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Os imóveis do Estado

por henrique pereira dos santos, em 22.07.25

Na discussão sobre o problema do acesso à primeira habitação (não existe crise de habitação nenhuma, o que existe é um problema de acesso à primeira habitação, de resto, o mercado imobiliário segue pujante, como um crescimento sustentado dos preços, das vendas, dos novos licenciamentos e das novas construções, permitindo à generalidade dos portugueses serem bastante mais ricos do que eram há uma década), para além das casas vazias, há sempre alguém que fala dos imóveis devolutos do Estado.

Isso faz-me sempre lembrar os esforços de tanta gente, no ICNF e organismos anteriores, para dar um destino às dezenas de casas florestais, sempre com o mesmo resultado: o dinheiro desaparecia, mas o problema não.

A solução evidente era fazer daquilo alojamento turístico (para habitação não serviam, na generalidade, eram casas muito isoladas, sem acessos razoáveis frequentemente, sem infraestruturas de electricidade e telecomunicações, a água resolver-se-ia se não se ligasse muito à regulamentação sobre qualidade da água, sem escolas para os miúdos que eventualmente existissem).

E houve muitas que foram usadas nesses sentido, com prejuízos operacionais elevadíssimos, pela dificuldade de operação (eram casas isoladas, ler o resto acima), pelo desvio das melhores para quem tinha os contactos certos (nomeadamente o uso pelos próprios funcionários ou membros dos gabinetes governamentais cujas boas graças se pretendiam obter) ou a pura e simples fraude (ainda me lembro da secretária da área protegida em que eu estava que, quando criei uns indicadores de gestão por me terem atribuído a responsabilidade pela gestão das casas, foi apanhada num esquema em que ficava ela com os pagamentos, não registando a ocupação das casas, sem que, aliás, sofresse qualquer sanção posterioe por esse desvio de dinheiro, por protecção da responsável pela área protegida, que se limitou a acabar com o esquema, evitando fazer ondas).

Quando se percebeu que gerir casas de turismo nas dificeis condições em que estas eram geridas não era propriamente o que o Instituto de Conservação na Natureza fazia melhor (diga-se de passagem, também não era o que fazia pior), tentaram-se duas coisas: ou encontrar parceiros para concessionar o uso turístico das casas, ou vender.

Qualquer das duas situações foram inviabilizadas pelo novelo jurídico que rodeava essas casas e, na verdade, porque aquilo não era grande negócio.

Claro que não é bem isto que se passa em muitos dos imóveis devolutos do Estado, alguns deles tão centrais como o famos terreno militar da Artilharia UM, em Lisboa, sobre o qual escrevi há tempos.

Mas sobre esses, temos inúmeros estudos de caso, eu limito-me a referir aqui três (um dos quais, este da Artilharia Um, que é dos meus preferidos para caracterizar esta mania de que o que o mercado não resolve, o Estado resolve melhor).

Temos o antigo edifício do Ministério da Educação, na Av. 5 de Outubro, em Lisboa, que está para ser uma residência universitária desde o tempo dos afonsinhos, e nem sequer começou a obra.

Ou o terreno do antigo quartel da Artilharia Um, vendido com uma capacidade construtiva maximizada para o Estado ganhar mais dinheiro, que a câmara inviabilizou e continua entregue às ervas.

O terreno da antiga feira popular que, esse sim, está com obras, num dos maiores empreendimentos imobiliários do país, actualmente, 70% para escritórios e acho que nem 30% para habitação de gama alta.

Discutir por que razão este problema dos edifícios devolutos do Estado existe, não contribui para resolver o problema da habitação de gama baixa mas, ainda assim, ponho duas hipóteses:

O Estado venderia esses imóveis (e seria criticado pelos mesmos que agora criticam o que está a fazer o presidente de câmara de Loures) para que privados investissem neles o suficiente para ganhar algum dinheiro, o que implicaria fazer casas de gama alta, com as outras não se ganha dinheiro, dada a regulamentação que existe.

Ou então, aumentava largamente os impostos para ter dinheiro para investir nesses imóveis e os disponibilizar a pessoas que hoje fazem barracas por não ter dinheiro para uma casa.

