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O puxão de orelhas ao Observador

por henrique pereira dos santos, em 29.10.18

Não fui eu, foi uma jornalista empenhada em melhorar o mundo através da imprensa que chamou a este artigo um puxão de orelhas ao Observador.

Agora que a poeira vai assentando, vale a pena perder um ou dois minutos com este estranho artigo em que um senador da imprensa portuguesa puxa as orelhas ao seu antigo jornal por usar de menos a auto-censura, na versão benigna, a censura em relação aos seus cronistas, levando à letra o que está escrito.

David Dinis parte de um princípio: racionalizar e normalizar Bolsonaro é um erro.

Devo dizer que discordo radicalmente deste princípio: eu acho que é útil e bom racionalizar e normalizar todos os discursos políticos (é até uma das virtudes atribuídas a António Costa, a normalização de extremistas como o BE e o PC), o que não significa ceder e normalizar práticas políticas que fragilizem a democracia, isto é, que ponham em causa as regras de respeito pela divergência, a liberdade de opinião, a separação de poderes, a independência do poder judicial e essas minudências. Com esta discordência não vale a pena perder tempo, é normal que quem viva da palavra, como um jornalista, atribua mais valor ao discurso que à prática política.

No que vale a pena perder um minuto é na ideia de que cabe a David Dinis (e, na opinião dele, ao Observador), decidir o que deve ou não ser normalizado no espaço público, isto é, se David Dinis acha que o discurso de alguém é injustificável e inaceitável, então os seus leitores, as pessoas comuns, devem ser poupadas a esse discurso.

Só defende tamanha barbaridade quem acha que os seus leitores não são suficientemente adultos, informados, capazes de filtrar o que ouvem para poderem ser expostos a discursos perigosos.

David Dinis tem tanta certeza no seu juízo do mundo, tem tanta confiança na infalibilidade da sua apreciação política que nem o facto de haver mais de 50 milhões de pessoas dispostas a votar em quem David Dinis considera que espalha o ódio o faz ter dúvidas, ao ponto de achar inaceitável que se tente sequer compreender o que leva 50 milhões de pessoas a votar num candidato como Bolsonaro.

Nem mesmo o facto de David Dinis começar o artigo a lembrar o caminho que levou a Venezuela ao ponto em que está o faz recuar na conclusão absoluta de que os jornais devem é apoiar cegamente os apoiantes do regime venezuelano no Brasil, para evitar normalizar um discurso de ódio, mesmo que com isso contribuam para normalizar a prática venezuelana.

Nada disto mereceria que se perdesse mais que o tempo necessário a ler o artigo, que acho deplorável por normalizar a censura, e acho muito bem que David Dinis o escreva, se é o que pensa, e que o Eco o publique.

No que vale a pena perder mais uns tempos é em perceber que isto que David Dinis escreveu, e que a maioria dos macacos velhos do jornalismo jamais escreveriam por temerem mais a transparência no jornalismo que o discurso de ódio seja de quem for, é a prática reiterada do jornalismo mainstream, que se arroga o direito de ser o porteiro que decide quem entra ou não entra no jogo democrático, procurando confiscar aos eleitores um direito que só a eles pertence.

Depois não se queixem de que os eleitores se revoltem, quer deixando de ligar ao jornalismo e aos jornalistas, quer votando em quem o jornalismo entende que deve ser ostracizado e banido do espaço público, um efeito de boomerang várias vezes repetido que mesmo assim não provoca nenhuma alteração na prática normal dos grandes jornais e televisões.

Por mim, muito mais que o preocupante discurso de Bolsonaro, é o facto de termos uma esmagadora maioria de jornalistas que jamais aceitariam que os factos influenciassem as suas ideias.

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4 comentários

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De Anónimo a 29.10.2018 às 13:06

O dito jornalista esqueceu se de dizer que em ambiente de esquerdas cresceram duas grandes  pragas, a criminalidade e a seita evangélica...
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De Terry Malloy a 30.10.2018 às 00:39

Penso que deixou cair a máscara cedo demais, o Diniz.

 

A canelada ao Rui Ramos - "aqueles que vocês tão bem sempre denunciaram nos livros da história".

 

O engajamento e o jornalismo de causas - "o papel da imprensa não é ficar neutro quando a disputa é entre [...] o bem e o mal" (presume-se que o bem seja o PT...).




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De Terry Malloy a 30.10.2018 às 00:40

A defesa do PT para extrapolar para a defesa Daquele que Não Pode Ser Nomeado - "um partido não é todo corrupto se o seu líder o for [...]  vocês sabem de quem estou a falar".


Eu, com todo o respeito, descartaria conceitos como transparência e censura para falar deste artigo e usaria termos como activismo e ressabiamento.

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De José Lopes da Silva a 30.10.2018 às 01:06

"atribua mais valor ao discurso que à prática política."


É a valorização dessa prática política que leva o BE e o PCP a subscrever as políticas do presidente do Eurogrupo?


Ou será que essa salutar distinção entre o discurso e a prática só se aplica a alguns?

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