De Slade a 03.12.2015 às 11:19
O papá e a mamã também podem, e não raro o fazem, criar os seus meninos entre casinhas de bonecas e os popós de alta-velocidade; a tontice deseducativa (assim a vou considerar em consciente liberdade) não é apanágio do género ou condição sexual.
No resto, o que importa, resume-se às condições/caminho de resposta para "explicar às crianças a condição de casal homossexual?", e aí só pode remeter para um ponto: a percepção da sociedade a tal condição. Ou seja, se nada se fizer e partindo do princípio que 7-10% dos seres humanos são e serão para sempre homossexuais (como o foram desde o início dos tempos do Homem), a percepção não se alterará. Leis como estas são parte fundamental do caminho para a alteração dessa percepção.
Dirá que esse não é o caminho! É (ou será - pois espéculo) a sua opinião. Pois eu digo que este caminho (o das referidas leis) é o único possível - não sendo a homossexualidade uma doença e sendo um facto da evolução social (os tais 7-10% válidos desde sempre e para todo o sempre), tem de haver um ajuste da maioria às necessidades dessa minoria; de contrário, só restaria a sua guetização ou uma luta que levasse à sua destruição. O que, como disse antes, não é opção para mim - nem (acredito) para si.
Pois não é. Mas nem me meto em questões como a do casamento homo. é com eles, o casamento é um contrato civil.
A adopção não é. É a fixação de laços equivalentes aos da paternidade/maternidade. Situação complexa, neste caso duplamente complexa.
Não costumo discutir esta questão e limito-me a dizer - o tempo dirá.
Mas uma mãe (admitindo que desconhecem o progenitor) e dois pais - o pai e o papá - em meu entender será demais para a formação psicológica da crianças.
Mas sendo actual e moderno, que se lixem as crianças.
De Slade a 03.12.2015 às 12:11
O tempo que refere também se constrói, e dentro desse correr, dessa construção, está a percepção cultural da sociedade, sujeita muito naturalmente a mudanças. Leis como a que está em causa ajudam a construir, a mudar, e também porque nos responsabilizam enquanto cidadãos, que temos agora de contribuir para uma melhor percepção desse modelo de agregado familiar. Já não vale o gozo nem o desprezo, pois há crianças pelo meio que - isso mesmo - precisam de se formar psicologicamente de uma forma saudável.
De Slade a 03.12.2015 às 12:17
Devo dizer, por ser justo e verdade, que quando refiro 'gozo' e 'desprezo' não me refiro obviamente a si, mas a todos nós!
Eu sei. E esse «todos nós» (que envolve muito as outras criancinhas do mundo que as rodeia, e são normalmente pouco tolerantes) vai condicionar toda a liberdade e tranquilidade das adoptadas.
Mas que quer? É um direito dos casais homo, que prevalece sobre os dos menores...
Slade, essas criancinhas que refere neste momento são um tubo de ensaio.
Através delas - e isto para me subsumir aos aspectos que menciona - a sociedade experimenta um novo modelo de si mesma. Se se aceitar, bom para os miúdos; se se rejeitar, mau.
Entretanto, as próprias crianças, a quem ninguém perguntou nada, ver-se-ão confrontadas coma realidade que os cerca. Se, crescendo, acusarem o toque, isso é de somenos, a sociedade precisa modernizar-se.
De tgy a 03.12.2015 às 16:24
A questão nem é tanto a realidade que os cerca. A coisa vem de mais fundo.
A dinânima de uma relação entre um homem e uma mulher é diferente da relação entre dois homens ou duas mulheres. Ontologicamente diferente ( e não será se estranhar já que é a única que produz vida, que inova, que é apta a verdadeiramente criar). E é no modelo dela que as crianças vão buscar elementos fundamentais para a construção da sua identidade.
Não se confunda os pais com encarregados de educação, por mais zelosos e bem intencionados que sejam. São realidades diferentes.
Quando algum dos pais falta (por morte, ou ausência prolongada) é habitual as crianças procurarem no círculo de família ou amizades próximas alguém que, de algum modo, preencha a falta desse pai ou mãe que deixou de ter (e não "repetir" aquele que continua a ter: a diversidade enriquece e estabelecemos laços diferentes com o nosso pai e com a nossa mãe.
