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O urso e nós

por henrique pereira dos santos, em 23.02.19

Carlos Aguiar, seguramente um dos mais sólidos botânicos portugueses (declaração de interesses, sou seu amigo, não de casa, mas amigo, e foi um dos co-orientadores da minha tese de doutoramento) resolveu fazer o que ele próprio, com humor elegante, acabou por classificar como uma experiências sociológica: publicou um post curto no seu Facebook, com uma fotografia, dizendo que na fotografia estavam pegadas de um urso, identificação confirmada por especialistas espanhóis que não identifica, e que a observação era do seu primo, que identificou.

Fez depois um segundo post, com o resultado da experiência, referindo que já tinha feito posts com plantas que não eram identificadas em Portugal há dezenas de anos, com plantas novas para Portugal, mas nada disso tinha tido o imenso impacto do post do urso: centenas de partilhas, chuva de pedidos de amizade no Facebook, jornalistas ansiosos e várias peças jornalísticas, para além das dezenas de comentários no próprio post, uma divertida comédia realista sobre a nossa dificuldade em lidar com os nossos preconceitos (incluindo o preconceito de classe, como disse o Carlos num dos comentários, se o post tivesse sido feito pelo seu primo, que vive numa aldeia do Barroso, teria meia dúzia de likes da família e amigos, alguns comentários a mangar com o homem e pouco mais, mas como era um post de um respeitado botânico (esta classificação é minha, o Carlos é pouco dado ao auto-elogio) que se move no meio da conservação, fosse para arrasar o post, fosse para pedir mais informação, fosse para expressar dúvidas, a verdade é que o post foi levado a sério).

Conhecendo o Carlos suficientemente, sabia que não era apenas aquela fotografia (que nunca poderia ser conclusiva) a informação que o Carlos tinha e portanto não tive, nem tenho, a menor hesitação em dar crédito ao que é dito.

Na verdade veio a confirmar-se que o que estava em causa não era uma conclusão a partir de uma fotografia, mas sim o relato de um avistamento de urso, feito por um bom naturalista, pouco dado a invenções, com uma descrição precisa e consistente do avistamento, de que a fotografia é apenas mais um elemento de sustentação, isto é, a fotografia não demonstra a presença do urso, a fotografia é um elemento adicional por ser uma possível pegada de urso, na descrição de um avistamento consistente.

O interessante nisto é que pessoas como o Carlos (ou como eu) que confiam em naturalistas e nas pessoas comuns (grande parte das coisas mais originais que escrevi sobre paisagem não resultam de nenhum processo científico canónico, mas sim de conversas com pessoas como o Sr. Afonso, de Sirvozelo, o António dos cavalos, o Frazão, o Francisco Barros, o João Acabado, o Jaime Pinto, o Manuel do Rato e centenas de outros de que nunca soube o nome e com quem passei horas à conversa sobre as suas vidas, para espreitar os indícios de gestão da paisagem que estavam em segundo plano da conversa, um bocado como a delação premiada no processo crime, que não vale por si, mas abre a porta à investigação objectiva de indícios que dificilmente se obtêm de outra forma) facilmente lidam com estas observações e integram-nas no quadro geral de conhecimento de evolução dos sistemas naturais que têm.

Não é por acaso que mais facilmente se encontram botânicos, como o Carlos, ou paisagistas, como eu, a aceitar tranquilamente esta informação cinzenta para trabalhar a partir dela, que zoólogos especialistas nas espécies em causa, ou espécies afins, a dar crédito a estas "evidências contingentes", é apenas porque concentrados nos elementos de topo de processos complicados de entender (como são sempre os processos naturais), e conhecendo os muitos factores que podem influenciar a sua dinâmica, acabam por estar menos despertos para a dinâmica essencial da paisagem em que esses elementos se encaixam.

