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Oleiros e o resto

por henrique pereira dos santos, em 25.08.17

Agora que arde Oleiros, talvez seja a altura de trazer para aqui uma das imagens que mais uso em apresentações em que falo de evolução da paisagem e fogo.

A imagem é retirada de um livro muito recomendável, de Duarte Belo, Portugal luz e sombra. Duarte Belo usa o espólio fotográfico de Orlando Ribeiro e, em 2011, procura o mesmo ponto de vista para voltar a fotografar o que Orlando Ribeiro tinha fotografado anos antes.

Para o que me interessa uma das imagens mais impressionantes é mesmo a de Foz Giraldo, Orvalho, Oleiros.

foz do giraldo oleiros 1945.jpg

 Dá-me a impressão de que fotografia não é exactamente do mesmo ponto (a posição da estrada no canto superior direito não é exactamente a mesma) e sem ter falado com Duarte Belo especificamente sobre esta fotografia, suspeito que é porque as árvores impediriam a vista do exacto ponto em que Orlando Ribeiro teria estado em 1945.

Não se pense que esta é uma situação especial, este padrão de alteração da paisagem é o padrão geral, seja a Sul (Mértola)

mértola1940.jpg

 seja noutro ponto em que este ano se falou de fogos (Portas do Rodão)

rodao1937.jpg

 seja nos calcáreos

fornea1940.jpg

Se amanhã alguém fizer o mesmo trabalho de Duarte Belo a partir do espólio de outros geógrafos (dos poucos que fotografam paisagens rurais nesse tempo, a maioria das pessoas fotografam pessoas, monumentos, cidades e  aldeias ou curiosidades, embora por arrasto possam aparecer paisagens em fundo), a comparação apontaria no mesmo sentido, como se pode ver nos exemplos de A. Fernando Martins

Costa de Minde.JPG

ou Amorim Girão

montemuro.JPG

 Ao país sem mato, folhada e ervas que servissem de combustível ao fogo, sucede-se um país afogado em combustíveis finos que propagam o fogo à mínima condição favorável.

Ao país cheio de gente para acudir ao mínimo fogo nas suas terras, sucede-se o país sem gente que faça a gestão e que acorra ao mínimo sinal de alerta.

Pretender resolver os problemas contemporâneos com soluções anacrónicas (corpos de bombeiros voluntários formados a partir de comunidades cheias de ausentes), sem entender que a complexidade do problema exige mais conhecimento, estratégia e informação e que, ao mesmo tempo, as comunidades que mais directamente sentem o problema estão depauperadas de braços, conhecimento e capacidade, não parece grande ideia.

E, no entanto, a fortíssima teia de laços entre poder local, corpos de bombeiros e estruturas partidárias locais tem impedido a destruição criativa das estruturas anacrónicas que permita abrir o espaço para as soluções contemporâneas.

E a raiz dessa força é fácil de identificar: os fluxos financeiros do Estado central, mal escrutinados e mal avaliados pela convicção generalizada de que o dinheiro que entra nas corporações de bombeiros é, por definição, dinheiro abençoado usado para proteger o bem comum.



18 comentários

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De José Monteiro a 25.08.2017 às 22:23

Little Adenda,
resultante das caminhadas e obs entre Gardunha e Estrela.
Territórios despovoados ou de núcleos de população diminutos, mesmo que de alguma dimensão, com pouca gente nas lides da terra, os mais activos a trabalhar fora da vila/aldeia;
Espaços cultivados até aos anos sessenta/70, em regressão: um vale cuja ocupação ou exploração humana, tem vindo paulatinamente a afastar-se das nascentes das linhas de água e a aproximar-se dos limites dos meios urbanos;
Uma grande parte do território, dominado por pinheiro e mato não tratados ou abandonados, em vias de constituir uma densa mata impenetrável ou quase.
Que fazer?
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De henrique pereira dos santos a 26.08.2017 às 06:39


