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O silêncio dos inocentes

por João Távora, em 26.03.17

violencia.jpg

O meu amigo Filipe Nunes Vicente por vezes não resiste à sua costela jacobina e agora vem (uma vez mais) reclamar do silêncio da Igreja a propósito da violência doméstica e para tanto propõe-nos uma pesquisa no Google à qual eu me atrevo a sugerir outra: “Patriarcado do Lisboa + Violência Doméstica”. Aí encontrará o Filipe diversas referências ao tema com proveniência de diferentes sectores da hierarquia da Igreja - claro está que, se o Estado decidisse legalizar a violência doméstica, de outro modo tocariam as trombetas. Nesse jogo de retórica o Filipe demonstra algo que já sabíamos: que não frequenta e mal conhece a Igreja dos dias de hoje, lugar em que diariamente se acolhem e socorrem os casos mais dramáticos de pessoas em busca de caminho, de redenção, quantas vezes nossos vizinhos envergonhados. Esses casos tanto podem ser de  agredidos ou agressores: essa é a radicalidade do acolhimento de Jesus Cristo. Ora acontece que é na Igreja, não isenta de erros e limitações na sua actuação capilar e profundamente orgânica, que diariamente se apela à evangelização e à consequente partilha da mensagem de Jesus Cristo de Misericórdia, de Amor e de Perdão aos homens e mulheres de boa vontade. Pusessem em prática as comunidades cristãs os ensinamentos de Cristo e não se encontraria aí exemplos de violência doméstica. Como disse o papa Francisco certo dia, “a Igreja não é um hotel de santos, é antes um hospital de pecadores”. Mas acontece que, se há algum local na sociedade civil em que se empreende um trabalho profundo de prevenção à violência doméstica é entre os cristãos. É na Igreja que se realizam os CPM (Clubes de Preparação para o Matrimónio) cada vez mais exigentes, e é também na Igreja onde os casais encontram à sua disposição movimentos de leigos que têm em especial atenção a vida do casal na coerência com a mensagem de Cristo, nomeadamente as Equipas de Nossa Senhora de que faço parte, movimento mundial fundado pelo Padre Henri Caffarel nos anos 40 para uma catequese e caminhada na fé em casal. Por todas estas razões, por causa da intervenção eminentemente orgânica que a igreja promove na vida dos seus fiéis e nas suas comunidades, o comentário do Filipe me parece profundamente injusto. De resto, tenho algumas reservas quanto à exacerbação do conceito de “violência doméstica” em contraste com a “simples” violência física ou psicológica que uma mente perturbada é capaz de praticar contra o seu próximo, seja por motivos passionais ou crendices intelectualizadas. A crueldade humana mascara-se de várias formas - tem de ser veementemente punida e denunciada. Curioso como um crime como o perpetrado em Barcelos produz quase as mesmas consequências práticas que o acto de terrorismo de Londres. Em comum, para além da utilização da faca como arma, têm o facto de ambos provirem de mentes profundamente perturbadas e nos atirarem à cara o potencial malévolo que reside coração do Homem, de qualquer raça ou credo. Isto sim é para mim profundamente inquietante.



3 comentários

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De Renato a 26.03.2017 às 21:33

Mas que discurso tão lindo e tão fino. De facto, existe um abismo entre as igrejas do Estoril e do Chiado e o mundo católico real, em Barcelos ou outro lado qualquer. Mas até acredito que tenham dado entretanto cursos rápidos de reciclagem aos padres sobre violência doméstica, para dizerem qualquer coisita no fim das missas, de vez em quando, porque até pareceria mal ignorarem a atenção que finalmente é dada na comunicação social ao assunto. Isto a mim, enoja-me. Tenho todo o direito a dizê-lo, porque sempre vivi num meio em que os padres tinham um poder real e usavam-no para mandar as mulheres aguentarem os homens, porque era a sua obrigação. 
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De hajapachorra a 27.03.2017 às 03:15

O renato deve ser primo do nunes vicente, da Igreja nada sabe. No POrto, em coimbra, em Braga, em Aveiro, em Viseu não faltam pessoas, movimentos, grupos, ipss, casas-abrigo para acolher e ajudar as vítimas da violência doméstica, que, valha a verdade, cada vez tem menos a ver com o âmbito doméstico e o casamento e mais com 'famílias' refeitas, casais precários. As estatísticas não enganam, por cada marido que bate na mulher, há 4 companheiros que maltratam as companheiras. Já agora, o escriba faça favor de corrigir a sigla CPM não significa cursos de... mas centros...
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De João Távora a 27.03.2017 às 17:52

Corrigido. Obrigado.

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