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Outra vez a sazonalidade

por henrique pereira dos santos, em 18.04.21

biomas.jpg

O mapa acima é um dos muitos que se podem fazer sobre o assunto, seja por regiões climáticas, eco regiões, biomas (como é o caso), o que se quiser.

Deixem-me chamar a atenção para aquelas manchas roxas no lado ocidental dos continentes, um pouco a Sul do 40º de latitude, no hemisfério Norte, um pouco a Norte da latitude equivalente, no hemisfério Sul.

Estas manchas roxas são um bom referencial para olhar para o mapa porque corresponde ao clima que conhecemos melhor, o mediterrânico, e que apenas aqui onde estamos entra mais profundamente num continente, porque o Mediterrâneo o permite. Na América, seja a do Norte, onde encontramos este clima num bocado da Califórnia, seja a do Sul, onde encontramos este clima no Chile (já agora, zonas conhecidas pela presença frequente do fogo, o que não é difícil de entender por ser o único clima do mundo em que a estação quente e a estação seca coincidem no tempo), há apenas estreitas faixas litorais deste clima. Na Austrália também se desenvolve mais longitudinalmente porque acompanha a limite Sul da ilha.

Note-se também que na América do Norte e na Eurásia há muita terra entre este clima e o Pólo Norte, mas a Sul o equivalente geográfico é ocupado essencialmente por água.

No hemisfério Norte há desertos a Sul deste clima, no hemisfério Sul os mesmos desertos estão a Norte, a latitudes equivalentes (por isso estes agricultores new age que pretendem semear chuva não me convencem grandemente).

Tudo isto se relacionada com a circulação da atmosfera, que está relacionada com centros de altas e baixas pressões e com a rotação da Terra (esquema abaixo).

1280px-Earth_Global_Circulation.jpg

Como me dizia um dia destes quem percebe muito mais de biogeografia que eu "É evidente que os efeitos da sazonalidade apenas são visíveis onde essa sazonalidade existe. ... o padrão global de sazonalidade é marcado pelas regiões temperadas, onde a maior parte da população mundial se concentra".

Nas regiões tropicais - isso está abundamentemente estudado, seja para doenças deste tipo, seja para muitos outros fenómenos naturais - o padrão depende menos de uma sazonalidade ligada às estações do ano pela simples razão de que essas estações do ano não existem: a temperatura varia relativamente pouco ao longo do ano, o foto-período varia muito menos ao longo do ano, a humidade varia entre a estação seca e a estação das chuvas, mas a relação dessa variação com muitos fenómenos naturais, como por exemplo as doenças infecciosas respiratórias, é muito menos conhecida e, provavelmente, tem muito menos peso na actividade viral que tem a marcada variação sazonal das regiões temperadas.

De resto, existem poucas regiões temperadas e densamente povoadas no hemisfério Sul, portanto pretender negar ou desvalorizar a evidente sazonalidade das regiões temperadas do hemisfério Norte, onde estamos, contrapondo exemplos como o Brasil, a Índia e a África do Sul (onde apenas existe uma pontinha de clima mediterrânico na província do Cabo, e daí para Sul, nas latitudes que correspondem às zonas temperadas do hemisfério Norte, é só água) não tem pés nem cabeça.

De resto, não existe, nos dados de mobilidade e densidade de contactos, absolutamente nada de tão excepcional no Natal, e de tão diferente do que se passou na Páscoa que possa justificar a manutenção da história da carochinha que nos têm contado sobre as razões para o que se passou em Janeiro e, mais importante, para justificar as constantes ameaças sobre o que aí vem, que os mais sofisticados já nem tentam justificar com os números de evolução da epidemia, mas apenas com conceitos abstractos como o princípio da precaução.

Há um mês que estamos com uma mortalidade global abaixo do que seria de esperar para esta época do ano, há um ror de tempo que a mortalidade covid está abaixo dos 5% da mortalidade global (provavelmente correspondendo, em grande parte, a mortalidade global de pessoas que testam positivo para a covid, mas esqueçamos isso), o ano passado demonstrou que quem disse que a mortalidade excessiva acabaria por volta da semana 19 do ano (estamos a entrar na semana 16 deste ano) teve razão, e continuamos a falar da necessidade de cautelas no desconfinamento, com base em opiniões não sustentadas de pessoas que não se entende por que razão têm tanta influência nos jornais.

Acresce que há um conjunto de estados nos Estados Unidos que se deixaram de parvoíces e eliminaram a generalidade das regras coercivas (o que é diferente de eliminar as recomendações para que as pessoas saibam que há uma epidemia em curso e de que forma se podem defender dos seus efeitos negativos, sem com isso criar outros efeitos negativos ainda maiores), sem que se tenham verificado os tais efeitos previstos pelos profetas do apocalipse se não estivermos todos em casa.

