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Parto sem dor

por henrique pereira dos santos, em 03.08.22

Se eu aceitasse a treta do "lugar de fala", nunca escreveria uma linha, claro, porque o parto é uma experiência pessoal que me está vedada (felizmente, direi eu, mas haverá quem discorde destas diferenças de género que beneficiam sempre os mesmos).

Acontece que a treta do "lugar de fala" por um lado pretende impedir uns grupos sociais de falar sobre assuntos que algumas pessoas consideram que apenas podem ser enunciados por quem elas escolhem ser moralmente qualificados para falar deles, para além de partirem do princípio de que as ideias e pontos de vista de cada pessoa estarem automaticamente definidos pela pertença a um grupo.

Acresce que conheço de gingeira onde nos levam essas tretas morais baseadas em identidades de grupo: o mais jurássico dos partidos portugueses, o Partido Comunista, sempre aplicou essas tretas, em especial a regra de ouro da maioria operária do comité central - uma evidente aplicação prática do "lugar de fala" - mas, como seria sempre inevitável, acabou nas mistificações de considerar, ainda hoje, Jerónimo de Sousa como operário e Mário Nogueira como professor, para conseguir manter essas ficções destinadas à manipulação destinadas a impedir que os factos influenciem as ideias das pessoas envolvidas.

Entremos então no assunto dos partos, sabendo que essa ser-me-á uma experiência vedada.

Envolvi-me recentemente em duas pequenas trocas de argumentos à volta da senhora que perdeu o bebé no fim do tempo do parto, tendo andado de hospital em hospital.

É uma história triste de uma mulher que faz opções sobre o seguimento da sua gravidez, por razões que nos são desconhecidas, de uma médica que faz opções no seguimento dessa gravidez, por razões que nos são desconhecidas, e de um sistema de ermgência médica que não terá respondido como seria de esperar.

Não sabemos se o desfecho do caso poderia ser outro com outras opções, mas em vez de seguir o velho conselho de Gilberto Gil ("Quando uma pessoa chora seu choro baixinho/ De lágrima a correr pelo cantinho do olhar/ Não se pode duvidar/ Da razão daquela dor/ Não se pode atrapalhar/ Sentindo seja o que for"), algumas pessoas acharam por bem discutir a guerra entre privados e públicos na saúde, acabando, em alguns casos, no argumento de que os privados fazem muitas cesarianas porque dá mais dinheiro.

Estranhei, e estranho, o argumento, porque a decisão - salvo em situações de urgência médica - ser sempre da mulher, e portanto tenho sempre dificuldade em aceitar, sem mais, argumentos que implicam que há muita gente estúpida a tomar decisões contra o seu interesse, manipulada por gananciosos.

Acho até um argumento que menoriza as mulheres e a sua capacidade de tomar decisões pela sua cabeça e estranho também que feministas encartadas ouçam este argumento sem imediatamente assinalar como lhe falta respeito pelas mulheres.

Deixei de discutir quando a argumentação chegou a este nível: "uma cirurgia faz se quando é necessário não deve ser feita por conforto nem por decisão da mulher. Quem não quer ter filhos opta por não os ter e além disso há outras formas de tornar o parto mais confortável que não passam por uma cirurgia. Obviamente que os preços de um parto natural e de uma cirurgia são diferentes e sim, há médicos nos privados com taxas de cirurgia absurdas porque dão lucro. São aliás pressionados para o lucro".

As dificuldades dos sistemas de saúde lidarem com o facto de ser cada vez mais caro prestar cuidados de saúde a todos não é uma especificidade portuguesa, mas a esse plano geral, soma-se em Portugal uma dificuldade acrescida dos sistemas estatais lidarem com as consequências das decisões de gestão que são tomadas.

Muitas dessas decisões têm efeitos dificilmente detectáveis nas estatísticas - por exemplo, a nova presidente do IPO vem do gabinete da Ministra. Pode ser a pessoa mais competente do mundo, e mais adequada ao lugar, mas é inevitável que, a juntar a todo o desconforto do pessoal de saúde, a proveniência da senhora junte um sentimento de desconfiança às razões que estão na base da nomeação, alimentando o desalento que ali grassa - outras têm efeitos muito concretos e visíveis, como a decisão de acabar com a PPP na saúde, por meras razões de gestão de mercearia do governo: Costa precisava de ir dando uns rebuçados ao Bloco para manter viva a sua carreira política.

No tal plano geral, obstetrícia parece ser uma das especialidades que mais problemas têm vindo a ter pelo mundo fora e não percebo nada do assunto para saber quais são. Por exemplo, dizem-me que vários médicos da especialidade preferem concentrar-se na área da fertilidade, onde se ganha muito mais dinheiro e há muito menos pressão profissional, o que retira médicos daquilo que eram as suas tarefas predominantes no que diz respeito a grávidas e partos, e tal nunca me tinha passado pela cabeça.

Mas o que verdadeiramente me fez escrever este post foi isto: "uma cirurgia faz se quando é necessário não deve ser feita por conforto nem por decisão da mulher. Quem não quer ter filhos opta por não os ter".

Isto é um ponto de vista moral sobre decisões de terceiros, partindo de um ponto de vista sectorial e tecnocrático, o do sistema de saúde, e desvalorizando totalmente a vida das pessoas concretas e das suas circunstâncias, incluindo o seu direito a errar nas decisões que tomam.

Isto é o que está na base da nossa aceitação da ideia, para mim absurda, de que as pessoas se têm de comportar assim ou assado para poupar o sistema de saúde, ou para gerir os fogos e, se preciso for, devem impor-se coercivamente comportamentos individuais que assegurem a protecção de bens comuns.

Um dia esta rampa deslizante da desvalorização do indivíduo a troco do que em cada momento as classes dominantes consideram o bem comum talvez chegue o ponto em que procurar prolongar a vida o mais possível passará a ser moralmente inadmissível por não proteger a segurança social.

Talvez nesse dia a maré comece a mudar de novo.



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