É interessante como tudo isto é visto como um "avanço civilizaconal". A ficção jurídica e os construtivismo são velhos de milhares de anos, e em todas as civilizações marcou um período de decadência. O fim que presidiu à adopção em Roma nada tinha de altruísta e estava ao serviço do ego do adoptante.
De Anónimo a 03.12.2015 às 19:16
Comentário apagado.
De tgy a 04.12.2015 às 02:08
A produção de uma vida depende de um homem e de uma mulher, por embaraçoso que isso possa ser.
Por isso, não houve nem há uma infinidade de modelos de família supostamente possíveis mas apenas os que mantêm o comprometimento ôntico traduzido em estratégias que permitem a identificação com os princípios feminino/ masculino e do ser humanos como resultante deles.
O construtivismo jurídico (que não se confunda com o acolhimento pelo direito de realidades que o "precedem" ou vão para "além" dele) vai da relativamente benigna adopção - que não teve por escopo qualquer motivação altruísta nas suas origens - ao Lebenborn nazi.
De Slade a 04.12.2015 às 10:04
Não sei de onde pensa que virá o meu suposto embaraço. É que, certamente reparou, dissemos exactamente o mesmo tentando jogar com palavras que supostamente liquidam o raciocínio do outro. Nada disso é necessário, os modelos não são porque são, são porque são pensados de acordo com as necessidades. Os homossexuais existem e sempre existirão, uns quantos querem ter filhos e recorrem à adopção (que por mal ou por bem também existe, e não distingue homossexuais, desde fora de um casal), outros até podem já ter filhos de relações heterossexuais anteriores e vivem com eles desde tenra idade, todos (crianças incluido) saberão que a vida não adveio de dois cromossomas masculinos ou femininos, e no entanto vivem juntos, e quem sabe se felizes. Cria-se uma lei que torna o processo consistente e coerente - e o mundo prossegue. Daí ao Lebensborn Nazi vai uma distância que se pode medir pelo infinito. Devo dizer, aliás, que a sua simples menção me parece absurda e intelctualmente desonesta.
Quanto ao resto, pois, vai dar ao ponto (questão) anteriormente referido: o que estou disposto a aceitar(?)
De tgy a 04.12.2015 às 14:57
"Os homossexuais existem e sempre existirão, uns quantos querem ter filhos e recorrem à adopção"
A questão é que não se pode ter tudo. E antes dos apetites dos homossexuais há que pôr os interesses das crianças em terem um pai e uma mãe (e se os seus pais não são capazes de os criarem, a tal ponto que lhes sejam retirados os filhos, o remédio não será a adopção por pares homosexuais mas por um dos milhares de casais que desejam adoptar.
No caso de homossexuais que têm filhos seus biológicos, o essencial será que a as crianças tenham ligação com a mãe, mesmo que o pai viva com outro homossexual.
A questão não é que as crianças saibam intelectualmente que são produto de um cromossoma masculino e feminino (e cada vez se percebe mais que os meses de gestação têm, também, uma imensa importância) mas que possam construir a sua identidade na dinâmica (que é única, desde logo na sua diversidade que gera a capacidade de criar) da relação heterossexual dos seus progenitores.
Infelizmente, nem todas as crianças podem ter isso. Será um caso de "infelicidade normal" de que falava Freud. Mas o que o acaso provoca não pode ser reproduzido pela lei, que tem de se limitar a reconstituir posições habituais e comuns. Por isso mesmo, desde logo, e no interesse da criança, os casais têm preferência na adopção sobre as pessoas individuais.
Nota: Qualquer construtivismo pode levar ao Lebensborn. É apenas uma questão de grau e oportunidade. Do ponto de vista da efabulação jurídica é tão absurdo e falso alguém ser filho de um ente colectivo como ter no seu assento a afirmação de que é filho de dois homens ou de duas mulheres - o que seria a consequência lógica da co-adopção.
Felizente, creio estar muito longe do que afirma.