São os mesmos que no princípio de Março avisaram, com ar muito sério, para o preço que iríamos pagar quinze dias depois do movimento generalizado das pessoas no último fim de semana de Fevereiro, depois avisaram que os efeitos do primeiro desconfinamento (a 15 de Março) iam sentir-se antes da Páscoa, depois avisaram que os dados da mobilidade na Páscoa eram muito preocupantes e as pessoas não estavam a cumprir as regras, o que iria ser pago quinze dias depois como tinha acontecido no Natal, depois avisaram que era evidente que ter toda a gente nas esplanadas a 5 de Abril ia dar origem a uma grande quarta vaga daí a 12 a 15 dias (é hoje!, é hoje!).

E a imprensa em vez de lhes perguntar para que raio servem modelos que erram permanentemente, mesmo no curto prazo e de forma grosseira, e que não conseguem ser calibrados para a realidade do que aconteceu (algum desses senhores já desenhou um modelo, com os dados de mobilidade do Natal que explique o que sucedeu depois e consiga, ao mesmo tempo, manter a consistência entre dados de mobilidade e o que se está a passar desde o fim de Janeiro?), continua a servir de caixa de ressonância de paranóicos que escolhem ignorar tudo o que se sabe sobre sazonalidade.

Nem sei por que razão me admiro, suspeito que a maioria dos jornalistas que escrevem sobre a epidemia não sabe olhar para um mapa, quanto mais interpretá-lo, e portanto acha normal interpretar os dados de evolução de uma epidemia como se o mundo fosse um tabuleiro uniforme em que apenas os contactos podem explicar as variações da evolução geográfica de uma epidemia.

E, também por isso, acham normal que se impeça as esplanadas de estarem abertas num fim de semana de Sol como este, porque é mesmo fundamental manter as pessoas em casa, apesar das pessoas sairem na mesma e os hospitais estarem vazios.

É triste nascer entre brutos, viver entre brutos e morrer entre brutos, como parece que terá dito o outro.



11 comentários

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De Anónimo a 18.04.2021 às 17:07

Neve da Bélgica à Turquia. Em Portugal desde o fim de Janeiro que as temperaturas têm estado estáveis, mas é curioso que por exemplo em Lisboa até dia 30 de Março a temperatura mínima mais elevada do ano registada até à data era 13,7 a 26 de Janeiro (a mesma coisa em relação a uma média a 7 dias, só em Abril tivemos uma média superior à de final de Janeiro). 

Mas na Europa o Inverno ainda se faz sentir, aqui apenas alguns exemplos.

Bélgica 

https://www.brusselstimes.com/news/belgium-all-news/164531/more-snow-in-parts-of-belgium-today-rain-elsewhere/



Hungria


https://hungarytoday.hu/winter-strikes-back-with-more-april-snow-photo-gallery/



Grécia (norte)


https://www.tornosnews.gr/en/greek-news/society/43934-greece-divided-snow-in-the-north-over-30ºc-in-the-south.html



Turquia (de Março mas continuou em Abril)


https://www.hurriyetdailynews.com/unexpected-snowfall-hits-turkeys-metropolises-163395

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De Elvimonte a 18.04.2021 às 21:33

Factos que o actual SG da ONU, ex-PM Guteres, e muitos outros eivados pela crença que aproveitam para advogar que no futuro ninguém terá nada e seremos todos felizes, numa extensão do Great Reset do WEF, justificará com o aquecimento global, modernamente designado por alterações climáticas, onde tudo cabe mesmo que o frio seja de rachar. Alterações climáticas cuja culpa é do homem branco heterossexual e só dele, que fique bem claro.   
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De Anónimo a 18.04.2021 às 20:40


É bem verdade. Acompanhei do desenvolvimento dos estados americanos que acabaram com a obrigação de máscaras e confinamentos, e que contráriamente ao apocalipse que estes falsos profetas anunciavam - pasme-se - estão hoje bem melhor que os restantes.
É também por isso que não se fala deles. Não ajuda à narrativa.
Chegamos ao ridiculo de a televisão fazer obituário diário de meia duzia de habitantes por COVID numa população de + de 10 milhões. Ou dois como já foi o caso.
Relativizando: 2 versus +10,000,000. Não somos todos parvos e sabemos que é no Inverno que há gripe e mortalidade.
"Ah mas, e as urgências nos hospitais, os números avassaladores, etc, etc"
https://www.cmjornal.pt/portugal/detalhe/gripe-leva-16-mil-por-dia-ao-hospital
O problema da notícia anterior, é que refere a 2007...

País de tolos, tenho dificuldade em acreditar que este nosso protectorado sob administração delegada globalista/socialista chegue a comemorar um milénio de existência.
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De Anónimo a 18.04.2021 às 21:35

Para mim esta notícia é bem representativa no que diz respeito ao alarmismo da comunicação social. Outubro de 2020, mais uma vez se ouve e lê na comunicação social que o Hospital Beatriz Ângelo está no limite, este hospital era recorrentemente mencionado. Depois de tanto ouvir falar disso lá fui ver o que se passava. O que se passava, como podemos ler neste link de 8 de Outubro da sic notícias, é que, como diz o título: "Cuidados intensivos atingem a capacidade máxima no hospital Beatriz Ângelo".