Essa é a pergunta a que tenho procurado responder nos últimos dez ou vinte anos.
Do ponto de vista dos fogos insisto em três linhas de trabalho (uma há muito tempo, outra há algum tempo e a terceira é recente).
1) A mais antiga: deslocar os apoios rurais do apoio à produção (e, na verdade, à sustentação do rendimento dos agricultores com base nos modelos tradicionais) para o pagamento de serviços de ecossistema efectivamente prestados mas que são dificilmente apreensíveis no mercado. Um exemplo, para se tornar mais compreensível este jargão. A resinagem está de novo a crescer lentamente, mas tem um efeito positivo na gestão de combustíveis finos, que é o que interessa na gestão do fogo (esse efeito pode ser obtido com outras actividades, como a pastorícia, a caça, a gestão florestal, etc.). Um factor muito limitante para o crescimento da actividade é o facto do retorno ser relativamente baixo e ser preciso parar a actividade quatro meses por anos. Se o Estado assegurar o pagamento desses quatro meses (e pode exigir contrapartidas de gestão activa de combustíveis no Inverno) a actividade torna-se muito mais atractiva para patrões e empregados e pode crescer mais rapidamente e trazer gestão para onde faz falta;
2) Integração da prevenção e combate, em especial pela profissionalização de um corpo de bombeiros florestais que possa, no Inverno, fazer gestão de combustíveis, nomeadamente por fogo controlado, extensão rural, acompanhado o uso do fogo  por pastores e agricultores e, desta forma, usar as oportunidades de baixo combustível, onde o fogo diminui de intensidade, para o combate;
3) Auto-protecção das comunidades, clarificando o que e preciso fazer em cada circunstância, o que fazer no Inverno, o que fazer na iminência de chegada de um fogo, etc..
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De José Monteiro a 26.08.2017 às 22:47

Certo.
Dependente de duas coisas. Organização e vontade.
Pouco compativeis com os amadorismos dominantes na política.
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De Anónimo a 27.08.2017 às 18:21

deslocar os apoios rurais do apoio à produção

Mas isso é possível? Que eu saiba, a política agrícola é toda ela ditada pela União Europeia.
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De henrique pereira dos santos a 27.08.2017 às 22:38

Está completamente enganado a esse respeito. Há uma política agrícola comum, com regras comuns, mas que são muito flexíveis e adaptadas ao contexto de cada país (em muitos casos, de cada região).
Aliás o que em determinada altura era feito em Portugal era ter os apoios para o pagamento de serviços de ecossistema previstos (porque era obrigatória uma percentagem mínima) e depois fazia-se uma regulamentação que os tornava impossíveis de aplicar e, a meio do quadro comunitário, fazia-se uma reprogramação para reafectar as verbas à produção com o argumento de que os agricultores não estavam interessados na outra parte.
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De Anónimo a 27.08.2017 às 18:23

profissionalização de um corpo de bombeiros florestais que possa, no Inverno, fazer gestão de combustíveis

Sim, mas isso implica um gasto continuado em bombeiros. Implica mais dinheiro e, pior ainda, mais funcionários públicos (arrghhh! que nojo!!!).

Se o HPS quer pagar a bombeiros florestais, não apenas nos 3 meses por ano da Fase Charlie, mas 12 meses por ano, então isso custará muito mais dinheiro...
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De henrique pereira dos santos a 27.08.2017 às 22:32

Fez as contas? É que a única corporação profissional de bombeiros florestais que existe no país é incomparavelmente mais barata e mais eficiente para o que se pretende, o combate a fogos florestais, que actualmente quase não existe no resto do dispositivo, que em grande parte está empenhado em missões, aliás impossíveis, de protecção civil.
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De Anónimo a 28.08.2017 às 15:28

a única corporação profissional de bombeiros florestais que existe no país é incomparavelmente mais barata e mais eficiente para o que se pretende, o combate a fogos florestais

Suponho que se refira aos bombeiros ao serviço das celuloses.

