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O preço da barbárie

por Miguel A. Baptista, em 16.09.25

Que me desculpem o “reductio ad hitlerum”, mas creio que o paralelismo pode ajudar a enquadrar a situação. Hitler chegou ao poder por via eleitoral e, quando invadiu a Polónia, contava com o esmagador apoio da população alemã, não apenas no sentido geral de sustentar o regime, mas também relativamente a essa ação bélica concreta.

As consequências para os civis alemães foram devastadoras. Muitas das ações dos Aliados tiveram pouca justificação do ponto de vista militar. No Ocidente, o bombardeamento de Dresden tornou-se o episódio mais emblemático. No Leste, sucederam-se horrores: do afundamento do Wilhelm Gustloff, a maior tragédia marítima civil da História, com cinco vezes mais vítimas do que o Titanic, ao massacre de Nemmersdorf, onde se registaram violações e assassinatos em massa de civis, incluindo mulheres, idosos e crianças.

Quando, a 7 de outubro, o Hamas, também ele eleito para governar Gaza, desencadeou o massacre em Israel, obteve igualmente o apoio da população (há estudos que confirmam que, em larga escala, a iniciativa foi acolhida com aprovação).

Hoje, Israel conduz uma operação militar com o objetivo de decapitar e desarmar o Hamas, além de libertar os reféns. Trata-se de uma guerra urbana, em que hospitais e escolas são deliberadamente utilizados como bases terroristas, o que torna inevitável um elevado número de baixas civis.

Ainda assim, Israel procura reduzir ao mínimo os danos colaterais, emitindo avisos prévios de ataque, uma prática que lhe custa o fator surpresa. O Hamas, pelo contrário, não só nada faz para proteger os civis como os utiliza sistematicamente como escudos humanos. Para eles, cada vida perdida não é uma tragédia, mas um recurso estratégico que alimenta a indignação do Ocidente “civilizado”. Sabem que, “por cá”, a sensibilidade é outra, e exploram-na com cinismo. Assim, cada lamento contra Israel, cada apelo ao boicote, transforma-se numa vitória para o Hamas, que lucra tanto com a morte dos jovens israelitas massacrados num festival de música como com a morte dos seus próprios conterrâneos.

Por que motivo evoquei os sofrimentos do povo alemão na Segunda Guerra Mundial? Não porque considere que um povo que apoia ofensivas bárbaras deve ser condenado a punição infinita. Não acredito nisso. Os horrores de Dresden ou de Nemmersdorf foram crimes em si mesmos. O que pretendo sublinhar é que, independentemente dos juízos morais, quando um povo apoia ataques bárbaros contra um adversário muito mais forte, deve ter consciência de que inevitavelmente se expõe a sofrer consequências terríveis, mesmo que esse adversário esteja “do lado certo” da História.


20 comentários

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De Anónimo a 17.09.2025 às 02:48

Se comparar a situação da Alemanha hitleriana com a da Palestina do Hamas exige algum contorcionismo mental, justificar, em 2026, o sofrimento das respectivas populações com esse paralelismo é, manifestamente, um exercício despudorado de legitimação da violência contra pessoas inocentes. Mais a mais, porque são utilizadas como escudos humanos. Sinistro.
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De O apartidário a 17.09.2025 às 08:50

Estava um ataque terrorista planeado para Madrid no final da Volta à Espanha?? ( na verdade foi cancelada a entrega de prémios aos ciclistas tal como foi cancelada a etapa após a invasão da estrada na parte final do percurso em Madrid, depois de várias etapas em que "manifestantes" pró Palestina sabotaram a corrida inclusive saltando para a frente dos ciclistas )
Canal Castillon Confidencial

https://youtu.be/_jh03vtIv-w?si=yz82TBJ3DHww882y
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De balio a 17.09.2025 às 09:31


Hitler quando invadiu a Polónia contava com o esmagador apoio da população alemã relativamente a essa ação bélica concreta


Como sabe? Que dados fiáveis dispõe sobre tal apoio?


