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Pensamento mágico

por henrique pereira dos santos, em 15.05.24

Paulo Fernandes, o mais citado investigador de ecologia do fogo que o país tem (e dos mais relevantes do mundo na matéria), disse que habitualmente usava um fotografia de um cogumelo para ilustrar o facto do fogo controlado não afectar a biodiversidade de forma relevante (não, não é para demonstrar coisa nenhuma nem é um argumento científico, é uma ilustração do que a ciência estabeleceu até agora sobre o assunto, usando outros métodos que não a publicação de exemplos contingentes):

441487150_10163240493337437_4267400210842318648_n.

(não sei de quem é esta fotografia).

e disse-o porque estava com intenções de passar a usar outra fotografia (esta de Silvana Pais) com um sapo em perfeitas condições de saúde a passear-se depois do fogo controlado:

442488356_10163240493062437_8874237053025786031_n.

Claro que nenhuma destas duas fotografias demonstra alguma coisa de essencial, apenas contraria a ideia de que o fogo destroi tudo e queima tudo, e o que o Paulo dizia era que apenas ilustrava o facto do fogo controlado ser genericamente inócuo para a biodiversidade (esta afirmação não resulta das fotografias, resulta de dezenas de estudos sobre o assunto, as fotografias apenas ilustram essa ideia, são evidências contingentes que, por si, dizem muito pouco).

Sem surpresa, a publicação destas fotografias, e respectivo comentário, desencadeou uma série de reacções assentes em pensamento mágico, sem qualquer base sólida, mas muito ilustrativa de como funciona a nossa cabeça e de como o conhecimento e a educação não nos defendem assim tão eficazmente das armadilhas de pensamento.

"Tadinho do bicho" é o nível mais razoável de comentários, que dá origem à resposta cartesiana normal, evidentemente ineficaz para responder ao choque emocional que motiva o comentário: "Não, está grato por ter potencialmente sido salvo de um futuro incêndio de verão".

O comentário que me parece mais eficaz, também vem ilustrado:

443940741_1818650688599464_216270295765759957_n.jp

(também não sei de quem é a fotografia) "Só quem estiver de má fé não consegue perceber que qualquer ser vivo que estivesse naquela urze sai dali completamente incólume... vá quanto muito com um bronzeado...".

É um comentário tão emocional como o primeiro, mas já alinhando na ignorância militante que permite e incentiva a ironia e a escapatória argumentativa habitual, quando falta racionalidade ao argumento, o julgamento moral do adversário.

A verdade é que desde a própria urze que está a arder desta forma e vai resistir ao fogo porque tem mecanismos de adaptação ao fogo, passando pela fauna capaz de se deslocar e que portanto se safa incólume por não ficar à espera, passando pelos seres vivos que estão na base da planta e camada superficial do solo, que não sofrem nada porque a irradiação de energia não é suficiente para alterar a temperatura ao nível do solo (por várias razões, incluindo exactamente a mesma que faz com que os cuspidores de fogo cuspam sempre quase na vertical para cima, e nunca, mas nunca, para baixo), passando por formas de vida sem capacidade de deslocação mas mecanismos de defesa adaptados, o facto é que a afectação provocada pelo fogo ilustrado na fotografia, do ponto de vista da biodiversidade, é irrelevante.

"Um sapo de perfeita saúde depois de um fogo?? Mesmo que só tenha ficado com queimaduras de 1 grau… E vai comer o quê? Francamente…", a inocência da indignação filha da ignorância, visto que não há queimaduras e o sapo se alimenta de invertebrados que são beneficiados com o fogo controlado, é outra das reacções associadas ao pensamento mágico, essencialmente assente em emoções e percepções superficiais sobre fenómenos complexos, como é o fogo.

É aliás curioso que qualquer pessoa saiba que usar fogo vivo ou fogo brando resulte em coisas completamente diferentes na cozinha, mesmo partindo dos mesmos ingredientes, mas ao mudar para a escala da paisagem considere que o fogo é todo igual e tem sempre os mesmos efeitos em contextos imensamente mais complicados que um tacho.

Depois podemos subir na sofisticação da argumentação, o que na prática se traduz em tentativas de racionalização do pensamento mágico, feitas essencialmente por quem tem mais conhecimento e formação em áreas científicas: não se vêem animais mortos porque "todos os sapos que morrerem enterrados enterrados ficam. Todas as salamandras, lagartixas, cobras-cegas, licranços, etc., que estão na manta-morta ou debaixo de pedras à superfície morrerão cozidas, carbonizadas ou simplesmente desaparecerão em fumo.".

O problema é que num fogo controlado não há energia suficiente para alterar, de forma relevante, a temperatura da camada superficial do solo ou afectar a manta morta (por definição, a humidade da manta morta é maior, pelo que é preciso energia para a secar primeiro, e depois a carbonizar, e essa energia não está disponível num fogo de baixa intensidade, sobretudo abaixo do plano em que se desloca a chama). O que quer dizer que o sapo da fotografia não é um exemplar único dos muitos que existiam (ou que foi despertado da sua hibernação pelo calor do fogo, como outra pessoa dizia) e terão morrido debaixo do solo ou das pedras, porque não há alterações relevantes de temperatura no solo e debaixo das pedras.

Eu próprio já caí nesse erro de raciocínio numas experiências de indução da germinação de sementes de acácias com fogo controlado, tendo depois conluído que se a eliminação de sombra e a alteração da cor da superfície até poderiam ter um efeito marginal de indução das sementes, não havia indução directa por alteração da temperatura abaixo do solo.

Há sempre quem argumente com exemplos de fogos com outras características, como os animais mortos no incêndio do pinhal de Leiria, sem ter em atenção que tipicamente um fogo controlado se desloca a uma velocidade de 0,1 a um metro por minuto (contra a velocidade do fogo do pinhal de Leiria em torno dos 50 a 100 metros por minuto, ou seja, cem vezes mais rapidamente) e uma intensidade em torno dos 10 a 500 kW/m (contra intensidades de 10 000 a 100 000 kW/m, ou seja, uma intensidade mais de mil vezes superior). Os números são de uma resposta do Paulo Fernandes.

Normalmente acaba sempre por aparecer um académico encartado (mas que nunca estudou academicamente o assunto em causa) que faz uma citação de um estudo que não diz nada sobre a matéria para além daquelas precauções que todos os académicos são obrigados a pôr nos seus artigos, a dizer que o que não está demonstrado está por demonstrar, contrapondo a honestidade dos académicos citados à honestidade dos académicos que se pretende contestar, que é evidentemente miserável.

O uso do pensamento mágico para contestar as opiniões de que se não gosta acaba sempre no mesmo sítio: na discussão dos interesses que fazem com que coisas com que não concordamos estejam a ser defendidas por pessoas que sabem mais que nós do assunto.

Isto é permanente nas discussões sobre fogo, sobre conservação, sobre ambiente, mas seguramente é uma coisa muito transversal.

Razão tinha o meu paizinho: quem não confia no árbritro, não joga.


2 comentários

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De balio a 15.05.2024 às 13:13


uma intensidade em torno dos 10 a 500 kW/m


Quilowatts por metro, ou por metro quadrado?
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De henrique pereira dos santos a 15.05.2024 às 15:55

metro linear. A frente de fogo é uma linha e a intensidade é medida pela energia que essa linha irradia, medida em kW/m

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