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Outra vez a informação

por henrique pereira dos santos, em 01.03.21

Na sequência do meu post anterior chamaram-me a atenção para alguns aspectos que me deixaram ainda mais baralhado quanto à forma como tratamos a informação, o que é especialmente relevante em processos com elevada incerteza.

Aparentemente haverá algumas discrepânceas de informação sobre o Instituto Ricardo Jorge e a DGS no registo da incidência. Daí não vem mal ao mundo, mas a discussão sobre essas divergências, que nos permitiria perceber melhor os gráficos que uns e outros apresentam, só pode fazer-se com bonecos porque os dados não são disponibilizados e as diferentes opções para os tratar não são o cerne da discussão que permita interpretar a realidade.

A colocação do pico a 18 (Ricardo Jorge) ou a 26 (DGS) não sendo tão relevante como poderia parecer (o que interessa verdadeiramente é o momento em que a tendência de crescimento quebra, e isso é claramente por volta de 18, nos dois gráficos, tanto quanto consigo ver), é ainda assim uma base essencial para se poder avaliar o que se passou em Janeiro.

Importa, em especial, sabermos se a evolução de Janeiro decorreu de contactos no fim de Dezembro - situação que permite discutir o papel dos confinamentos com alguma substância - ou se decorreu de um conjunto de circunstâncias excepcionais, em que a meteorologia tem um grande peso - situação em que o fecho de escolas é uma medida completamente desproporcional.

Quando os dados são escassos e imperfeitos, é preciso ser cauteloso e quaisquer interpretações possíveis devem ser validadas pela verificação de factos que permitam validar as interpretações feitas.

Vou recorrer de novo a Henrique Oliveira para dar um novo exemplo de como o excesso de reverência perante os argumentos de autoridade é um problema profundo em Portugal e nos impede de optimizar socialmente as políticas públicas.

Henrique Oliveira foi chamado pela Assembleia da República na qualidade de especialista neste epidemia.

E como se pode ver aqui, a partir da uma hora e um minuto, faz uma afirmação extraordinária nas suas implicações sociais e políticas, se for verdadeira, claro.

Henrique Oliveira verifica um aumento de letalidade da covid na primeira metade de Janeiro e, sem pestanejar, atribui esse aumento às diculdades de acesso a cuidados de saúde. A ser assim, grande parte da mortalidade exepcional de Janeiro dever-se-ia ao colapso dos serviços de saúde, com o que isso representaria de responsabilidade política.

A mim parece-me normal que se faça todo o esforço para verificar a hipótese levantada a partir da verificação do aumento da letalidade. O aumento da letalidade é inequívoco, a explicação para esse aumento é que não pode ser leviana e tem de se ser verificada, tanto quanto possível, até porque não é uma hipótese absurda.

O estranho é que quase ninguém se entretenha a verificar a hipótese com base em factos objectivos.

1) A letalidade sobe muito no início de Janeiro e começa a descer antes do meio de Janeiro, e os problemas de sobrecarga do sistema de saúde foram maiores na segunda metade de Janeiro. Henrique Oliveira atribui isso ao facto de se ter conseguido expandir a capacidade hospitalar de forma a dar resposta à pressão, o que manifestamente é incompatível com o facto da maior pressão ter sido na segunda quinzena de Janeiro, primeira semana de Fevereiro;

2) A ser verdadeira a hipótese, ter-se-ia verificado uma falência brutal do sistema de saúde, ao ponto de terem ficado por atender um número muito elevado de doentes, suficiente para ter havido o dobro da mortalidade normal e ter aumentado a letalidade da doença. Não há nada que aponte nesse sentido, pressão sim, e muita, ausência de capacidade para prestar cuidados de saúde, não conheço nenhum dado objectivo que o demonstre.

3) Acresce que Henrique Oliveira mostra uma sincronização quase perfeita das curvas da letalidade nas diferentes regiões, quando não existe qualquer sincronia na pressão sobre os hospitais nas diferentes regiões;

4) De resto, procurando explicar diferenças regionais de letalidade (diferenças no valor dessa letalidade, não diferenças na sincronização temporal da variação que se verifica num período concreto), Henrique Oliveira vai procurar outras razões que não a que elegeu como razão única para explicar o aumento geral da letalidade na primeira quinzena de Janeiro;

5) Note-se que ao verificar que as hospitalizações gerais aumentaram mais que as hospitalizações em cuidados intensivos, um indicador que reconhecidamente quer dizer que os cuidados intensivos estão no limite, mas não quer dizer que há gente a morrer por isso, ou a não ser adequadamente tratada (ver a ligação do Observador acima), Henrique Oliveira faz uma ligação directa para o aumento de letalidade, mas olhando com atenção para os gráficos que apresenta, o pico de letalidade é anterior aos picos de hospitalizações gerais e de cuidados intensivos;

6) De resto, a ligação entre cuidados intensivos e letalidade é mais que duvidosa, no sentido em que a maior parte da mortalidade não ocorre em unidades de cuidados intensivos e dos doentes que entram em cuidados intensivos, um quinto a um quarto morrem, mas quatro quintos a três quartos, não. É natural que nas alturas em que sobe a mortalidade, os casos, as hospitalizações gerais e em cuidados intensivos, subam todos estes indicadores em conjunto, porque respondem à maior incidência da doença. Já é totalmente abusivo dizer que há uma relação entre a capacidade de cuidados intensivos e a mortalidade verificada: não há, em Portugal, nenhuma indicação nesse sentido, a não ser correlações estatíscas espúrias.

