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Perguntas são bem vindas

por henrique pereira dos santos, em 23.12.20

25%? Porquê 25%, perguntam-me a propósito do post em que propunha um acordo para que os catatrofistas que andam a anunciar que o pior está para vir se deixassem disso se a meio de Janeiro o número de casos não fosse maior que o número do dia 24 de Dezembro em pelo menos 25%, já que andam a anunciar um efeito do Natal que vamos pagar caro em Janeiro.

Na verdade não há uma razão concreta para eu ter usado 25% em vez de 24 ou 26%, por exemplo, usei um número ligeiramente acima do que se verificou a meio de Dezembro nos EUA, depois de Fauci (entre outros) ter anunciado uma explosão de casos depois do Thanksgiving, sobretudo tendo em atenção a enorme movimentação de americanos.

O facto é que desde 9 de Dezembro, sensivelmente dez dias depois do Thanksgiving, exactamente quando os especialistas previam uma explosão de casos (naturalmente se houvesse uma explosão de contágios no fim de semana do Thanksgiving e Black Friday, os números só o reflectiriam a partir do quinto dia e mais expressivamente ao fim de uma semana), os EUA entraram num planalto de casos.

usa.jpg

O fim de semana do Thanksgiving corresponde à queda momentânea no gráfico, do lado direito, que tanto se verifica nos casos como na mortalidade e que corresponde ao facto de muita gente não trabalhar nesses dias e, consequentemente, haver menos processamento e registo de dados, não corresponde a qualquer alteração real na curva de casos, que se mantém em subida, impávida e serena, sem nenhuma aceleração visível de casos, muito menos a explosão de casos reiteradamente prevista.

Claro que amanhã pode haver de facto uma explosão de casos, o que já não faz sentido é atribuir essa alteração de tendência ao que se passou no fim de Novembro, princípio de Dezembro.

Claro que uma visão agregada dos Estados Unidos mascara a sua imensa variedade geográfica, e há muitos sítios onde é possível manter a ideia de um aumento de casos por causa do Thanksgiving, só que esta celebração, e os movimentos de pessoas a ela associados, são transversais a todo o país, portanto, a haver um efeito relevante no número de contágios, a curva agregada do país, com maior ou menor expressão, com certeza o mostraria.

Só que não há sinal de nenhuma ruptura da curva.

Agora olhemos então para o Natal em Portugal, à luz deste precedente.

Independentemente de nos próximos dias ser perfeitamente possível haver um aumento expressivo de casos por causa do aumento expressivo de testes, em consequência da prática, aliás compreensível, das pessoas se testarem antes de estar com alguns membros da família com quem não estão habitualmente, vamos admitir que no dia 24 de Dezembro, amanhã, estaríamos em tornos dos 4 mil casos (a média anda agora pelos 3500 a 3700, sendo menos nos números divulgados no Domingo, Segundas e Terças, e maior nos restantes dias, portanto hoje, quarta, haverá com certeza uma subida em relação a ontem que pode bem ficar acima dos 4 mil casos, sem que isso signifique alteração de tendência).

Os tais 25% de aumento até meio de Janeiro significariam mais mil casos, estaríamos portanto nos cinco mil, de média.

Já lá estivemos, portanto podemos admitir que a mortalidade associada andaria pelos 90 (depende muito do que se passa nos lares a mortalidade descer ou subir mais ou menos), o que corresponde a 20 mortes diárias acima do que temos agora.

20 mortes diárias a mais durante três ou quatro dias, das quais metade a dois terços seriam de pessoas com escassa esperança de vida (é impressionante como na avaliação dos efeitos sociais desta epidemia se omite, quase sistematicamente, o facto de metade a dois terços dos mortos registados com covid dizer respeito a pessoas que têm uma esperança de vida de menos de um ano).

Este seria então o preço a pagar pelo Natal menos confinado e que os defensores de medidas férreas de contenção de contactos quereriam evitar.

Para decidir é agora preciso pôr no prato da balança os efeitos de um Natal fortemente restritivo nos restantos aspectos que contam: saúde mental, solidão e abandono, sobretudo dos mayores, mas é bom não esquecer a crueldade de tribunais que pretendem impedir jovens de ir a casa pelo Natal para se perceber que é muito mais gente que os mayores, pobreza, deslaçamento social, etc..

O que posso dizer é que ainda bem que não tenho de ser eu a decidir, o que estranho é haver tanta gente que, também não tendo de decidir, faz campanhas inacreditáveis para influenciar esta decisão, para além dos que apoiam a decisão com a informação que produzem, esquecendo-se de escrever bem claro, nos seus relatórios, que apenas produzem uma informação parcial que não tem em linha de conta os custos associados às propostas que fazem.

Os 25% que usei é um número arbitrário, tem apenas a virtude de permitir estabelecer uma referência que torna mais difícil discutir o assunto abstractamente, em que num lado estão as afirmações demagógicas de que "todas as vidas contam e ninguém pode ser deixado para trás" para justificar medidas que deixam milhares de pessoas invisiveis para trás.

E permite discutir, a partir do meio de Janeiro, o que fazer da vez seguinte em que, mais uma vez, Pedro disser que vem lobo.



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