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O sofrimento dos filhos:

por Vasco Lobo Xavier, em 17.05.15

Não há nada pior do que o sofrimento dos filhos pois é bem sabido que o maior sofrimento dos pais é com o sofrimento dos filhos. Esse é difícil de suportar.

 Claro que eles sabem que a vida não é fácil, é tudo sofrimento, e que de uma vez por outra, até porque embalados no colo, ou empurrados pelo Dr. Costa, ou impedindo-se Hulk de jogar, os outros podem ganhar aqui e acolá um campeonato ou outro. Eles com isso até conseguiam conviver. O que desconheciam é que havia possibilidade dos outros receberem o campeonato por duas vezes seguidas. Nunca lhes tinha ocorrido, mesmo sendo maiores de idade e de certa forma bem vividos e informados.

 Foi preciso explicar-lhes que, desde logo e em primeiro lugar, a coisa ainda não era certa, por muito que os andaimes já estivessem a ser montados na operação Marquês lá na rotunda alfacinha. E que também não seria a primeira vez que seriam desmontados e eles voltariam para casa com o rabinho entre as pernas.

 

Debalde. Depois apelou-se à compaixão e caridade. Que diabo! Até eles tinham um amigo ou outro lampião: podiam ao menos pensar nisso, na satisfação deles. Nada! Foi então preciso explicar-lhes que faziam parte de um grupo de privilegiados. Com tão tenra idade lembravam-se do ano final do penta, viveram variadíssimos bis, viveram tris, viveram todo um tetra inteirinho (para já não falar da Champions e duas UEFAS), passavam a vida nos Aliados. E os outros? Um marmanjão vermelhusco de 35 anos pode hoje perfeitamente candidatar-se a Presidente da República e não fazer a mais pequena ideia do que é ser-se bi-campeão. Nada, zero, não ter a mais pequena noção do que isso seja. E pode candidatar-se à Presidência da República com essa completa inexperiência!

 Da última vez que os lampiões tinham sido bis, explicou-se-lhes, o mundo em Portugal ainda era na sua enorme maioria a preto e branco e só havia canal e meio de televisão. Era, sim senhor. O conceito de telefone móvel dependia do tamanho do fio que o ligava à parede. Computadores? – Ainda nem se imaginava o Spectrum e calculadoras eram um luxo. A auto-estrada Porto-Lisboa tinha uma ligeira interrupção entre os Carvalhos e Vila Franca de Xira, pouco depois rematada entre Mealhada e Condeixa.

 Tinha aparecido a primeira telenovela portuguesa e dançava-se a brasileira Dancin’ Days, enquanto as Doce ganhavam em Portugal passagem para o Eurovisão. Madonna lançava o seu primeiro single e Michael Jackson, na altura de cor e nariz naturais, estreava o magnífico Thriller que ainda hoje os diverte. O Principe Carlos acabara de casar com Diana e Pedro Mantorras tomava o seu biberão como qualquer outro bebé. Qual Bosingwa ou Postiga. A Michéle Mouton ganhara em Portugal o seu primeiro rally com o Audi Quattro, Piquet o segundo campeonato de F1 e a Brabham BMW o primeiro com motor turbo. Itália vencia a copa do naranjito.

 

Sim, era outro mundo. O comunismo ainda se imaginava no mundo uma hipótese, então com a morte de Brejnev. Cá, o conselho da revolução acabava de ser afastado mas ainda havia por aí à solta um grupo de vândalos, uns ladrões e bombistas que roubavam e assassinavam gente boa e inocente proclamando-se forças populares já não sei bem de quê. Soares e os socialistas andavam de braço dado com o FMI, na sua segunda intervenção no país. A Citroen ainda não tinha lançado o modelo BX que lançaria Cavaco Silva mas Portugal tinha o citadino Sado e o Jipe UMM. Não se imaginavam cartões multibanco e os de crédito eram limitadíssimos. Não havia crédito bancário nem se tinha inventado as compras em grupo. A banca e os seguros e muitas coisas mais tinham sido roubadas pelo Estado aos particulares e funcionavam do modo rudimentar que só o Estado consegue. A Europa discutia se nos queria nela, por considerar-nos a Grécia de hoje, e a Grécia de então não nos queria na Europa, por considerar-se dela. A Alemanha era duas e não mandava. Já a França era mais ou menos a mesma coisa, com menos dívida. O Solidariedade fora proibido na Polónia e a Argentina entrava em guerra com o Reino Unido, só para perder. Do Reino Unido para o mundo, Yes Minister era a maior maravilha. Começava a série Verão Azul, cuja banda sonora tem estado tão em voga, e estava para estrear o Super-Homem e as pessoas perguntavam-se como voaria ele na tela com cuecas vermelhas.

 

Éramos assim nos anos oitenta. Do século passado.

 - Eles não são bis desde esse tempo?!?...

 - Não. E nem quer dizer que o venham a ser agora, calmex…

 - Que desgraçados, que tristes…

 - Sim, uns desgraçados, uns tristes…, mas agora… cama!, que é tarde!

 

- Pai? E se eles chegarem ao tri?...

 - Filhos: desde que Jorge Nuno passou a dirigir a secção do futebol do FCP eles nunca mais foram tri, mas para se falar sobre o que se passou há quase 40 anos é mesmo muito tarde. Cama!

 

 



5 comentários

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De António Topa Gomes a 17.05.2015 às 10:54

Sou Benfiquista e, mesmo assim, diverti-me imenso a ler este post...Parabéns pelo humor embora a expectativa de poder ser presidente da república sem lacunas no cv ajude à tolerância!
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De Antonio Barreto a 17.05.2015 às 11:04

Quando passarmos ao café com leite, à frutinha de dormir e ao aconselhamento matrimonial, até medo tenho!
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De L/R a 17.05.2015 às 13:56

Não é que fosse tarde pata ouvir falar dia feitos do inigualável Jorge Nuno; as crianças é que ainda não têm idade para ouvir certas coisas. Parabéns ao encarregado de educação por resguardar os sensíveis tímpanos dos infantes. :)
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De FNV a 17.05.2015 às 15:18

sobretudo sobre a companhia levada a certas  visitas ao Papa ( o verdadeiro).<br />Pas devant la bonne ...et des enfants.
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De Vasco Lobo Xavier a 19.05.2015 às 23:14

Oh... Filipe! Todos os comentadores do post (até um colega teu benfiquista) aceitaram a brincadeira por brincadeira e tinhas tu de vir com coisas sérias?!?... Ou, pela hora do comentário, era ainda tensão e medo? Parabéns a ti pela nossa derrota. Vocês não mereceram ganhar, mas nós merecemos perder. Abraços :-))

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