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Outro Mundo

por José Mendonça da Cruz, em 28.11.14

 

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A entrevista do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho à RTP1, ontem, tranquilizou-me e deu-me esperança. Ela foi tranquilizadora de uma maneira detestável para os socialistas, e esperançosa de uma forma que o velho Portugal dos interesses abomina.

Passos Coelho foi institucional quando devia ser e acerca dos temas em que deve sê-lo. Afirmou a «confiança nas instituições», a tranquilidade de ver «a justiça faz(er) o seu trabalho», e absteve-se de comentar a situação do PS pós detenção de Sócrates, se fica com mais ou menos dos seus homens, porque «isso é com o PS». Houve quem lhe criticasse a frieza, e compreende-se; é outro Mundo de normalidade democrática quando comparado com as frases emocionais e patéticas de anarquistas serôdios às portas de uma cadeia (fruto talvez da tal «ética republicana»).

Foi pedagógico quando pareceu justo para a situação e para o seu governo que o fosse: como quando lembrou, a propósito da Justiça, que o que dá intranquilidade aos portugueses é a tentação de abafar casos quando  envolvem altos quadros do Estado; ou quando recentrou a questão do BES, recordando que a culpa «não foi da supervisão, foi da má gestão»; ou quando explicou que os que defendem a intervenção na PT «estratégica» estão a defender a nacionalização, ou seja, o uso de dinheiro dos contribuintes para resolver questões privadas, e que são essas intervenções do Estado que levantam dúvidas sobre que interesses estão afinal a ser protegidos.

Não passou nem meia hora para que viesse Vieira da Silva, ministro e amigo de Sócrates, criticar em nome do PS o governo porque «se demite em questões fundamentais». Assim confirmava o que Passos Coelho dissera na entrevista: que o procedimento do governo marcava «uma importante diferença». Marca. É outro mundo de mercado livre, previsibilidade e transparência.

Passos Coelho foi liberal onde devia -- na defesa da decisão de deixar os privados da PT entregues aos seus erros e longe do nosso dinheiro -- e prudente onde era bom que o fosse -- na defesa de uma solução para o risco sistémico da falência do BES, com redução ao mínimo do risco para os contribuintes. Esteve fiel ao mundo que recusou 2,5 mil milhões do nosso dinheiro a um Ricardo Salgado falido, um mundo nos antípodas dos que julgam que o dinheiro aparece sempre e que o governo «quis atirar o BES para o charco».

Foi categórico onde a credibilidade recomenda que o seja (a meta do défice abaixo dos 3% para 2015 é «um ponto de honra» para o seu governo) e serenamente optimista como ainda não o víramos sê-lo (quando considerou que era razoável uma «perspectiva de aumento de rendimentos e bem-estar», embora avisando que não é do curto prazo). O porta-voz socialista veria aqui uma prova de que o primeiro-ministro está «gasto» e que «não dá alento». Mas compreende-se que o PS não compreenda: este Mundo das contas certas está a anos luz da governação «feroz», «combativa», «optimista» e «dinâmica» que o PS tanto aprecia e que só abandona quando a bancarrota exige outro governo que endireite as coisas e dispare sobre as fantasias ruinosas.

Passos Coelho foi, por fim, claro e positivo sobre o futuro das contas públicas: a carga fiscal é «excessiva», e o governo quer baixar o IRS, mas «o que temos que fazer mesmo é reduzir a despesa para baixar os impostos». E deixou a justa dúvida sobre se o Tribunal Constitucional deixa. Não houve tempo para falar do IRC, mas ele baixou e continuará a baixar, «isso está feito», disse o primeiro-ministro.

Mas para Vieira da Silva, a entrevista foi «uma desilusão». E como não haveria de sê-lo para o porta-voz ad hoc do partido que subscreveu a reforma do IRC e, tão cedo mudou de líder, renegou o que assinara (já treinara isto com o Memorando) ? É que são mundos diferentes: o governo quer deixar mais dinheiro nas empresas para que estas invistam e empreguem; o PS quer tirar mais dinheiro às empresas, para o investir ele e ser ele a dar emprego.

E conseguiu o primeiro-ministro, nesta entrevista, ser entusiástico e caloroso, prometer dias radiosos, prever amanhãs que cantam? Não, não conseguiu. Não tentou. Foi reservado, foi comedido, foi político. É uma coisa dele. É uma coisa que dista galáxias e tem nojo a esse mundo em que se promete a salvação com proclamações suicidárias de renegociação da dívida (em vez de pela melhoria de juros e maturidades, como mesmo agora o governo fez novamente com a discreção apropriada), em que se promete obter «da Europa» o que «a Europa» vinte vezes reiterou que não dá (nem a nós, nem à Grécia, nem a Itália, nem a França) e em que se aposta em «políticas de crechimento» que, como com Sócrates, obtêm taxas de crescimento negativas, e em «políticas para as pessoas» que, como no governo socialista, não páram a subida em flecha do desemprego que ultrapassou os 10% antes da crise.

É, é de facto outro mundo.

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