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O que perdemos...

por Daniel Santos Sousa, em 10.05.23

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Os povos apenas se podem lamentar daquilo que perderam. A monarquia é o grande paradoxo, função de privilégio, mas também de dever, de opulência, mas também de humildade, de comando, mas sobretudo e essencialmente de serviço. E a propósito sempre recordo as palavras de Barrilaro Ruas quando referia que o rei é "cativo" da história, um prisioneiro do cargo que desempenha. Conduzido por forças que nem ele nem ninguém controla é escolhido pelo acaso que é a virtude da natureza. O rei vem apenas para encarnar a história e por isso encarna todas as instituições.

Se o ofício parece invejável tal seria erróneo pensar. Todos os momentos de lazer, privilégio e descontracção são observados pelo pesado fardo da responsabilidade. Não há um segundo de descanso, nem um momento onde possa abandonar as vestes de monarca. Ao contrário do presidente que está a prazo, o monarca fica, porque este não é apenas um cargo, mas um destino. É um poder vitalício que se opõe à tirania, porque esta não conhece limites ao exercício do poder e o monarca está rodeado por todo um conjunto de regras, instituições e obrigações.

Não é um funcionário, mas um guardião das instituições. Não é apenas um Chefe, mas parte de toda a nossa família. Não é apenas uma formalidade decorativa, mas parte da própria Constituição. A monarquia não é democrática, mas é a garante da liberdade e pode muito bem conviver com instituições representativas. O marquês de Lafayette lá diria que o essencial era rodear o trono de instituições republicanas, queria ele dizer que o trono nao podia abdicar desses elementos essenciais que caracterizam os regimes constitucionais. Embora constitucional tenha sido sempre toda a monarquia, porque lei fundamental sempre houve, pese a consequência de as revoluções modernas terem conduzido o formalismo dessa lei por canais ideológicos que muitas vezes comprometem a própria instituição.

Sobretudo, e de um ponto de vista simbólico, o rei é o guardião da liberdade e da independência dos povos. Mas a monarquia é como o cristal, uma obra de arte que é o produto de séculos, irrepetível e inimitável, uma vez perdida dificilmente (ou raras vezes) voltará ou, voltando, assumirá configurações diferentes. Se se sustenta na força das convenções e das tradições aí também reside a sua fragilidade. Independentemente de casos onde a monarquia voltou o certo é que uma vez cortados os vínculos que a uniam ao povo nada voltará a ser como dantes. E ao admirarmos o orgulho e o apoio que momentos de celebração propocionam apenas podemos lamentar aquilo que perdemos.


12 comentários

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De pitosga a 10.05.2023 às 12:40


Daniel Santos Sousa,
Gostei de ler este seu post.
Como tenho raízes de cristão-novo, sei que Daniel é um fiel nome judaico. Não será para o incomodar mas para o enaltecer.
Cumprimenta
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De pitosga a 11.05.2023 às 09:01


Vale a pena ver o porte de Penelope Mary Mordaunt a levar a espada no cortejo da coroação.
E, para mais, é uma mulher bonita.

Por exemplo, aqui:

https://www.cosmopolitan.com/uk/reports/a43814364/penny-mordaunt-sword/
cumprimenta
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De Pedro Oliveira a 10.05.2023 às 13:23

Excelente e inspirador texto.
Sublinho:
"Não é um funcionário é um guardião das instituições" e acrescento é um guardião da vontade legítima do povo.
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De Anónimo a 10.05.2023 às 15:20

É, não há dúvida. E o homólogo fugitivo de Espanha, o que será feito dele?
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De Anónimo a 10.05.2023 às 23:35

O homólogo dele não é fugitivo, está em Espanha a condecorar o SG da ONU.


O pai do homólogo dele, que talvez seja a quem se refere, por acaso também tem estado em Espanha, anda Você mal informado sem necessidade nenhuma.
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De JS a 10.05.2023 às 18:15


A Coroação de um soberano no Reino Unido é uma secular cerimónia que convém bem esclarecer.
É um ritual, preciso, cujo intuito é aclarar a origem divina do poder real.

As nuances e limitações que o interprete de esse poder terá...se, de livre vontade, aceitar ser Coroado.

Indispensável ler, e assistir à locução na TV, de esta "Ordem de Serviço".



https://edition.cnn.com/2023/05/06/europe/coronation-king-charles-order-of-service-gbr-intl-ckc/index.html
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De anónimo a 10.05.2023 às 20:10

« ... o certo é que uma vez cortados os vínculos que a uniam ao povo nada voltará a ser como dantes.»
A Família Real portuguesa continua vinculada. Agora, da parte do "povo", se ainda é... português...
Há decerto ainda gente do povo (os menos deformados pela "instrução" estatal e pela cultura estrangeirada ambiente) que sente esse vínculo profundo, até subitamente e imprevistamente, na simples presença viva dos nossos reis (assim tratados como tal). 
Não deixe o Daaniel de continuar a sentir assim, que é do melhor que nos resta. 


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De Francisco Almeida a 11.05.2023 às 09:19

Excelente postal que me alegrou a manhã. Não apenas alegria mas uma enorme nostalgia, pela instituição real mas sobretudo, pela citação de Barrilaro Ruas. O Henrique morava na parede e eu eu Carcavelos, e ambos fomos dirigentes do PPM o que me deu oportunidade de várias vezes, noite adiantada, lhe dar boleia do Bairro Azul até à Parede. Creio que aprendi mais com ele do que muitos dos seus alunos.
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De jo a 11.05.2023 às 09:56

A humildade do monarca britânico está bem patente nesta festa de coroação e na sua riqueza imensa. Um trabalho difícil que precisou de 73 anos de preparação, anos esses onde se entreteve basicamente a fazer coisa nenhuma. Que é aliás a tarefa que o espera agora.
Quanto a ser constantemente observado pelas revistas cor-de-rosa, é o trabalho deles e adoram isso. Mesmo entre as monarquias europeias há quem consiga ser mais recatado.
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De Anónimo a 13.05.2023 às 18:41


O rei adúltero que durante uma década andou a enganar a mulher que acabou assassinada num acidente de viação enquanto a amante hoje é a rainha consorte. E realmente teve muita sorte, pois são raras as amantes que se tornam rainhas.
Inglaterra pode ter estado 70 anos sem rei, mas livre-se de estar um dia que seja sem rainha.
Eu cá prefiro a república. E consta que os nossos presidentes não têm ou tiveram amantes, sempre preferiram a transparência.
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De O apartidário a 14.05.2023 às 15:50

A transparência e às vezes os gelados da santini.
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De Migang a 15.05.2023 às 17:43

Já agora, podem-me dizer, porque "previamente " e como qualquer ditadura, prenderam os lideres Republicanos Ingleses na véspera? Pois, estragavam a festa....

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