos, espécies que ardem como tochas e que enviam projeções de fogo a quilómetros de distância - pondo em perigo populações que até se consideravam seguras, mas que de repente vêem aterrar chamas no seu quintal.
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De henrique pereira dos santos a 27.11.2017 às 12:14

São exactamente histórias da carochinha dessas, sem a menor base factual e que pretendem que o barril de pólvora que está na fotografia de 2016 não arde que alimentam a continuação da tragédia.
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De Anónimo a 27.11.2017 às 14:48

pretendem que o barril de pólvora que está na fotografia de 2016 não arde

Eu não digo que aquelas árvores não ardam. Evidentemente que ardem. Mas são muito menos perigosas a arder do que eucaliptos e pinheiros, que ardem muito mais rapidamente. Ademais, os eucaliptos enviam projeções de fogo a longa distância, o que os torna ainda mais perigosos.
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De henrique pereira dos santos a 27.11.2017 às 22:44

A fé é uma coisa bonita, o problema é quando nega a realidade ao ponto de contribuir para tragédias, como é o caso deste tipo de afirmações: em condições meteorológicas extremas isto é essencialmente igual ao resto (e teríamos uma discussão longa sobre distâncias de projecção versus densidades de projecções a propósito do risco de quem mora ao lado destes barris de pólvora).
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De Anónimo a 27.11.2017 às 12:00

O relatório sobre o que ocurreu com os fogos em Pedrão Grande mencionado no
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De Anónimo a 27.11.2017 às 12:33

O relatório sobre o que ocurreu com os fogos em Pedrão Grande menciona que praticamente todas as mortes ocurreram durante a fuga em viaturas.
Na verdade nos EUA e no Canadá há muito tempo que se recomenda que em caso de fogo florestal a última atitude a ter é, exactamente, "fugir"  em viatura auto.

Aconselha-se claramente a antecipada prevenção no local. Ao nível telhados, janelas e recintos adjacentes. Regras simples e eficientes como uma Brigada civil local de acção rápida para extinguir focos....
Fugir em viatura envolve pré-preparação de viaturas e vias de fuga bem assim como uma antecedência nem sempre possível.
Os corpos de Bombeiros quase sempre nem sequer podem ocurrer à multitude de locais afectados pelo fogo e se puderem lá chegar provavelmente não será a tempo e a sua acção já será inútil.
Estudo e Prevenção local recomenda-se. As populações envolvidas deveriam ter acesso à referida formação, sobre auto-protecção local.
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De Anónimo a 28.11.2017 às 09:57

Lendo o dito relatório conclui-se que algumas pessoas fugiram em viatura precisamente porque... queriam salvar a viatura. Ou seja, as pessoas sentiam-se mais ou menos seguras em casa, mas não queriam que o automóvel ardesse lá fora, portanto meteram-se nele para fugir.
Os portugueses têm mais amor ao automóvel do que à própria pele.
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De Anónimo a 28.11.2017 às 10:00

Observando as imagens de muitas das casas destruídas pelos incêndios, é óbvio que o incêndio penetrou nelas pelo telhado. O facto é que frequentemente as telhas estão assentes em vigas de madeira, por baixo das quais pouco há. Se uma fagulha pega fogo às vigas de madeira do telhado, a casa está perdida.
É alura de o povo português começar a fazer um investimento em técnicas de construção modernas...
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De Anónimo a 30.11.2017 às 15:14

Exacto. Uma telhado, uma janela vunerável ao fogo. Solução ?. Prevenção a nível individual e local.
Os milhões que se gastam em viaturas de bombeiros que nunca se irão expor a cruzar um fogo que  atravessa uma estrada e que portanto nunca irão responder a um angustiado pedido de socorrro de uma pequena povoação isolada pelo fogo, são inúteis. Basta ver o que aconteceu e aonde ainda estão, treluzentes , essas viaturas, e como estão os restos carbonizados de outras viaturas, nas estradas de acesso.

Muitos de esses recursos financeiros melhor seriam empregues se em projectos de formação em prevenção local, nos pequenos povoados.
 
Camaras, J. de freguesias e demais entidades locais públicas e privadas, inclusivé bombeiros, na formação e implementação de técnicas de prevenção e auto-suficiência -individuais, colectivas, mas locais- nas pequenas povoações.

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