Que eu saiba, nesse tempo não se fazia sondagens de opinião. muito menos nos países totalitários como a Alemanha.
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De Fernando Antolin a 18.09.2025 às 16:19

Leia o que escreveu o jornalista William Schirer, norte-americano, destacado na Alemanha até à entrada dos EUA na guerra, Ascensão e Queda do III Reich. Bem pode ter uma ideia desse apoio. Bem como o que foi dado à ocupação dos Sudetas, anexação da Áustria, desmembramento da Checoslováquia. 
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De balio a 18.09.2025 às 18:10

Não li o que escreveu W. Schirer. Mas permito-me ter dúvidas da possibilidade de um só jornalista, no meio de um país tão vasto como a Alemanha, e no contexto de um regime totalitário - no qual quem expressasse opiniões contra o regime corria sérios riscos - avaliar a real opinião da totalidade do povo.
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De Fernando Antolin a 18.09.2025 às 18:57

Então vá lá lê-lo, o homem acompanhou a ascensão de Hitler, de 1933 até ter que sair da Alemanha, quando esta declarou guerra aos EUA.
E ele era do tempo em que o jornalismo se fazia, essencialmente, falando com múltiplas pessoas/entidades, consultando muitas fontes, por isso é um testemunho credível 
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De balio a 17.09.2025 às 09:35


o afundamento do Wilhelm Gustloff, a maior tragédia marítima civil da História, com cinco vezes mais vítimas do que o Titanic


Sim, mas há sugestões de que esse navio, tal como outros que faziam o serviço de transportar civis da Prússia Oriental para o centro da Alemanha, faziam deliberadamente (ao serviço de nazis) de "escudos humanos". A sua principal tarefa era transportar soldados, não civis, e estes últimos estavam nos navios só para servir de escudos humanos. Sob o ponto de vista militar, o afundamento foi perfeitamente justificado, pois o navio transportava, em grande parte, soldados.
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De Fernando Antolin a 18.09.2025 às 16:31

E tal como pede na sua publicação anterior, que dados tem para afirmar serem soldados a maioria dos passageiros transportados ? Dos mais de 10 mil passageiros embarcados, 4 mil e tal eram crianças e adolescentes, enorme número de mulheres e, também, soldados, na maioria feridos e incapazes de combater, o que restava do destroçado exército alemão do sector
 báltico da frente leste. Além de cerca de 1000 tripulantes, pessoal médico e de enfermagem. 
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De balio a 18.09.2025 às 18:14

Não tenho dados sobre quem viajava no Wilhelm Gustloff. Somente li um texto (não sei dar a referência) segundo o qual esse navio não fazia somente transporte de civis, usualmente levava também muitos soldados. O comandante do submarino soviético que o afundou não tinha forma de saber se, naquela viagem específica, o navio ia com muitos civis e poucos soldados, ou o contrário.
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De cela.e.sela a 17.09.2025 às 10:25

depois do apoio dos Aliados à URSS e da derrota de Hitler houve dirigentes dos EUA que afirmaram ''matamos o porco errado''.
a  Onu parece mais interessada em Gaza do que na Ucrânia
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De balio a 17.09.2025 às 12:19


a  Onu parece mais interessada em Gaza do que na Ucrânia


Sob o ponto de vista dos direitos humanos, a guerra na Ucrânia tem sido muito civilizada. Tem havido ocasionalmente vítimas civis, mas têm sido muito poucas. Aparentemente, tanto a Rússia como a Ucrânia têm evitado alvejar civis. Embora haja alguns danos avultados a bens civis, as vidas de civis perdidas têm sido muito poucas.
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De balio a 17.09.2025 às 10:48


quando um povo apoia ataques bárbaros, deve ter consciência de que inevitavelmente se expõe a sofrer consequências terríveis



Hmmm. Eu diria que as "consequências terríveis" são largamente independentes do apoio do povo. Eu diria que aquilo que o povo civil alemão sofreu às mãos dos Aliados não foi por causa de ter apoiado ou deixado de apoiar as barbaridades que as tropas alemãs anteriormente tinham perpetrado. Eu diria que aquilo que os habitantes de Gaza estão a sofrer é largamente independente de eles terem gostado, ou não, dos massacres de 7 de Outubro - mesmo que não tivessem gostado, teriam sofrido agora na mesma.


