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Obscuro domínio

por henrique pereira dos santos, em 30.04.21

Deram-me o sábio conselho de não fazer este post (e não digo que o conselho seja sábio por eu próprio mo ter dado a mim, antes de outras pessoas mo darem), mas resolvi fazê-lo na mesma, usando o título de um dos livros de Eugénio de Andrade para título do post.

Sim, é um post que me surge da actualidade, mas talvez por me ter cruzado com esta música de Caetano Veloso:

Por isso é que eu sou um vampiro
E com meu cavalo negro eu apronto
E vou sugando o sangue dos meninos
E das meninas que eu encontro
Por isso é bom não se aproximar
Muito perto dos meus olhos
Senão eu te dou uma mordida
Que deixa na sua carne aquela ferida

Caetano, aliás, é um bom exemplo de como toleramos muitas vezes coisas que, em abstracto, achamos no mínimo discutíveis e, seguramente, não gostaríamos que acontecessem com pessoas que nos são próximas: a longa relação de Caetano com a sua actual mulher terá começado, não de forma platónica, quando ele andaria pelos 40 anos e ela andaria pelos 13 ou 14 anos.

Não consigo ter opiniões radicais nesta matéria: a maturidade sexual do ponto de vista da biologia anda por essa idade, um pouco menos nas raparigas, a maturidade emocional achamos que pode ser pouco tempo depois (hoje não existe censura social generalizada sobre dois adolescentes que pelos seus 15 ou 16 anos tenham um relacionamento sexual, mesmo que os seus mais próximos preferissem que assim não fosse), a maturidade legal e social é bastante mais tardia, e eu não deixo de ter dúvidas sempre que afastamos as normas sociais da realidade biológica.

Em caso algum estou a defender a prevalência da biologia sobre as regras sociais, o que chamamos civilização é exactamente o fino verniz que pomos sobre a nossa biologia (sem discutir em que medida as normas sociais são um produto da evolução biológica, "The origins of virtue", por exemplo, para quem quiser ler quem escreve sobre isso com mais propriedade que eu).

Embora a mim me incomode profundamente a vitimação, espero conseguir não deixar de ser capaz de reconhecer a vítima e as suas circunstâncias.

Há já bastantes anos entrou no meu gabinete uma colega minha, que conhecia dos corredores mas de quem não era particularmente próximo, a pedir-me conselhos sobre o que fazer numa cena macaca que envolvia o seu superior hierárquico: deveria ou não fazer queixa?

Não sendo eu especialmente próximo dessa minha colega, e sendo estas histórias sempre uma exposição pessoal, começou por me explicar que tinha ido falar com várias colegas - todas mulheres - para tentar decidir o que fazer e que todas elas tinham sugerido que falasse comigo.

Perguntei-lhe que fontes independentes havia que pudessem confirmar o que me estava a dizer, e havia dois momentos que poderiam ser testemunhados por terceiros: um telefonema para o seu chefe directo (o acusado era chefe desse chefe, provavelmente meu também, não me lembro) e uma parte da cena que se tinha passado na entrada do edifício onde estava a segurança (uma mulher).

Rapidamente concluímos os dois que a probabilidade do seu chefe testemunhar com risco de se incompatibilizar com o envolvido era baixa, e que a segurança, que tinha uma situação precária, dificilmente se meteria no assunto contra a hierarquia da organização (já agora, um serviço público, mas em que o topo estava ocupado por gente em quem não se podia confiar).

Concluímos rapidamente que seria palavra contra palavra, num contexto organizacional desfavorável para a agredida, mesmo tendo sabido nessa altura que quase todas as minhas colegas mulheres que trabalharam directamente com o visado tinham uma queixa de comportamento inadequado, no limite entre o assédio e a pura prepotência a roçar a violência.

A prepotência e a violência verbal em conhecia de gingeira e em primeira mão, o resto fiquei a saber na altura.

Não me parece que eu tenha sido de grande utilidade, porque dei duas respostas em sentidos opostos: expliquei que se fosse comigo, eu faria queixa e que se lixassem as consequências, mas se me perguntasse que conselho daria, eu aconselharia não fazer queixa, porque o que se seguiria seria bem pesado.

Pessoalmente eu estaria disponível para essas consequências, mas seria incapaz de aconselhar alguém a meter-se nesses assados, na base de palavra contra palavra e, provavelmente, sem qualquer utilidade prática.

A verdade é que hoje continuaria a responder, provavelmente, da mesma maneira: eu provavelmente estaria disponível para as dúvidas de terceiros, os desmentidos, as consequências profissionais e pessoais e tudo isso, mas seria incapaz de dizer a alguém para se meter por esse caminho que consistiria em trocar conforto por causas perdidas.

E continuo espantado com a quantidade de pessoas que acham que estas areias movediças, este gelo fino, este obscuro domínio que faz parte da nossa natureza se resolve com uma perna às costas, desde que haja vontade (vontade política, dizem mesmo alguns).

Com certeza ajuda ter melhores regras, com certeza melhora muito a criação de culturas organizacionais com tolerância zero para com comportamentos abusivos (neste e noutros domínios) mas para desenhar boas regras, que sirvam a todos os agredidos, e também os injustamente acusados, temos mesmo de ter consciência de que a natureza humana é o que é, e que o fino verniz da civilização se parte com a maior das facilidades.

De nada adianta pretender que tudo se passa no plano da vontade racional, Freud, e muitos outros, hoje, teriam dificuldade em escapar às acusações de estarem do lado dos agressores, só por tentarem perceber as outras pessoas, provavelmente como caminho mais eficaz para se conhecerem a si próprios.



1 comentário

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De Anónimo a 01.05.2021 às 10:43

O Leãozinho

Caetano Veloso (https://www.google.com/search?rlz=1C1GCEA_enPT926PT926&sxsrf=ALeKk02r-3EIA5-lg7OgRnriWr5i6pBRNw:1619861984498&q=Caetano+Veloso&stick=H4sIAAAAAAAAAONgVuLUz9U3MLQwzMlaxMrnnJhakpiXrxCWmpNfnA8AHmcghB4AAAA&sa=X&ved=2ahUKEwiH7q6RmKjwAhXKz4UKHXzgC1sQMTAAegQIAxAD)
gossto muito de te ver, leãozinho
Caminhando sob o sol 
gosto muito de você, leãozinho 
Para desentristecer, leãozinho 
O meu coração tão só 
Basta eu encontrar você no caminho

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