Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Os neo racistas

por henrique pereira dos santos, em 13.09.23

Noutro lado, fiz um comentário ligeiro sobre esta notícia do Observador (na verdade, da Lusa, eu li no Observador mas pelo menos no Diário de Notícias está igual) em que se fala do facto de uma equipa que mistura arqueólogos, associações políticas neo racistas, a Câmara Municipal e uma associação de defesa do património, ter descoberto a pólvora: vestígios materiais da existência de escravos numa aldeia de Alcácer do Sal, entre o Torrão e a aluvião de Alcácer e Grândola.

Limitei-me a fazer um comentário irónico sobre o contrabando de ideologia a partir das cátedras universitárias, uma prática que sempre existiu.

O que é novo é que esse contrabando era considerado um grave erro académico, e hoje é considerado uma necessidade fundamental da boa ciência, desde que seja a ideologia certa.

Se dúvidas houvesse, bastaria ler um longo ensaio (e chato) do arqueólogo principal do projecto, numa altura em que se preocupava muito com o neo-colonialismo mas, aparentemente, ainda não tinha aderido ao neo racismo que justifica o que agora anda a fazer em Alcácer do Sal (à procura do paralelismo entre o importante porto de comércio de escravos de Cacheu e uma aldeia perdida do vale do Sado onde também foram usados escravos).

O ensaio é longo e chato (a ainda por cima cita Boaventura Sousa Santos mais a conversa do epistemicídio), sempre à volta do mesmo, de maneira que para ficar com uma ideia transcrevo já o parágrafo inicial, que o resto afina pelo mesmo diapasão: "Enquanto disciplina, a arqueologia é um produto da modernidade ocidental e de relações de colonialidade contemporâneas. Neste texto discuto brevemente a arqueologia no contexto da descolonização do saber e da sociedade. De seguida, exponho quatro problemas centrais com que devemos lidar, seguidos de propostas de discussão ou exemplos de experiências descolonizadoras. O projeto descolonial está longe de ser uma mera abstração. Pelo contrário, é uma oportunidade para imaginarmos um mundo com justiça social".

O salto que vai deste ensaio para a notícia, e que me chamou a atenção para o trabalho deste arqueólogo, corresponde ao salto lógico a partir daqui: defender com unhas e dentes o mito de que escravidão e racismo estão intrinsecamente ligados, e a partir daí passar para o mantra do neo racistas: há uma história de escravidão que diferencia grupos sociais pela cor da pele (mesmo que sendo todos iguais, há uns grupos mais iguais que outros, como acontece sempre nestas opções que separam bons de maus a partir de um pecado original) e a cor da pele define a identidade das pessoas, não havendo espaço para os indivíduos serem o que são, sem primeiro discutir a cor da sua pele.

Haver quem ache que há alguma coisa de científico nesta base ideológica não deixa de me surpreender.


12 comentários

Sem imagem de perfil

De balio a 13.09.2023 às 17:38


Eu não li a notícia, mas não vejo nela qualquer motivo de espanto: há muito tempo já que se observou que algumas populações do vale do Sado têm alguns traços africanos e que terão portanto, com alta probabilidade, algum "sangue" negro nas veias. E a explicação para este facto é simples: o vale do Sado dantes estava muito infetado por malária, pelo que teria sido normal importar africanos, que são parcialmente resistentes a essa doença, para colonizar essa parte do país (permitindo a cultura de arroz, por exemplo).
Que agora se descubra vestígios concretos dos sítios onde esses africanos habitaram, não me parece nada de revolucionário.
Sem imagem de perfil

De urinator a 13.09.2023 às 19:04

acabo de verificar que Sua Alteza o Rei Maomé de Marrocos não é preto como os meus sapatos

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com



Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    Adoro arroz e sei cozinhá-lo bem. Tive várias cozi...

  • Catarina

    Segundo me contaram, começou-se a comer leitão por...

  • Anónimo

    Também nunca consegui entender a lógica de sacrifi...

  • Anónimo

    A Arroz Carolino de grão curto, é uma bênção que o...

  • Silva

    Como não há vontade/coragem política para a implem...


Links

Muito nossos

  •  
  • Outros blogs

  •  
  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2026
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2025
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2024
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2023
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2022
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2021
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2020
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2019
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2018
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2017
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2016
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2015
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2014
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2013
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2012
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D
    196. 2011
    197. J
    198. F
    199. M
    200. A
    201. M
    202. J
    203. J
    204. A
    205. S
    206. O
    207. N
    208. D
    209. 2010
    210. J
    211. F
    212. M
    213. A
    214. M
    215. J
    216. J
    217. A
    218. S
    219. O
    220. N
    221. D
    222. 2009
    223. J
    224. F
    225. M
    226. A
    227. M
    228. J
    229. J
    230. A
    231. S
    232. O
    233. N
    234. D
    235. 2008
    236. J
    237. F
    238. M
    239. A
    240. M
    241. J
    242. J
    243. A
    244. S
    245. O
    246. N
    247. D
    248. 2007
    249. J
    250. F
    251. M
    252. A
    253. M
    254. J
    255. J
    256. A
    257. S
    258. O
    259. N
    260. D
    261. 2006
    262. J
    263. F
    264. M
    265. A
    266. M
    267. J
    268. J
    269. A
    270. S
    271. O
    272. N
    273. D