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Li este inteligente artigo de Alexandre Homem Cristo, no Observador, com o título Há terroristas entre nós, sobre o acto bárbaro de um anglo-saxónico muçulmano de nome Abdel-Majed Badel Bary, de 23 anos, que abandonou a casa da família no bairro londrino de Maida Vale, na zona oeste da capital britânica, em 2013.

o objectivo é dissuadir a administração americana de intervir militarmente no Iraque. Talvez assim seja. Mas sendo certo que não terá esse resultado, o verdadeiro efeito é outro: reafirmar a percepção de que os nossos inimigos vivem entre nós. Ou seja, o homem que matou Foley, em nome do fundamentalismo religioso e de uma certa ideia de poder, terá crescido no coração da civilização ocidental, terá usufruído das liberdades que são o pilar dos nossos regimes democráticos, terá sido parte das nossas comunidades ou, até, nosso vizinho. E, apesar de tudo isso, odeia-nos. É isto, e não o acto bárbaro do assassinato, que gera medo.

Diz-se jihadista como se isso fosse um clube de futebol, uma profissão, uma religião, um clube privado. Em nome dessa pertença a um clube mata. Para ser um deles, para provar que pertence à seita, que pertence aos bons, que pertence aos superiores. É um perigo este tipo de pensamento e um engano, claro. Nem as ideias que achamos que são nossas o são verdadeiramente. And, you know, there is no such thing as society. There are individual men and women, and there are families. A inteligência é fundamental para não se deixar seduzir por estas ideias colectivas. Pelos estereotipos. Não existem, são meras simplificações mentais. 

Pensar que um miúdo que cresce em Londres e canta rap, pode ter a perversão de cortar uma cabeça a outro ser humano, que nunca lhe fez mal nenhum, a sangue frio, é pensar que há um potencial monstro sempre ao virar da esquina, que toma banho todos os dias e vai à escola ou vai trabalhar. Os sinais têm de estar lá. Porque ninguém começa a odiar alguém em nome de um povo de um dia para o outro, por decreto. Este ódio que se propaga muito pela Europa nas conversas informais contra o povo norte-americano, ou contra os judeus, ou contra outros quaisquer, não importa, são sementes de violência latente. Todas as pessoas com ódios irracionais a povos, grupos, culturas, religiões, classes são potenciais terroristas. Porque odeiam tanto e têm esse ódio de pele que levado ao extremo de uma alucinação colectiva (agregados em grupo) poderia perfeitamente levar a barbáries. Ninguém se choca quando se ouve alguém dizer que odeia esta pessoa porque é deste grupo, deste povo, deste meio, desta raça, mas isso é o que sentem todos aqueles que fazem do terrorismo modo de expressão desse ódio. Cada um de nós devia combater esses ódiozinhos irracionais. Está em cada um de nós essa tarefa. Só assim os ódios colectivos se dissipam e não têm terreno fértil para prosperar. 

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10 comentários

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De ALICE SAMORA a 25.08.2014 às 14:44


Nota-se que você é uma pessoa sensível e de boas intenções. Boa pessoa, acredito.

Conforme acredito que se levar a si própria a sério não deixará de se sentir perturbada com algumas contradições e incongruências.

Você acha que “there is no such thing as society”. Portanto, como diz, as raízes do mal têm de ser detectadas em cada um: “Os sinais têm de estar lá”. Talvez só uma certa desatenção leve a que esses sinais sejam ignorados “Porque ninguém começa a odiar alguém em nome de um povo de um dia para o outro, por decreto”. Ou seja: se a sociedade não nos molda são os homens e as mulheres, ou – vá lá – as famílias, as raízes e sedes do ódio.

Identificado o problema, como resolvê-lo agora? Tratamos disto como se de um imperativo burocrático se tratasse, ignorando (abstraindo) das pessoas em concreto ou, no caso de termos de ser mais determinados, se justifica um certo ódiozinho, nem que seja instrumental, às pessoas a corrigir?

Não admite a possibilidade de os americanos que se bateram no pacífico ou nas praias de Normandia terem um laivozinho que fosse de ódio aos japoneses e aos alemães?

E acha que os cristão que foram decapitar mouros à terra santa nos tempos das cruzadas eram más pessoas?

Não é por ser mais ou menos correcto. A questão é que se você exclui liminar e preliminarmente a dimensão social e histórica da explicação dos fenómenos sociais arrisca-se a, definitivamente, perder o fio do novelo. Senão o novelo mesmo.

