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Patos inexistentes e ratos com sombrero

por José Mendonça da Cruz, em 08.12.25

Depois de uma comunicação da ministra da saúde sobre gripe e vacinas, com duração de cerca de 5 minutos, se tanto, vejo na Sic Notícias um pobre homem fazer sobre o assunto uma «análise» com mais do dobro do tempo, em que «achou», «pareceu-lhe», e «pensou que» diversas coisas sem interesse de espécie alguma e com grau zero de conteúdo útil. No Observador, Miguel Tamen lavrou há tempos a sentença definitiva sobre a multidão de «comentadores» e «analistas» com que os canais supostamente informativos se entretêm (naquelas que acha «actividades de segundo grau») a não ter que informar. Recordo:

O Triunfo dos Desenhos Animados

O modelo dos desenhos animados clássicos deu por fim aos noticiários contemporâneos uma racionalidade económica que explica o seu prestígio e a sua duração.

Nos canais de notícias contemporâneos assiste-se ao triunfo dos desenhos animados clássicos. O segredo reside na combinação de séries muito longas com acontecimentos muito simples. A simetria entre as sequências sugere que as coisas têm todas a ver umas com as outras. Tal como as crianças clássicas sabiam que aquilo que se passa com um pássaro implume não é diferente do que acontece a um rato mexicano, assim se sabe o que acontece em cada notícia: acontece o número e o género de coisas que acontecem sempre, independentemente do ar daqueles a quem acontecem.

 

Num ponto ou noutro terá havido alterações em relação ao mundo clássico dos desenhos animados. O caso mais notório é o das actividades de segundo grau. Com uma maestria ainda desconhecida na antiguidade desenvolveu-se um processo técnico que tornou possível que de um lado do écrã se contemplem as mesmas sequências de imagens, como nas grandes perseguições clássicas se viam os desertos, as nuvens e os cactos; e do outro lado do écrã se observem pessoas a murmurar, no tom surdo dos adultos também característico dos melhores desenhos animados da antiguidade.

 

Ninguém ignora que esses adultos que murmuram em paralelo com imagens reiteradas são todos o mesmo animal, umas vezes com bico e outras com sombrero. A sua função é a de relatar qualquer coisa que lhes passou sob o chapéu ou foi posta no bico enquanto as imagens passam; mas porque essas imagens passam muitas vezes, os adultos relatam a mesma coisa muitas vezes; é talvez por isso que nos hospitais e nas repartições os seus murmúrios passam sempre sem som. O público sabe antecipadamente o género de coisas que os adultos implumes dizem; mas quer voltar a ver as imagens.

 

Um clássico nunca é todavia unicamente o resultado de uma técnica, ainda que elaborada. As semelhanças entre os desenhos animados clássicos e os noticiários contemporâneos são independentes da técnica. Há duas semelhanças principais: o que se passa já é conhecido; e nunca é irremediável. Sabe-se de facto que todos no mundo se estão sempre a perseguir, a precipitar e a esmagar; e que chovem bigornas e explosivos. Qualquer criança pode prever que aquilo que aconteceu a alguém num sítio irá mais tarde ou mais cedo acontecer a outra pessoa numa outra ocasião; e tudo várias vezes.

 

O modelo dos desenhos animados clássicos deu por fim aos noticiários contemporâneos uma racionalidade económica que explica o seu prestígio e a sua duração. Nos desenhos animados clássicos o investimento para criar um pato inexistente não era superior ao investimento para criar um coelho que também não existisse. Os noticiários seguiram este método. Quem aparece nas notícias ou as apregoa é sempre o mesmo animal inexistente, diferindo apenas nas matérias menores de bico ou de sombrero. A produção dos noticiários tem por isso também os custos baixos dos desenhos animados.


15 comentários

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De Anónimo a 09.12.2025 às 11:38

Minorias Étnicas que pela ordem natural das coisas, muito rapidamente passarão a Maiorias Étnicas, passando os Portugueses a Minoria em via de extinção.


Provavelmente não se perderá grande coisa, mas há uma certa tristeza quando se pensa nos penosos quase novecentos anos, que levamos a arrastar a velha carcaça até aqui.


Afinal era mesmo o velho do Restelo que estava cheio de razão 

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