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Os fantasmas e a sustentabilidade

por henrique pereira dos santos, em 14.02.20

O movimento ambientalista, que na origem tinha os pés na terra e era muito cauteloso na fundamentação científica e técnicas das suas posições, procurando responder a problemas reais das pessoas comuns, tem evoluído para uma deriva mediática em que o activo central que procura valorizar é o medo do futuro.

Abandonou a solidez da base científica e técnica do que diz - a ciência é uma coisa chata que umas vezes confirma as nossas crenças, outras destroi-as sem dó nem piedade - e prefere lidar com fantasmas.

Tem mantido posições totalmente acientíficas, não são anti-científicas como as dos terra-planistas ou dos criacionistas, ignorando toda a produção científica que diminua o dramatismo associado a coisas como os eucaliptos, os fogos, o glifosato, os organismos geneticamente modificados, e muitas outras coisas.

E, para se manter na crista da onda, o movimento ambientalista, ou melhor, a componente dominante do movimento ambientalista, há outras componentes minoritárias que não funcionam assim, tem uma grande necessidade de saltar de drama em drama, que vai elegendo em cada momento.

Um bom exemplo disto é a estridência da sua guerra contra o glifosato, ao mesmo tempo que ignora, por completo, que a diminuição do consumo de glifosato, em Portugal, tem vindo acompanhada pelo aumento de consumo de outros químicos, menos mediáticos, mas ambientalmente mais agressivos. Nota: o consumo de químicos por unidade de produção tem diminuído bastante e, sobretudo, tem havido uma enorme alteração da sua natureza, sendo hoje usados químicos bem menos impactantes que há quarenta anos, portanto esta tendência que refiro não pode ser lida de forma totalmente linear, apenas serve para ilustrar como a atenção mediática concedida a um problema eleito como drama - o uso de glifosato - convive perfeitamente com o silêncio sobre problemas mais graves, mas menos úteis mediaticamente - a sua eventual substituição por químicos mais agressivos, mas menos mediáticos.

Vem tudo isto a propósito de uma pequena frase de David Neeleman nesta entrevista: "o mesmo avião já não consegue chegar tão longe se partir de Madrid ou de Paris, o que dá uma enorme vantagem competitiva a Lisboa, pois o A321 LR consome metade do combustível nessa viagem do que um A330, que é o avião que habitualmente é utilizado. Foi por isso que encomendei 19 destes aviões".

Ainda ontem tinha ouvido referências ao facto do crescimento em torno de 20% no números de passageiros no aeroporto da Portela corresponder a um aumento em torno de 1% no número de vôos, o que aponta no mesmo sentido: a aviação está a evoluir rapidamente no sentido de se tornar mais sustentável.

Ora a aviação tem sido um dos alvos preferenciais dos radicais ambientalistas, por causa das suas emissões e efeito nas alterações climáticas.

O problema é real, e merece atenção, sobre isso não tenho qualquer divergência com a generalidade do movimento ambientalista.

Pessoalmente nem viajo muito e, recentemente, tendo de ir a uma conferência em Barcelona, andei à procura de maneira de lá chegar de comboio. Acabei por decidir ir de carro, articulando com pelo menos mais uma pessoa e, eventualmente, com um bocadinho mais de esforço, ainda daria para apanhar mais algum espanhol pelo caminho. A diferença de custo não é muito relevante para os vôos directos, embora seja alguma para vôos com escalas, a diferença do tempo de viagem (contando horários disponíveis e tempos de aeroportos, incluindo atrasos) é gerível e a alternativa do comboio é incomparavelmente pior em tempo e flexibilidade. Mas tudo seria muito mais simples se fosse de avião (há um ano ou dois fui de carro, aproveitando para fazer férias, a Bordéus, para uma conferência para que me convidaram e, apesar de ter combinado que me pagariam o dinheiro do avião para abater nas despesas da viagem, a verdade é que para os organizadores seria muito simples terem-me pago o avião e, até hoje, acabei por nunca receber o dinheiro correspondente, porque as organizações não estão preparadas para lidar com modelos alternativos de financiamento de viagens).

Há muito trabalho a fazer para melhorar a sustentabilidade da forma como nos deslocamos, e uma boa parte desse trabalho é mesmo na aviação.

Mas insistir que a única maneira de ser mais sustentável é viajar menos de avião, não construir aeroportos e coisas que tais é muito pouco útil, excepto para a tal opção de dramatizar tudo o que for possível para reforçar o medo do futuro de que se alimentam as organizações basicamente reacionárias, como são grande parte das que fazem parte do movimento ambientalista dominante.



1 comentário

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De Luís Lavoura a 14.02.2020 às 10:06

Ainda há poucas semanas a Zero fez uma atividade no Campo Grande para denunciar o grande barulho que os aviões lá causam.
Ora, eu vou diariamente passear para o Campo Grande e o facto é que os aviões lá são muitíssimo (mas muitíssimo mesmo) menos perturbadores atualmente do que eram há vinte ou trinta anos atrás.
Os aviões têm feito enormes progressos a nível de ruído, e não duvido que a nível de consumo de combustível seja o mesmo.

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