Depois lemos os pormenores e vemos que o dito hospital só tinha 22 camas de cuidados intensivos, das quais nada mais nada menos que seis eram pacientes COVID... 


https://sicnoticias.pt/especiais/coronavirus/2020-10-08-Cuidados-intensivos-atingem-a-capacidade-maxima-no-hospital-Beatriz-Angelo
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De s o s a 19.04.2021 às 00:30

ao menos destaca-se pelo esforço. 


Para nao dizer que pouco ou nada percebi, digo que nao me convence. 


Independentemente da logica do eu sei, os outros nao, como se confirma no ultimo paragrafo,  permito-me concluir que está a defender o idiotice do confinamento, pois, afirma, ou é como se afirmasse, continuaremos a morrer 2 ou 3 por dia, e os que nao morrem...ficam gratos por poderem continuar a fumar. 
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De balio a 19.04.2021 às 09:29


Toda esta conversa é muito amena porque Portugal está com números baixos. Mas veja-se a Espanha aqui ao lado, está com uma média de 10 mil novas infeções e 120 mortes diárias - o que, tendo em conta a diferença de população para Portugal, seria equivalente a termos em Portugal 2500 novas infeções e 30 mortes diárias, ou seja, aproximadamente o quíntuplo daquilo que temos. Ou seja, Espanha pode ter o mesmo clima e a mesma sazonalidade que nós temos, mas está com a epidemia cinco vezes pior do que Portugal. E Itália, outro país mediterrânico, está com números similares aos espanhóis (em matéria de mortes, está até muito pior).
Ou seja, a bela sazonalidade que estamos a apreciar em Portugal é uma exceção, não é a regra!
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De Joaquim Reis a 19.04.2021 às 12:07

A sazonalidade não se observa em números absolutos, mas relativos. Em Espanha (e convém notar que a Espanha não é uniforme no que toca ao clima) a sazonalidade da COVID é tão evidente como em Portugal. Mas em Espanha as restrições são substancialmente menores que em Portugal, e dizer que há sazonalidade não é o mesmo que negar o efeito das medidas restritivas. Outra coisa bem distinta é fazer a avaliação custo/benefício, e do risco que a sociedade está disposta a correr, e em Portugal tomou-se a opção clara de risco nenhum (em termos de COVID, porque o risco para o tudo o resto é bem maior). Em Madrid por exemplo a opção tem sido minimizar o risco económico e aceitar o risco COVID, mantendo-se as restrições no mínimo. E sem surpresa os números de COVID são dos piores em Espanha, mas assumidos por uma parte significativa da sociedade.
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De Anónimo a 19.04.2021 às 14:32

Espanha pode estar pior que Portugal neste momento, mas em Janeiro aconteceu o contrário. E no cômputo global (total de mortos covid desde o início da pandemia) os dois países estão a par.
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De balio a 19.04.2021 às 15:39


no cômputo global (total de mortos covid desde o início da pandemia) [Espanha e Portugal] estão a par


Acredito que sim, e vou mais longe, prevejo que no cômputo final (quase) todos os países europeus irão ficar muito próximos uns dos outros. (Exceto pela atuação das vacinas, que a uns países chegaram mais cedo do que a outros.) Isto porque a mortalidade total tenderá a ser igual à suscetibilidade da população ao vírus, que é a mesma em todas as populações da Europa, e muitíssimo superior à suscetibilidade das populações da Ásia. Note-se que em toda a Ásia (Coreia, Japão, Vietname, China...), independentemente dos regimes políticos e das medidas tomadas, a mortalidade acabou sempre por ser muito fraca, despicienda mesma, o que mostra que as populações asiáticas devem ter muito maior imunidade a este tipo de vírus do que as europeias. Da mesma forma, em África a mortalidade parece ser sempre baixa.
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De balio a 19.04.2021 às 15:43


Espanha pode estar pior que Portugal neste momento, mas em Janeiro aconteceu o contrário.


Certo. E isto mostra que não é somente a sazonalidade que está em causa. O que eu quero dizer é que não nos podemos fiar na sazonalidade para nos pormos a prever que a epidemia não irá recrudescer em Portugal. Se a epidemia em janeiro foi muito má em Portugal mas não tanto em Espanha, e em abril está a acontecer o contrário, isso quer dizer que há efeitos que nada têm a ver com a sazonalidade. E, se esses efeitos existem e se são até muito importantes, então nada nos garante que a epidemia não irá aumentar muito em Portugal em maio.
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De henrique pereira dos santos a 19.04.2021 às 17:57

Mas ao menos olhaste para os números de Espanha antes de escreveres isto? Recrudescer?

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