Não vejo como, quer num caso, quer noutro, a situação se alteraria, no essencial, pelo menos mais extensa e rapidamente que investindo naquilo que o Estado deveria concentrar-se em fazer, que é melhorar a eficiência do mercado imobiliário, reduzindo a regulamentação sobre a possibilidade de construção em terrenos, reduzindo a regulamentação sobre as exigências construtivas, liberalizando as rendas e reforçando a liberdade contratual entre senhorio e inquilino (incluindo o reforço e celeridade dos mecanismos de despejo de inquilinos por incumprimento contratual) e, já agora, se não for pedir muito, reduzindo a fiscalidade sobre o sector.

Sim, de tudo isto podem resultar problemas sociais, mas esses cabe ao Estado resolver, não aos senhorios.


22 comentários

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De Anonimo a 22.07.2025 às 10:48

mercado imobiliário segue pujante,(...), dos novos licenciamentos e das novas construções,


Um dos problemas não era a falta de pujança do mercado nas novas construções?
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De henrique pereira dos santos a 22.07.2025 às 12:15

O que não está pujante é a construção, que não chega para resolver o problema do desequilíbrio entre oferta e procura.
Ou seja, o mercado está pujante, com crescimento sustentado de novos licenciamentos e novas construções, mas não suficientemente pujante para que a oferta cresça a uma velocidade muito superior à procura.
Em qualquer caso, qual era mesmo o objectivo do seu comentário?
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De Anonimo a 22.07.2025 às 13:47

Parecia incongruência com o que tem escrito. Afinal está pujante mas não o suficiente. Agora está percebido. 
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De Anonimo a 22.07.2025 às 14:23

Qual é a diferença entre mercado de novas construções, pujante, e construção, não pujante?
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De henrique pereira dos santos a 22.07.2025 às 14:53

Será que quer mesmo que lhe explique a diferença entre fazer e vender?
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De Anonimo a 22.07.2025 às 15:12

Sim, convém esclarecer conceitos que não são óbvios para quem não tem o conhecimento académico e profissional na área. É um bom sinal tentar aprender com quem sabe, mal seria se pensássemos que já sabíamos tudo.
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De Filipe Costa a 22.07.2025 às 19:02

Pode consultar o Dr Google ou o ChatoGPT.
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De Anonimo a 22.07.2025 às 22:51

AI está toda minada


O mercado imobiliário em Portugal continua em alta, com preços a subir e uma grande procura, especialmente por investidores estrangeiros.


A procura internacional continua a impulsionar o mercado, com destaque para investidores europeus e norte-americanos que procuram qualidade de vida a preços mais acessíveis do que em outras capitais ocidentais. 
Apesar do crescimento, o mercado enfrenta desafios como a escassez de oferta e a crescente dificuldade de acesso à habitação, especialmente para famílias portuguesas. 
O aumento dos preços tem gerado preocupações sobre uma possível bolha imobiliária, o que pode levar a uma desaceleração no mercado a longo prazo. 




Credibilidade,  zero

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De Anonimo a 22.07.2025 às 13:52

O mercado está pujante, não há qualquer crise, parece óbvio e coerente com a realidade e o que se tem escrito
Existe um ajustamento a fazer na gama baixa de habitação, esse ajustamento não acontece devido à excessiva intervenção estatal, que não permite que a oferta se adeque à procura. Mas é uma questão residual,  e não pode ser entendida como uma avaliação global do mercado imobiliário. 
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De Anonimo a 23.07.2025 às 09:23

Bem observado
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De Anónimo a 22.07.2025 às 10:50

Se é para fazer patetices como esta, mais vale estar quieto:
https://executivedigest.sapo.pt/noticias/casas-sociais-vendidas-pelo-estado-estao-a-ser-revendidas-por-mais-do-triplo-do-preco/


O estado tem que ter as casas para as "emprestar" em casos de necessidade, e tem que ser por um tempo determinado (de preferência diminuto). Não pode ser para ficarem lá toda a vida ou serem cedidas em série, pais para filhos e depois netos e já não pára como neste caso:
https://www.cmjornal.pt/sociedade/detalhe/diocese-do-porto-vende-por-230-mil-euros-imoveis-avaliados-em-quatro-milhoes


Não se pode ter várias gerações de famílias na "miséria" toda a vida, têm que ser ajudadas para sair dessa situação, para que outros no futuro possam igualmente serem ajudados pela mesma casa.
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De Anonimo a 22.07.2025 às 10:53

O Estado pode fazer de arrendatário. Cede terreno para construção que entre no mercado arrendatário, a quem cumprir caderno de encargos, e recebe % dos proveitos. PPP.