Resumindo, temos informação escassa, não acessível à maior parte das pessoas e quando alguém com autoridade resolve levantar uma hipótese, como fez Henrique Oliveira na Assembleia da República, pouca gente perde tempo a verificar que dados objectivos e verificáveis existem que corroborem a hipótese (começando pelo próprio), basta-nos, a quase todos, a autoridade académica (ou outra) de quem diz o que diz.

Como consequência, uma hipótese alternativa para o aumento de letalidade, como a influência do frio associado à anomalia meteorológica que começou a 24 de Dezembro e acabou a 20 de Janeiro, arruma-se nas hipóteses dos negacionistas e remete-se para uma obscura publicação sobre mortalidade, do Instituto Ricardo Jorge, a sua comprovação, sem que isso tenha qualquer efeito na formulação de políticas.

Resultado?

Escolas fechadas com base em relações causais expressas no ditado que Jorge Capelo vai repetindo adequadamente: "Chuva em Novembro, Natal em Dezembro".



4 comentários

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De Anônimo a 01.03.2021 às 17:14

Segundo este artigo ( https://www.google.com/amp/s/www.dn.pt/sociedade/amp/ha-40-mil-inqueritos-epidemiologicos-por-fazer-avisam-medicos-13285303.html) a 27 de janeiro havia 40000 inquéritos epidemiológicos por realizar. Assim sendo, que relevância têm análises de infetados ao dia?
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De Anónimo a 01.03.2021 às 18:58


HPS,
agradeço a colocação no tempo do vídeo que deseja que fosse visto e ouvisto...
As intervenções dos deputados raia o ignóbil pela sua estupidez.
Nada mais tenho a escrever.
ao
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De Anónimo a 02.03.2021 às 09:39


HPS, ouvindo isto:


https://observador.pt/programas/contra-corrente/bem-vindos-ao-quinto-pais-mais-confinado-do-mundo/



Fica-se a saber que somos o 5º país mais confinado do Mundo (é obra!) e o único país da Europa onde as escolas estão  fechadas na sua totalidade, desde creches e pré-escolar e  por aí acima em todos os níveis de ensino. Não há, em todo o país, nenhuma turma com alunos em aulas presenciais e não se conhece uma única medida racional, uma data, um reforço de segurança para a reabertura gradual das escolas, por escalões etários ou grau de ensino. Nada, népias. O país às escuras ;  as escolas vazias  ;  não há orientações ;  e os últimos para não variar. Consequências na sociedade? Nenhuma! Há gente muito satisfeita (a crer nas sondagens).
bf
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De Elvimonte a 02.03.2021 às 17:22

Quer a literatura científica, quer a evidência empírica têm demonstrado à saciedade a ineficácia dos confinamentos e de outras medidas não-farmacêuticas, uma moda importada da China por macacos de imitação que remeteram para o caixote do lixo cerca de 200 anos de ciência epidemiológica acumulada.


Da evidência empírica, os exemplos da Suécia e de Belarus, sem confinamentos, sem uso obrigatório de máscaras e com escolas total ou paracialmente abertas, sendo paradigmáticos não podiam constituir, em rigor, termos de comparação com outros países onde foram implementadas panóplias de medidas não-farmacêuticas, fruto das diversidades geográficas, populacionais e culturais.


Um artigo científico surgido recentemente, ainda em pre-print, relativo a uma "experiência natural" resultante das abordagens epidemiológicas distintas seguidas em municípios da região dinamarquesa da Jutlândia do Norte, vem colmatar a falta existente de estudos com um verdadeiro grupo de controlo que possibilite comparações e conclusões rigorosas.


Nessa região dinamarquesa, 7 municípios optaram por confinamento estrito - fecho de escolas, cafés, restaurantes, proibição de circulação entre municípios, etc. - e 4 municípios não o fizeram. Os resultados são os que figuram nesta imagem: http://prntscr.com/10bfmrd (colhida do artigo científico "Lockdown Effects on Sars-CoV-2 Transmission – The evidence from Northern Jutland", https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2020.12.28.20248936v1.full).


Os buescus, oliveiras e quejandos, os quais me suscitam um profundo nojo intelectual, diga-se, que ultrapassem agora esta barreira de realidade feita com os seus pressupostos de pacotilha e as suas conclusões delirantes. 


PS - Eventualmente off the topic, mas lapidar.

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