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Pérolas a porcos...

por Corta-fitas, em 12.04.19

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As palavras mais lúcidas que li até agora sobre a pedofilia na Igreja são de Ratzinger: a duríssima carta aos bispos da Irlanda e o texto conhecido ontem. Em ambos os textos, Ratzinger situa a origem do problema dentro, e não fora, da Igreja. Na carta aos bispos irlandeses, critica uma estrutura de poder muito condicionada pelos factores históricos específicos de uma sociedade em que a hierarquia eclesiástica era vista como guia espiritual da nação, estrutura essa que, na prática, protegeu os pastores e não as ovelhas (uma linha de pensamento que seria retomada pelo Papa Francisco sob o nome de clericalismo). Em certo sentido, o texto mais recente é o segundo painel de um díptico, agora mais atento aos factores culturais e doutrinais do que à questão do abuso de poder sempre presente na pedofilia. Sem surpresa, as reacções que li até agora ficaram pela superfície do pensamento de Ratzinger, ou seja, pelo Maio de 68, pela revolução sexual e pelo Benfica-Sporting a que os espíritos mais apressados reduzem a teologia. Poucos notaram o seu diagnóstico certeiríssimo de que a crise é muito mais profunda e começa na tentativa de substituir o direito natural pela exegese bíblica como fundamento da moral católica, um fenómeno de protestantização (a palavra é minha) que levou fatalmente ao relativismo dos anos 60 e do pós-concílio. Com efeitos óbvios na moral sexual, mas não só: atente-se em especial ao que é dito sobre a Eucaristia. Quem conhece minimamente a obra de Ratzinger sabe que este diagnóstico não é novo e não nasceu de um súbito ataque de pânico perante a dimensão do escândalo. O que me parece novo, e mais notável, é a sua reflexão espiritual (na terceira parte) sobre a natureza ao mesmo tempo histórica e salvífica da Igreja, uma reflexão que, como sempre em Ratzinger, vai aos fundamentos da coisa. É isso que verdadeiramente interessa. E é muito claramente dirigido para dentro, para os católicos, a quem Ratzinger, no fundo, convida a fazer um sério exame de consciência. Aliás, não será por acaso que o texto se publica em vésperas da Semana Santa. O resto é ruído. E não é com ruído que se resolve o problema.

 

Pedro Picoito



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