Mas há que ver que esses bombeiros contam com situações mais favoráveis.

1) Têm por sua conta grandes latifúndios florestais, que podem gerir de forma global sem se preocuparem com extremas de propriedades nem com rendimentos parcelares. Podem construir corta-fogos onde lhes apetecer, fazer fogos controlados onde lhes apetecer, etc. Em minifúndio tal não é possível.

2) Se bem creio (posso estar enganado), esses latifúndios situam-se essencialmente no Alentejo (serra de Ossa, norte da serra de Monchique, distrito de Portalegre), zona que por si só é menos dada a incêndios e que, por ter terreno menos acidentado, é muito mais favorável ao combate.
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De henrique pereira dos santos a 28.08.2017 às 17:45


Há alguma imprecisão no que diz.
1) 95% das intervenções da Afocelca são fora das propriedades das celuloses, em parte por fazerem parte do dispositivo nacional, em parte porque têm interesse em parar o fogo antes das suas propriedades;
2) A distribuição da área de eucalipto corresponde, em grande medida, com a área que mais arde (com excepções importantes, como as serras mais altas e o interior da zona Centro), porque os factores que estão na base dos fogos são os mesmos que estão na base da produtividade do eucalipto;
3) É verdade que boa parte da sua eficácia se deve à gestão anterior, no Inverno, mas é exactamente por isso que não é nada linear que um corpo profissional de bombeiros florestais fique, forçosamente, mais caro, porque podem trabalhar no Inverno para ter eficácia no Verão, como faz a Afocelca.
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De Anónimo a 27.08.2017 às 18:29

o pagamento de serviços de ecossistema efectivamente prestados

Não sei bem como é que se pode verificar que esses serviços são prestados.

Há muita fraude nos apoios à agricultura. Eu recentemente vendi uns eucaliptos. O comprador disse-me que queria "certificar" o meu eucaliptal, porque, estando ele "certificado", as celuloses lhe pagariam mais pela madeira. Então ele (o comprador) tratou de "certificar" a minha propriedade. Na prática, eu nada tive que fazer. A minha gestão do eucaliptal, pretérita, não ficou melhor nem pior do que o que era. A minha conclusão é que a "certificação" é uma fraude.

Estou mesmo a ver no futuro um indivíduo a ganhar uns subsídios por uns serviços que não presta...
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De henrique pereira dos santos a 27.08.2017 às 22:34

Sim, pode haver fraudes, mas duvido muito que essa história da certificação seja exactamente assim.
Mande-me o certificado para eu verificar, se não se importa, tenho muita curiosidade em ver o que está lá escrito e quem fez a certificação.
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De Luís Lavoura a 28.08.2017 às 10:13

duvido muito que essa história da certificação seja exactamente assim

Pode crer que é.

O comprador disse-me que as celuloses lhe pagariam mais se o eucaliptal estivesse "certificado". E tratou de o fazer. Parece que mandou fazer uma planta topográfica do eucaliptal e que foi lá um técnico qualquer visitá-lo (quando a madeira ainda estava de pé). Eu não vi nada (porque habito muito longe do eucaliptal) e também não fiz nada (não assinei nenhum papel nem nada).

Mande-me o certificado

Eu não tenho certificado nenhum, ninguém mo deu.

Somente, o comprador disse-e que doravante eu lhe deveria comunicar todas as ações que eu tomasse no eucaliptal (retanchamentos, limpezas, mondas, etc).
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De henrique pereira dos santos a 28.08.2017 às 10:34


Obrigado Luís,
Vou ver o que consigo saber e perceber a partir dessas informações. Provavelmente a área está integrada num grupo de certificação de pequenos proprietários e, aparentemente, a gestão que é feita cumpre os critérios, por isso terá sido fácil certificar.

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