A própria responsabilização individual tem história.

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De Maria Teixeira Alves a 25.08.2014 às 23:09

Obrigada pela sua opinião. Vi no entanto que deixa ao de leve um rasto de "odiozinho" aos americanos e cristãos, que é precisamente o que eu digo que cada um deve combater em si próprio. 
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De Pedro Henrique a 26.08.2014 às 12:20

Srº Maria Teixeira identificar uma realidade (presente ou passada) não implica obrigatoriamente um ódio, a não ser para aqueles que cerram os olhos aos factos quando estes não lhes interessam. Devo deduzir pela sua intervenção que só consente que alguém possa apontar o dedo a quem esse alguém "odeia"? O que significam então conceitos como frontalidade e imparcialidade?
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De Maria Teixeira Alves a 27.08.2014 às 14:01

O ódio irracional, é ódio irracional. O principio activo é o mesmo. Evidentemente que eu sei que não andam todos os que tem esse ódio a cortar cabeças.
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De ALICE SAMORA a 25.08.2014 às 16:17

Curioso.
O comentário que a seguir reproduzo, escrevi-o aqui em primeiro lugar.
Ninguém o publicou.
Entretanto dou com comentários interessantes noubro blog.
É distração ou não gostam do debate?
O texto é este:

Nota-se que você é uma pessoa sensível e de boas intenções. Boa pessoa, acredito.

Conforme acredito que se levar a si própria a sério não deixará de se sentir perturbada com algumas contradições e incongruências.

Você acha que “there is no such thing as society”. Portanto, como diz, as raízes do mal têm de ser detectadas em cada um: “Os sinais têm de estar lá”. Talvez só uma certa desatenção leve a que esses sinais sejam ignorados “Porque ninguém começa a odiar alguém em nome de um povo de um dia para o outro, por decreto”. Ou seja: se a sociedade não nos molda são os homens e as mulheres, ou – vá lá – as famílias, as raízes e sedes do ódio.

Identificado o problema, como resolvê-lo agora? Tratamos disto como se de um imperativo burocrático se tratasse, ignorando (abstraindo) das pessoas em concreto ou, no caso de termos de ser mais determinados, justifica-se um certo ódiozinho, nem que seja instrumental, às pessoas a corrigir?

Não admite a possibilidade de os americanos que se bateram no pacífico ou nas praias de Normandia terem um laivozinho que fosse de ódio aos japoneses e aos alemães?

E acha que os cristão que foram decapitar mouros à terra santa nos tempos das cruzadas eram más pessoas?

Não é por ser mais ou menos correcto. A questão é que se você exclui liminar e preliminarmente a dimensão social e histórica da explicação dos fenómenos sociais arrisca-se a, definitivamente, perder o fio do novelo. Senão o novelo mesmo.

A própria responsabilização individual tem história.


 
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De Maria Teixeira Alves a 25.08.2014 às 23:11

Tem de ter paciência e esperar que algum editor do blog ou autor do post venha aqui para o seu comentário poder ser publicado e não tirar conclusões precipitadas. 
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De João Soalho a 26.08.2014 às 12:25

O comentário de Alice Samora não é precipitado. Eu já fui censurado num outro artigo deste blog. Não insultei ninguém e expus as minhas ideias de forma bem justificada, mas isso não chegou para o meu comentário ser aprovado. Por isso, sim, talvez existam precedentes!
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De Mariana Silva a 26.08.2014 às 12:29

"Ódios irracionais"!?
Se um força área sistematicamente, te larga uma bomba em cima das casas ou das ruas dos teus conterrâneos ou familiares. Ou se toda uma nação estrangeira embarca em todos os mecanismos de controlo politico, económico ou militar para subjugar a tua terra aos seus interesses. Parece-lhe difícil que o ódio nasça? Dirá que é irracional?
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De Kruzes a 26.08.2014 às 20:55

Largar bombas em cima?! Londres foi bombardeada durante o tempo de vida deste animal? Tentar justificar acções deste género ou desculpas com outras tragédias parece-me assim um bocado parvo...
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De Maria Teixeira Alves a 27.08.2014 às 14:03

Aquele que vivia em Londres, estava fartinho de levar com bombas em cima das casas, pois...Olhe os ingleses na segunda guerra levaram com bombas em cima das casas e não é por isso que andam a delogar alemães. Tenham paciência.

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