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Os agricultores, os javalis e o resto

por henrique pereira dos santos, em 26.03.19

Recentemente houve um conjunto de notícias sobre os prejuízos que a expansão do javali está a provocar.

Este problema é bem real e mesmo projectos de conservação como aquele a que estou ligado na Montis têm vindo a sofrer prejuízos (neste caso, destruição de plantação de árvores).

Compreende-se por isso a preocupação dos agricultores, nomeadamente dos produtores de milho, sendo razoável o pedido de maior controlo das populações de javali.

Acontece que esse controlo através da caça pode resolver pontualmente alguns problemas, sendo uma ajuda, mas não ataca o problema central: o javali expande-se porque o abandono lhe proporciona abundante alimento e refúgio mas ainda não trouxe predadores naturais em quantidade suficiente, isto é, os javalis expandem-se muito depressa, o lobo também se expande, mas muito mais lentamente.

Para além de pedir ao Estado que resolva o problema, ou pelo menos que não empate tanto a sua resolução - que é aliás um problema mais sentido no controlo dos prejuízos causados por veados, por exemplo na serra da Lousã e arredores, à conta das concepções urbanas da vida selvagem que actualmente dominam as estruturas técnicas, quer do ICNF, quer das Câmaras Municipais que lidam com o licenciamento da caça - talvez fosse a altura dos agricultores, em especial os mais rentáveis e qualificados, começarem a pensar em formas de assumir alguma responsabilidade social na gestão de terras marginais que lhes são próximas, mesmo não sendo fundamentais para o seu processo produtivo, ao contrário do que acontecia há 70 anos.

Talvez seja a altura dos agricultores tecnicamente mais capacitados apoiarem claramente a expansão das populações de lobo, até porque hoje os prejuízos provocados pelos lobos são muitíssimo menores que os prejuízos causados pelo javali, de que o lobo é, a par do homem, o principal predador.

Se a responsabilidade pela conservação do património natural é, para mim, uma responsabilidade central do Estado, a par da responsabilidade pela conservação do património cultural (o que é diferente de apoiar a criação artística), não tenho muitas dúvidas de que não conseguiremos boas soluções para problemas tão complexos só a contar com o Estado: as terras marginais são hoje terras sem destino social.

Daí resulta a extraordinária recuperação dos sistemas naturais a que assistimos hoje, mas pagamos o imposto do padrão de fogo que estes dias de vento Leste um bocadinho mais forte sinalizam, para lembrar ao Senhor Ministro da Administração Interna que se deixe de tolices e trate do assunto a sério, falando com o seu colega da agricultura para começarem a pagar os serviços ambientais que são prestados, até agora gratuitamente, pela frágil economia que sobrevive dessas terras marginais.

Mas entretanto, enquanto o Senhor Ministro da Administração Interna conversa com Jaime Marta Soares para controlar os votos associados às corporações de bombeiros, e o Senhor Ministro da Agricultura distribui um chuveirinho de apoios aos produtores agrícolas que podem representar votos, talvez fosse bom que os agricultores que verdadeiramente produzem e criam riqueza se lembrassem que as suas terras são ilhas imersas em sistemas naturais em profunda transformação de que não se podem alhear.

Nada contra as reivindicações associadas aos prejuízos dos javalis, mas seria bom que a isso se associassem acções concretas de gestão das terras marginais, quando isso é possível e sustentável.

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