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Em 1888 Eça de Queirós foi nomeado cônsul em Paris, cidade onde viveria até morrer. Longe do adolescente "afrancesado", amadurecido na geração positivista, o Eça de fim de século não esconde o desalento face à técnica. Contrastando com o fascínio de Jacinto em "A Cidade e as Serras" que aclamava "quem não admirará os progressos deste seculo", Eça não parece assim tão crédulo, conforme o retrato que deixou de Paris em carta à condessa de Sabugosa. O progresso dificilmente impressiona o céptico. Ao contrário do que o neo-romantismo dos nossos dias pretende atenuar a Belle Époque não era tão bela, nem tão luminosa fora dos círculos restritos. A sociedade industrial produzia estas matizes de doçura e violência, onde a grande esperança parecia antever a catástrofe. Era já um século XX antecipado e mal sabia o escritor que o pior ainda estava para vir.
«Paris, com efeito, já não é aquela cidade que V. Ex.ª, minha Prima, conheceu ligeira e luminosa. Agora está muito grosseira de aspectos, de modos e de ideias (...)
Até exteriormente perdeu toda a graça e elegância. Nas ruas não se vêem senão homens de camisola de malha e mulheres de calções, pedalando furiosamente em velocípedes: as carruagens já não têm cavalos, são todas "automobiles", fazem um barulho horrendo e deitam um cheiro abominável a petróleo: no chão uma lama medonha, que a República não limpa: no céu sempre o tal fumo negro, representando, ao que dizem, um dinheirão: e logo ao começo da tarde é necessário acender uma luz que agora há, de um brilho muito "criard", e que ordinariamente mata quem a acende! Já parece o século XXIII! Deus nos dê paciência para aturar a civilização!»
(Carta à Condessa de Sabugosa, 24 de Janeiro de 1897)
E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacinto? Considera esses vastos armazéns com espelhos, onde a nobre carne de Eva se vende, tarifada ao arratel, como a de vaca! Contempla esse velho Deus do Himeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixão a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Ninfas na boa lei natural, e busca tristemente os recantos lôbregos de Sodoma ou de Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Inteligência, porque ou lha arregimenta dentro da banalidade ou lha empurra para a extravagância. Nesta densa e pairante camada de Ideias e Fórmulas que constitui a atmosfera mental das Cidades, o homem que a respira, nela envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as expressões já exprimidas — ou então, para se destacar na pardacenta e chata rotina e trepar ao frágil andaime da gloríola, inventa num gemente esforço, inchando o crânio, uma novidade disforme que espante e que detenha a multidão como um mostrengo numa feira. Todos, intelectualmente, são carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, as pegadas pisadas; — e alguns são macacos, saltando no topo de mastros vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacinto, na Cidade, nesta criação tão antinatural onde o solo é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o céu, e a gente vive acamada nos prédios como o paninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através de arames — o homem aparece como uma criatura anti-humana, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um espírito que é passivo como um escravo ou impudente como um histrião... E aqui tem o belo Jacinto o que é a bela Cidade!
--- A Paris do último terço do século XIX conforme vista por Eça de Queirós em "As Cidades e a Serra" .
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Não se trata de gostar de ver os outros ir ao dent...