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Há um conjunto de pessoas à direita que está muito zangada com Montenegro porque é um taticista, imita a governação de Costa, não resolvendo nada e não fazendo as reformas imperativas de que o país precisa.
Sem tentar ser exaustivo, diria que Rui Ramos, José Manuel Fernandes, Helena Matos, João Miguel Tavares, Miguel Morgado, e poderia continuar, que se situam mais ou menos entre o PSD e o Chega (uns mais para o Governo, outros mais para o Chega, outros nos subúrbios da Iniciativa Liberal), de há uns tempos para cá, têm vindo a radicalizar o seu desdém pelas opções políticas de Montenegro, achando que é um homem sem coragem para fazer o que tem de ser feito.
Devo dizer que já estive mais perto de pensar isto de Montenegro, tal como a generalidade destes, eu gostaria de ter Passos Coelho como primeiro ministro, mas ao contrário deles, em quem eu gostaria mesmo de votar era na troica, não em Passos Coelho.
Traduzindo, tenho um imenso apreço (e gratidão) por Passos Coelho, defendi-o com unhas e dentes durante os dificeis anos da troica (já agora, não me lembro de, nessa altura, ter ouvido ou lido o que quer que seja de André Ventura sobre o assunto), mas valorizo mais os contextos que as pessoas: Passos Coelho foi excelente no contexto difícil que lhe coube em sorte, sem esse contexto não sabemos o que teria sido.
E é essa atenção ao contexto que me separa dos impacientes de que falei, servindo-me da crónica de hoje de João Miguel Tavares para ir ilustrando o que penso.
Uma boa parte destes impacientes coincidem num ponto: é preciso um governo forte para fazer reformas difíceis, frequentemente impopulares, e isso só se consegue com uma maioria absoluta, como tiveram Cavaco, Sócrates e Passos Coelho (este numa coligação em que a fiabilidade do parceiro ficou demonstrada pelo episódio do irrevogável).
Montenegro não tem uma maioria absoluta.
Dirão que é exactamente porque é politicamente cobarde e tem medo, por isso incapaz de ser um caudilho que leva a nação atrás, dando o exemplo de Cavaco e do seu governo minoritário, desvalorizando os contextos diferentes de um e de outro, Cavaco a aproveitar a boleia dos resultados de um forte programa de ajustamento financeiro sobre o qual se dá um processo de rápido desenvolvimento na sequência da normalização social do país, Montenegro a aguentar a degradação do Estado e a zanga social resultante do governo de Costa (ele próprio se pôs ao fresco, com medo de ter de apanhar as canas dos foguetes que andou a lançar).
Talvez Passos Coelho, se tivesse estado disponível para combater Rui Rio (que foi o que fez Cavaco internamente, antes do seu famoso governo minoritário) e apresentar-se a eleições, conseguisse uma maioria absoluta, mas a probabilidade era muito baixa, independentemente do facto de Passos não estar disponível.
Montenegro tem, por isso, uma circunstância muito difícil: uma maioria mínima e, pela primeira vez, um partido forte à esquerda e outro à direita.
A tese dos impacientes é a de que Montenegro deveria ter feito uma coligação com o partido à direita para ter força para fazer as reformas de que o país precisa.
Não tenho a certeza de que teria sido uma boa ideia, não estou a ver Ventura atravessar-se na defesa de uma liberalização real e a sério do mercado de arrendamento, e o flic-flac que fez a propósito do pacote laboral e da greve geral parece confirmar que o Chega não é um partido reformista, é um partido de protesto, com diagnósticos que o fazem falar de assuntos sérios que os outros evitam, mas sem a menor coragem para correr o risco de tomar medidas impopulares (o Chega apresenta-se como tendo uma grande coragem para combater o sistema, mas não tem demonstrado a menor coragem para correr riscos de popularidade, como disse Pedro Pinto, para beneficiar os portugueses, até com o Diabo fará acordos).
Montenegro tem, consequentemente, dois problemas, um programático (é difícil perceber realmente o que quer o Chega fazer e como), outro de confiança (pessoalmente entendo-o perfeitamente, eu também não compraria um carro usado a André Ventura).
Concluem os impacientes que isso bloqueia o sistema, e Montenegro se limita a gerir o dia a dia, sem resolver nada.
João Miguel Tavares deixa cautelosamente de lado as finanças públicas (em cujo equilíbrio o Chega não demonstra o menor empenho, mas que tem vindo a ser simplificadas por Montenegro, ao mesmo tempo que vai baixando os impostos), a educação (em que manifestamente há empenho reformista) e diz que na imigração, na saúde e na habitação, Montenegro é igual a Costa, não resolve nada.
Talvez João Miguel Tavares não tivesse ouvido com atenção Ventura (eu sei que ninguém liga nenhuma ao que diz Ventura, nem os seus apoiantes, nem os seus detractores, mas eu ligo), na noite das eleições, a dizer que era a força que os portugueses tinham dado ao Chega que permitia que o país estivesse a melhorar. É Ventura a testar a ligeira adaptação do discurso aos resultados actuais e, sobretudo futuros, das políticas de migração e habitação.
Montenegro reformou de facto a política de migração (se bem, se mal, ver-se-á com o tempo, o que não se pode negar é que o tenha feito), está a reformar profundamente o sector da habitação (se eu acho que seria preciso uma liberalização imediata e radical do arrendamento urbano, acho, se acho politicamente possível, tenho as maiores dúvidas, o que não posso negar é que o governo tem vindo a tomar medidas para mudar estruturalmente a habitação) e, na saúde, suspeito que está a fazer alguma coisa pelo berreiro que fazem as corporações interessadas, mas não tenho maneira de ter opinião própria sobre o sector.
Montenegro tem vindo a fazer isto lentamente?
Sim, tem, eu preferia que fosse mais rápido.
Mas seria possível ser de forma diferente?
Tenho as maiores dúvidas, e Passos Coelho também deve ter, porque não tem demonstrado o menor interesse em regressar à política activa, apesar de ser, hoje, o maior activo político que existe no país.
Mas quando o maior activo político do país não quer ser ser um político no activo, talvez seja boa ideia perceber melhor os limites da acção política resultantes do contexto que existe, em vez de passar o tempo a fazer tiro ao alvo ao incumbente de cada momento.
Acresce que ninguém consegue explicar muito bem como se altera esse contexto de um momento para o outro.
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