Entretanto, é o que dá quando não deixam o mercado funcionar 


https://www.asbeiras.pt/coimbra-grupo-privado-quer-urbanizar-area-da-antiga-fabrica-de-curtumes/
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De Anonimo a 22.07.2025 às 14:21

https://www.reddit.com/r/europe/comments/1f359u8/how_rent_controls_are_deepening_the_dutch_housing/


Consequências do socialismo europeu
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De Anonimo a 22.07.2025 às 14:26

O que eles querem é
Acabar com casas vazias (aka legalizar okupas)
Estado a construir (ou pagar para) e arrendar ou vender ABAIXO do que o mercado determina
Obrigar quem detém imóveis a vender a preço determinado pelo Estado, como se um imóvel fosse um cacho de bananas 
Limitar mais-valias (e aumentar impostos sobre) de terrenos e bens imobiliários 


Se tudo isto fosse alcançado, a "crise" acabava
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De Anonimo a 22.07.2025 às 14:43

Propaganda...


https://pt.euronews.com/business/2025/07/22/pode-dar-se-ao-luxo-de-viver-aqui-as-cidades-europeias-classificadas-por-racio-rendasalari
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De Anónimo a 22.07.2025 às 15:13


O Estado venderia esses imóveis para que privados investissem neles o suficiente para ganhar algum dinheiro, o que implicaria fazer casas de gama alta, com as outras não se ganha dinheiro, dada a regulamentação que existe.



Acresce que remodelar um imóvel que foi construído para outro fim (exemplos: o antigo Hospital do Desterro ou o antigo quartel da GNR perto do Paço da Rainha) e transformá-lo em habitação é frequentemente mais caro do que construir de raiz.


Ou seja, na prática teria que se demolir o imóvel - que não raras vezes tem algum valor arquitetónico assinalável.


É por isso que no passado, quando se pretendia construir barato, se ia para os arrabaldes das cidades, e não para os centros delas, e se construía torres onde nada havia: porque fica muito mais barato construir de novo do que remodelar.
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De Anónimo a 22.07.2025 às 16:16

É impossível o que diz.
Entre fazer de novo a minha casa no local já existente, o orçamento apresentado foi de 115.000€, e em remodelar o existente (em péssimo estado já sem telhado), foi de 65.000€.
Uma remodelação que mantenha as paredes de exterior intactas (e a fachada) em que apenas se remodele o interior jamais pode sair mais caro, só com manhosos.
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De Filipe Costa a 22.07.2025 às 19:01

O imposto sobre o senhorio era de 28%, ouvi dizer que baixou para 25% e se o aluguer for de longa duração (desconheço a duração minima) a taxa baixa mais.


Neste momento com as casas fechadas, o Estado não recebe os 25%, ou outro valor, se baixasse os impostos para por exemplo 15%, sem tretas de longa duração, sem nada. As casas apareciam (cuidado com a justiça que não funciona) e muitas que hoje são arrendadas no mercado informal passariam a ser oficialmente arrendadas.


Se calhar, baixando inpostos, o Estado aumenta receita. Mas isso sou eu.
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De Anónimo a 23.07.2025 às 10:24

Pois mas para se ter um imposto de 10% tem que se fazer um contrato com 20 anos. Qual é o parvo que faz isso. A não ser que se saiba á partida que nunca vão cumprir o tempo.


São ridículos estes impostos:
Menos de 2 anos: 28%;  
De 2 a 5 anos: 26%;  
De 5 a 10 anos: 23%;  
De 10 a 20 anos: 14%;  
Mais de 20 anos: 10%.   


É mesmo a pedir para que não aluguem as casas.
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De Anónimo a 23.07.2025 às 09:29

A campanha da ilusão liberal continua. Vai haver mais posts sobre este assunto?
Há um denominador comum: reduzir impostos e alivio de regulamentação.


Não é para reduzir tempo e preços e sim para aumentar o lucro.
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De henrique pereira dos santos a 23.07.2025 às 09:43

Tem alguma coisa contra o lucro?
É que o que permite acumular capital para fazer os investimentos necessários para ir resolvendo os problemas.
A alternativa é ter prejuízos, de maneira geral servem para destruir capital e deixar toda a gente mais pobre, isto é, com menos possibilidades de escolha.
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De Anonimo a 23.07.2025 às 10:34

Sim, reduzir o impacto do Estado na vida dos cidadãos. É mau?
Falta acabar com institutos e observatórios, e poder despedir funcionários,  como acontece no privado.

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