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O PAN é intrinsecamente totalitário

por henrique pereira dos santos, em 28.05.19

PAN.jpg

Adenda 2, durante um dia ou dois (os fusos horários trocados baralham-me e portanto não sei) neste post estava escrito meio milhão onde na minha cabeça estava 500 milhões. Apesar de vários dos comentários de amigos meus sobre este número, entrei naquele mecanismo de 2+2=5 que impede de ver o erro na conta, tanto mais que a estimativa que me interessava usar era a mais pequena que encontrasse, porque mesmo para a estimativa mais baixa que existe sobre o assunto, o argumento do consumo destes 500 milhões de gatos e cães é um argumento poderoso, mas que aparentemente ninguém parece interessado em discutir

Adenda, esqueci-me de dizer que a escala de 1 a 8 representa a percentagem de votos no PAN em cada concelho

Pedro Magalhães fez este mapa, de forma totalmente amadora, de acordo com o próprio, mas é um mapa muito interessante para usar como base de uma discussão sobre o PAN, um partido que essencialmente responde a preocupações de urbanos que sonham com o restabelecimento de um paraíso perdido, ao mesmo tempo que ignoram a dura realidade da gestão dos recursos naturais que nos permitem viver confortavelmente, com índices historicamente baixos de mortalidade infantil, com uma esperança de vida longa, com baixíssimos níveis de miséria global como nunca houve na história.

Não tenho nada contra o PAN, tenho várias pessoas no facebook que estão muito ligadas a este partido (incluindo Francisco Guerreiro, agora eleito para o Parlamento Europeu), já colaborei em debates organizados pelo PAN (tendo previamente deixado claro que, não sendo aficionado nem caçador, iria defender a caça e a tourada como instrumentos de gestão da conservação do território, o que não representou qualquer problema para os organizadores do debate), já tive uma reunião com André Silva e respectivos assessores na Assembleia da República, a seu pedido, sobre questões de sustentabilidade (penso que o PAN agrada a minha sistemática defesa de que o dinheiro público para o mundo rural não deve ser usado para apoiar a produção de leite ou de carne mas o pagamento da gestão de serviços de ecossistemas), defendo claramente a diminuição do consumo de carne e de leite, como questões centrais da sustentabilidade e muito mais.

Que me lembre, devo ter sido das primeiras pessoas a admitir que o PAN poderia eleger um deputado nas eleições legislativas anteriores por ter visto a sua campanha, e a diferença, por exemplo, para a campanha do LIVRE. A campanha do PAN era muito focada no enraizamento social, pequenas acções, como pic-nics, com gente diferente, nem toda alinhada com o PAN, olimpicamente ignoradas pela imprensa, ao contrário do LIVRE que tinha uma campanha muito mediatizada, assente na cobertura jornalística do que dizia Rui Tavares, muito mais preocupada em difundir o que o LIVRE defende, que em ouvir o que as pessoas comuns pensam do LIVRE.

Se grande parte do que descrevo acima me poderia aproximar do PAN, há muitos anos que tenho uma posição radical sobre o movimento animalista, considerando que há incompatibilidade profunda entre a defesa dos direitos dos animais, enquanto indivíduos (Peter Singer é a base filosófica de tudo isto, um filósofo utilitarista radical que me parece profundamente desumano), e a defesa da conservação da natureza e a gestão sensata do património natural.

Os exemplos dessa incompatibilidade radical são imensos, uns mais fáceis de explicar, outros mais difíceis de defender.

Qualquer organização que queira discutir sustentabilidade a sério tem de olhar para os mais de 500 milhões (estimativa claramente prudente) de gatos e cães que existem no mundo, alguns ferais, que não levantam problemas estritos de consumo de recursos, mas com efeitos brutais na mortalidade de alguns grupos (por exemplo, os gatos são temiveis predadores, responsáveis por matar milhões de pássaros todos os anos), e muitos outros são animais de estimação com um peso não negligenciável no consumo de recursos, não apenas alimentares. Não tenho muitas dúvidas de que o PAN estará do lado dos indivíduos, contra os sistemas naturais nesta matéria.

Se é verdade que há questões filosóficas relevantes, e difíceis, na existência de touradas (uma sociedade decente não faz espectáculos que possam causar sofrimento), também é verdade que o abandono da tourada (seja por via regulamentar, como defende o PAN, seja por evolução da sensibilidade social, como estava a acontecer até os movimentos radicais anti-tourada terem provocado um movimento de resposta que voltou a fazer aumentar o número de espectadores das touradas) tem um efeito real de diminuição da competividade da gestão de terras marginais, com efeitos negativos na perda de biodiversidade e na gestão do fogo, por exemplo (para não falar dos efeitos de perda de controlo social sobre o território que o abandono do mundo rural tem vindo a provocar). Não tenho muitas dúvidas de que o PAN estará do lado dos indivíduos (paradoxalmente, forçando a extinção das raças de touros bravos por lhes retirarem a utilidade social) contra os sistemas naturais.

Estes dois exemplos (poderia escrever sobre muitos outros, como sejam o abate de espécies invasoras como instrumento de reposição do equilíbrio ecológico) são apenas consequências do problema central de partidos como o PAN, que está muito longe de ser um partido verde: o PAN pretende ser a voz dos que não têm voz.

Há muitos exemplos de como esta pretensão, a de ser a voz dos que não têm voz, que se opõe à pretensão das correntes políticas que pretendem dar voz a quem não tem voz, uma impossibilidade no caso dos animais, tem apenas um desfecho: a progressiva defesa da limitação da liberdade de terceiros, em nome de valores mais altos que ninguém sabe como validar.

Desse ponto de vista é muito elucidativo o facto do PAN aceitar facilmente a detenção de animais domésticos cuja única função é satisfazer as necessidades dos seus donos, mesmo com limitação quase total daquilo que seria o caracter intrínseco de um ser vivo, impedindo a sua reprodução, a busca por alimentação, a socialização entre pares ou com inimigos externos, o mero usofruto da liberdade de movimentos durante longas horas do dia, etc., sem fazer qualquer proposta de restrição à detenção, quer por razões de respeito pela natureza intrínseca dos indivíduos, quer por razões de sustentabilidade, e pelo contrário, aponte todas as baterias a uma actividade, como a tourada, em que os animais gozam de uma quase liberdade durante anos, são criados em grandes espaços ao ar livre, com total respeito pela sua natureza intrínseca, produzindo bens difusos que nos interessam a todos, apenas porque numa tarde participam num espectáculo que levanta questões filosóficas sobre a violência (como se a natureza não fosse, ela mesma, violenta e cruel).

O facto do PAN pretender decidir o que pode ou não fazer-se em cada comunidade, no que diz respeito à caça, à tourada, à produção animal, ao controlo da proliferação de cães e gatos ferais e vadios, não é apenas um pequeno preço a pagar pelo seu compromisso com a sustentabilidade e a natureza, é exactamente o inverso, a necessidade do PAN alterar do seu nome de Partido Animais e Natureza, para partido das Pessoas, dos Animais e da Natureza é a forma encontrada para contrabandear ideias totalitárias de defesa dos animais como se fossem opções "verdes", para usar uma expressão que de maneira geral evito usar para caracterizar o movimento social transversal que entende que a sustentabilidade é uma questão séria que deveria estar no núcleo base de qualquer organização política, ao lado da liberdade e do respeito pela opinião das pessoas comuns.

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