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Não há muito tempo, tive uma troca de mails com Manuel Carvalho, director do Público, e penso não estar a fazer nenhuma inconfidência, nem a divulgar conversas privadas, se disser que Manuel Carvalho ficou indignado com o facto de eu ter escrito que o Público, a propósito dos fogos, espalhava muita desinformação.
Diga-se que eu percebo a reacção de Manuel Carvalho, nenhum director de jornal gostará de ouvir que o seu jornal espalha desinformação, só que estou mesmo convencido de que um dos problemas do jornalismo está no facto de serem dos últimos agentes económicos que se ofendem com as críticas, não reconhecendo o papel essencial que a crítica dos consumidores pode desempenhar na melhoria do desempenho.
Vou ilustrar com uma notícia do Público, já com alguns dias, sobre um assunto de que sei pouco.
"Rendas aumentaram mais de 40% em cinco anos", era o titulo da notícia, que me pôs logo de pé atrás.
Rapidamente verifiquei que era uma notícia sobre os relatórios do INE sobre "novos" contratos. O INE tem sempre o cuidado de falar de "novos contratos", explicitamente, e por boas razões: a percentagem de novos contratos no mercado de arrendamento, em Portugal, é muito baixo (e regem-se por regras diferentes das que se aplicam aos contratos mais antigos), logo não se podem extrapolar os aumentos nos novos contratos para o conjunto mais abrangente referido no título da notícia "Rendas", que diz respeito a todos os arrendamentos.
Ou seja, o título a disseminar desinformação.
No texto da notícia vai-se intercalando a referência correcta ao objecto da notícia os "novos contratos", com extrapolações completamente abusivas "a renda mediana em Portugal atingiu os 6,55 euros por metro quadrado, uma subida de 8,6% em relação a igual período do ano passado".
Pura desinformação, este valor atira a renda mediana de uma casa de 50 metros quadrados para 327,5 euros mensais (655, para uma casa de 100 metros quadrados) , mas basta consultar os dados provisórios dos censos de 2021 para se ficar a saber que das pouco mais de 923 mil casas arrendadas, pouco mais de 650 mil (cerca de 70%), têm rendas abaixo de 400 euros.
Confesso que verdadeiramente o que me fez ir olhar para os números foi esta frase extraordinária: "Este aumento acelerado das rendas acontece apesar da retracção da procura". O que o jornal escreve é que o número de novos contratos celebrados diminuiu, mas como não acreditei que a jornalista estivesse a confundir número de contratos celebrados com procura, achei por bem ir à procura de qualquer coisa que pudesse indiciar uma diminuição da procura.
Fui obrigado a render-me à evidência de que nem escrevendo uma frase tão extraordinária como "os preços aumentaram apesar da diminuição da procura", a jornalista tenha reparado que a celebração de contratos não traduz apenas a procura, mas sim o ponto de encontro entre a procura e a oferta, isto é, os preços sobem ou porque a procura aumenta, ou porque a oferta diminui ou as duas coisas ao mesmo tempo, agora subirem com diminuição da procura, não sendo uma impossibilidade (não existem mercados perfeitos), é seguramente uma raridade.
E existem dezenas de indícios na evolução dos números da habitação, nomeadamente nos que dizem respeito ao arrendamento, de que Portugal está com um problema sério de oferta habitacional e, dentro desta, de oferta para arrendamento, matéria que os jornais raramente tratam com um mínimo de rigor.
Infelizmente o que confirmei, agora num assunto que não domino, é mesmo que o Público, como a generalidade do jornalismo, anda mesmo a espalhar desinformação, ao mesmo tempo de se multiplica em fact check's e coisas afins, sobre afirmações de terceiros.
Por mim, dois conselhos simples, um empresarial, outro sobre a natureza do jornalismo.
1) Senhores jornalistas, deixem de se amofinar com as críticas dos vossos leitores, não só porque tendo poucos clientes é um bocado estúpido alienar os poucos que ainda têm, como sobretudo porque as críticas são o mais poderoso e barato instrumento de melhoria do desempenho;
2) Senhores jornalistas, acabem lá dos fact checkers e polígrafos e vejam se aplicam isso internamente, às notícias que fazem todos os dias.
Eu sei que se os conselhos valessem de alguma coisa, eram vendidos, não eram dados.
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