É também por isso que se preocupam mais com elementos que na verdade não influenciam tanto essas dinâmicas, como estradas, fogos, perseguição directa, que pontual e localmente podem ter alguma importância, mas que na escala da paisagem perdem muita da sua importância face ao peso que tem um factor bem mais dificil de estudar: a produtividade das fêmeas e a probabilidade das crias não morrerem antes de chegar à idade reprodutiva (é por isso que digo frequente e ironicamente, que os biólogos da conservação, em especial os zoólogos, vivem tão fascinados com a morte que se esquecem de dar o devido relevo à vida).

Esta clivagem entre os que relevam sobretudo o que se vê e nos emociona (o animal atropelado ou morto com um tiro) e os que fazem um esforço brutal de racionalização para conseguir entender o que não se vê e não se sente directamente (o animal que morre de fome, ou a fêmea que não consegue ter êxito na reprodução porque a falta de comida não lhe permite estar nas melhores condições fisiológicas para a maternidade) não é uma clivagem dentro de escolas de conhecimento, é uma clivagem social profunda que se reflecte transversalmente em tudo o que fazemos, seja na comparação da vida de um touro de lide com a vida de um cão de apartamento, seja na subida visível de um salário mínimo por contraste com o invisível acréscimo de dificuldade de uma pessoa pouco qualificada em arranjar trabalho, seja na proibição dos despejos dramáticos por comparação com a invisível dificuldade em arranjar casa porque os senhorios não têm a segurança da lei para se defender dos incumpridores.

Mais que isso, dependendo da nossa sensibilidade e do ponto de vista que temos sobre o mundo, essa clivagem existe em todos nós, que nuns assuntos pensamos com as emoções e noutros assuntos não.

Certo, certo é que a racionalidade resulta de um esforço voluntário, não é um dado adquirido, ao contrário das emoções.

Neste caso do urso, cuja presença em Portugal através de animais divagantes (populações reprodutoras é outra coisa bem mais complicada e distante) é consensual que esteja iminente (para uns) ou tenha sido verificada agora ou antes (para outros), é fascinante ver como as emoções resistem à simplicidade do que está em causa: o relato de um avistamento que parece consistente, atestado por uma fotografia inconclusiva mas coerente com a descrição do avistamento.

Este acontecimento simbólico altera alguma coisa na dinâmica do urso, que está em expansão na Península Ibérica há muitos anos, e que é visto perto da fronteira portuguesa correntemente?

Não, não altera, do ponto de vista substancial este observação ser verdadeira ou falsa não altera nada, a única coisa que pode mudar é a nossa percepção de como estão a evoluir os sistemas naturais.

E isso, essa percepção, não é nem irrelevante, nem inconsequente: a conservação da natureza precisa de drama e proximidade para ter relevância política e social que aumente os recursos disponíveis para a gestão do território, o que faz com que algumas pessoas se assustem com a ideia de que, afinal, a natureza não precisa que a salvemos, o mundo não precisa que o salvemos, nós é que agradecemos a possibilidade de gerir as coisas da forma que nos parecer mais útil para todos.

O que, para mim, inclui a possibilidade de ter ursos em Portugal, sem dramas e sem espanto. E também a maior diversidade possível de plantas, insectos, fungos, etc..

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2 comentários

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De Anónimo a 23.02.2019 às 16:20

Bem, o post foi levado a sério porque quem o escreveu é um respeitado botânico e não um simples curioso. Óbvio e normal. Parece-me que é assim em todo o lado e sempre foi e, por isso, não percebo o sarcasmo ou as conclusões sociológicas sofisticadas do Henrique. Suponho que também ele dará mais crédito a cientistas respeitados do que a curiosos, em áreas da ciência. Mas afinal, era uma brincadeira. Pronto, está bem, se quer assim. Mas o botânico pretenderá fazer mais destas brincadeiras para gozar com os parolos? É para saber. Como é que se devem ler os seus próximos posts?
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De Anónimo a 23.02.2019 às 21:17

Não era brincadeira nenhuma, há um avistamento de um urso e umas pegadas que são consistentes com o avistamento.
O Carlos resolveu dar a informação de forma sucinta e, vez de grandes explicações, e não vejo em que medida um respeitado botânico acrescenta alguma coisa para a validação de uma observação de urso ou para identificação das pegadas.

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