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Os elogios dos republicanos portugueses a Isabel II

por Duarte Calvão, em 20.02.22

Isabel-II.jpgFoi interessante assistir aos muitos e justíssimos elogios que os republicanos portugueses fizeram a Isabel II a propósito dos seus 70 anos de reinado. Muitos começavam até as suas intervenções com um “Não sou monárquico, mas...”. Parece-me que não os preocupava as contradições inerentes a estes elogios. Destacavam logo a longevidade do seu reinado: tinha convivido com não sei quantos primeiros-ministros desde Churchill, conseguira adaptar-se sempre bem às grandes mudanças que o seu país e o mundo sofrera nestas sete décadas. Pois bem, isso só foi possível por Isabel II ser uma monarca, se fosse presidente de uma república cumpriria dois ou três mandatos de quatro ou cinco anos. Teria convivido, no máximo dos máximos, com primeiros-ministros eleitos até 1964, até Harold Wilson, antes de ser substituída no cargo por outro presidente, e já não teria intervenção em nada do que se passou nos últimos 50 anos.

Depois, os republicanos portugueses louvavam a forma exemplar como tinha trabalhado com todos os políticos, independentemente da sua cor política. Vamos agora imaginar novamente que o Reino Unido era uma república. Para chegar à chefia do Estado, Isabel II teria certamente que fazer carreira num dos principais partidos britânicos, seria conservadora, trabalhista, eventualmente liberal-democrata. Será que conseguiria ter tal isenção quando fosse eleita para a chefia do Estado republicano, lá para os 50 ou 60 anos de idade, depois de andar nas batalhas políticas partidárias? Ou seria sempre vista como alguém que representaria apenas uma parte do país, por muito que se esforçasse para ser de todos os britânicos? E quantas inimizades, quantos ódios até, a sua luta pelo poder acarretaria? Alguém acha que Isabel II seria a figura consensual que hoje é?

Por fim, outro dos elogios mais frequentes entre os republicanos portugueses ao longo reinado da rainha britânica é a forma discreta e elegante com que tem exercido o cargo, mesmo quando afectada pelos inevitáveis desgostos que a vida traz. Por nunca procurar a popularidade fácil, por não dar entrevistas, por se ter apenas dirigido directamente à população por meia dúzia de vezes, sempre em ocasiões marcantes. Alguém imagina um chefe de Estado eleito directamente que não andasse ao ritmo mediático, em busca de popularidade e votos, a associar-se a tudo quanto garantisse boa Imprensa e os favores da opinião pública?

São apenas três exemplos de contradições, haveria muitas mais para quem se desse ao trabalho de aprofundar o assunto em vez de pegar nele pela rama, como eu faço. Elogiar Isabel II é elogiar a monarquia constitucional. Muitos outros monarcas europeus, nestes 70 anos que ela leva de reinado, tiveram igualmente comportamentos exemplares, os quais, não tendo o destaque mediático da rainha britânica, mereceram e merecem o apoio da maioria esmagadora das respectivas populações, que não imaginam sequer mudar para um sistema republicano.

É fácil perceber que a monarquia constitucional é, inclusive em termos de estética política (tantas vezes ignorada entre nós), o sistema que melhor se adequa a todos os países europeus, com excepção da Suíça. Nestes elogios quase unânimes a Isabel II percebe-se que, em termos racionais, em termos de pura política, isso é claro. Mas depois há o lado irracional da política, os preconceitos, as visões forjadas no sistema educativo, mediático e cultural, que determinam que as repúblicas são um “progresso”, uma evolução democrática em relação às monarquias, sempre removidas para o “passado”. Perguntem a Isabel II o que acha disso. Talvez ela abra uma excepção e responda.



9 comentários

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De balio a 20.02.2022 às 22:25

Mas a que republicanos, concretamente, é que se refere este post?
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De anónimo a 21.02.2022 às 00:46


Ninguém duvida de os benefícios que um bom Monarca soma ao seu Reino.
Sim, houve, e há excelentes Monarcas, mas também houve e há outros que nem por isso.Como houve, e há excelentes PRs e que outros...nem por isso.
A diferença consistem em que é facil não re-eleger um mau PR.
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De Anónimo 78 a 21.02.2022 às 11:24

Com os presidentes que temos tido no último quase meio século, se os portugueses pensassem logicamente e sem preconceitos a maioria seria monárquica. Mas a triste realidade é que a maioria elegeu o PS de António Costa. E, parece, escolheu na convicção de que a mesma organização com as mesmas pessoas irá obter resultados diferentes.
Não nasci monárquico nem numa família monárquica mas foi exactamente a actuação de Isabel II numa crise institucional que me converteu. Mais tarde encontrei outras vantagens mas, lá está, eu não votei PS, nem sequer PSD.
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De lucklucky a 21.02.2022 às 22:36

 E, parece, escolheu na convicção de que a mesma organização com as mesmas pessoas irá obter resultados diferentes.



Não me parece que a maior dos portugueses que votam queiram resultados diferentes. Querem apenas manter o que têm  não percebendo que para as coisas ficarem na mesma estas têm de mudar - parafraseando Il Gattopardo
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De Anónimo 78 a 21.02.2022 às 23:30

Creio que a grande maioria das pessoas já interiorizou que é necessário crescimento económico mas a maioria que votou PS acreditará que esse crescimento virá com a "bazuca"
Eu acredito que 80 ou 90% servirá para engordar o Estado e algumas empresas dele clientes. Mais acredito que as pessoas vão ver os seus rendimentos fixos comidos pela inflação em percentagem de facto superior aos cortes directos de Passos Coelho. O INE já admitiu uma inflação de 4,2% mas o aumentos dos materiais para as indústrias transformadoras está em 14,3% e isso ir-se-à repercutir nos consumidores finais dentro de um tempo variável com os "stocks" existentes, mas certamente inferior a um ano.
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De José Carlos T da Conceição a 22.02.2022 às 09:35

Tomai e embrulhai. A República, instaurada em 1910, foi a maior desgraça de Portugal. A seguir a "Descolonização exemplar".
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De Anónimo a 23.02.2022 às 15:18

As monarquias europeias sofrem de um paradoxo insanável.
Para serem democráticas é preciso que o monarca não possa intervir em nada de importante no país, se o monarca não intrevém então a sua utilidade existe somente enquanto símbolo da nação, mas temos de convir que há alternativas muito mais económicas a um símbolo que não intrevém - uma bandeira, um monumento, uma mascote.
Se formos pela linha de nascimento o monarca que se seguia ao avô de Isabel tinha simpatias pelos partidos nazis, não sei se seria um bom monarca.


Os monarcas sauditas e tailandeses não andam à procura de votos, mas isso não os transforma em flores que se cheirem
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De José Sargaço a 24.02.2022 às 16:58

A monarquia espanhola é bastante mais barata para os contribuintes do país vizinho que a presidência da república portuguesa para os contribuintes lusos.
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De Anónimo a 25.02.2022 às 11:26

A monarquia espanhola, ao contrario da republica portuguesa, não discrimina todos os gastos que faz.
Por exemplo, se o PR faz uma viagem, é a Casa Civil da Presidência da Republica quem paga as despesas.
Se o rei de Espanha fizer uma viagem semelhante, quem paga a despesa é o Ministério dos Negócios Estrangeiros.

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