Embora negando que o faça, o que o autor deste post está a fazer é a justificar, veladamente, os atuais crimes de Israel pelo apoio que a população civil de Gaza terá, no passado, dado às ações terrotistas do Hamas.
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De EO a 17.09.2025 às 11:07

De acordo. Mas, infelizmente, a logíca do último parágrafo não tem terreno fértil em Gaza, que tem uma população maioritariamente jovem e doutrinada pelos terroristas do Hamas durante duas décadas. Choram a morte dos seus mas ao mesmo tempo veneram o martírio! Para entender melhor a questão territorial, convém olhar para o que diz uma doutrina islamica nascida no tempo da expansão do imperio, o "waqf islâmico perpétuo", que diz mais ou menos isto: terra que alguma vez tenha sido conquistada e islamizada, continua como sendo terra islamica para todo o sempre. Precisamemnte, incorporada na doutrina do hamas, do hezbolah e do Irão (e do mundo Chiita, em geral) quando, quando dizem sem rodeios que querem a destruição do estado de Israel. Há até um 'motto' muito conhecido: "do rio até ao mar", que aliás já foi vista em cartazes por essa europa fora nas mãos dos idiotas úteis do costume.
Obs: caso possam, vejam o documentário "The Road Between Us: The Ultimate Rescue", documentário que esteve cancelado pelo festival de Toronto com o argumento de que violava questões legais relacionadas com a ausência de autorização do hamas pelo uso de imagens gravadas por eles próprios durante aquela animalidade. Depois de protestos e exposições públicas, a organização recolocou em exibição e, o que aconteceu? Ganhou o "People’s Choice Award for Best Documentary"!!
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De JPT a 17.09.2025 às 11:33

Desconhecia. Muito obrigado!
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De EO a 17.09.2025 às 17:31

De nada caro leitor!
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De balio a 17.09.2025 às 12:24


uma doutrina islamica nascida no tempo da expansão do imperio


Sem dúvida que essa doutrina subsiste, mas duvido que haja muitos muçulmanos que atualmente a subscrevam. Caso contrário, estariam todos muito ativos a tentar reconquistar Portugal... a começar pelos (muitos) muçulmanos portugueses.


A imensa maioria dos muçulmanos é pessoal pacífico, cuja fé nada tem a ver com essas doutrinas do passado.
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De EO a 17.09.2025 às 17:30

Há uma distinção a fazer: actualmente ainda subsiste em correntes Chitas, que é o caso do Irão, Hezbollah, Hamas e alguns grupos da Jihad Islâmica. Noutra corrente, a Sunita (Arábia Saudita, islâmicos não árabes) a expressao é muito marginal.
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De marina a 17.09.2025 às 12:49

 era quase exactamente , só falta trocar forte por fraco  "  quando um povo apoia ataques bárbaros contra um adversário muito mais   fraco deve ter consciência de que inevitavelmente se expõe a sofrer consequências terríveis "  : voltar a ser odiado  , desta vez pelo mundo inteiro , é sem dúvida uma consequência terrível para o s judeus , que , não sei  ?fruto da endogamia que lhes enfraquece os neurónios com  o efeito gargalo ? , se julgam impunes.
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De Silva a 17.09.2025 às 15:13

Nas chamadas democracias, o preço da barbárie também é extremamente elevado.
O povo escolheu o PS de Guterres, Sócrates e Costa e hoje temos droga em grandes quantidades, imigração indesejável, abortos, casamentos gays, máfias, criminalidade a aumentar, estagnação económica, etc,
O mesmo noutros países: Clinton, Obama e Biden emporcalharam os EUA, Tony Blair destruiu o Reino Unido, hoje em dia assiste-se à destruição da Espanha, o Brasil foi destruído ainda mais, a Venezuela é o mesmo, etc.


Por falar em Clinton, recomendo a leitura  do livro " A guerra dos metais raros" de Guillaume Pitron, onde há lá um capítulo que menciona a traição de Clinton em favor da China, país que financiou as suas campanhas políticas.
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De Hugo Marinho a 18.09.2025 às 05:06

Mais um post desculpabilizador do genocídio

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