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O padeiro anarquista

por henrique pereira dos santos, em 30.01.17

Um padeiro resolveu dizer uma coisa relativamente simples: muitos dos meus empregados têm dois empregos porque querem ganhar mais dinheiro. Quer eles, quer eu, preferíamos que fizessem esse mesmo número de horas que já fazem mas na minha empresa. A lei proíbe-me de os contratar mais de 40 horas, embora, naturalmente, não os proiba de trabalhar mais de 40 horas, o que acaba numa situação menos eficiente para as empresas, e mais penalizadora para os trabalhadores. O padeiro conclui, portanto, que deveria ser possível que, havendo acordo e interesse do trabalhador, as empresas pudessem contratar jornadas de trabalho até 60 horas.

Caiu o Carmo e a Trindade com uma simples opinião.

Passando por cima das centenas deturpações da opinião (nunca percebi a utilidade de contestar afirmações que não foram feitas como caminho para concluir que quem não disse uma idiotice é um idiota), esta opinião tem sido contestada essencialmente com os seguintes argumentos:

1) Se o padeiro pagasse mais aos seus empregados, eles não teriam necessidade de trabalhar mais que 40 horas. O facto de haver dezenas de profissões qualificadas que praticam horários, formais ou informais, de mais de 40 horas (enfermeiros, médicos, professores universitários, patrões, etc.) parece irrelevante para quem usa este argumento;

2) É imoral aceitar a existência de horários de trabalho de 60 horas (na versão maximalista, é um retrocesso civilizacional). Que o valor do trabalho seja uma função do valor criado e não uma categoria moral parece ser irrelevante para quem usa este argumento;

3) O que o padeiro paga é incompatível com uma vida digna dos seus empregados, mesmo que seja acima (ou igual, é indiferente para o argumento) do ordenado que o Estado estabelece como mínimo, ou seja do que o Estado estabelece como mínimo decente para uma vida decente. A única conclusão consequente deste argumento é a que é tirada pelo Partido Comunista: o ordenado mínimo deveria ser de 1200 euros por mês. Que o PC, enquanto entidade patronal não pratique o que quer impôr às outras entidades patronais é um mero pormenor sem importância. Tal como o facto dos outros padeiros do país não praticarem ordenados acima dos praticados pelo padeiro anarquista é outro pormenor.

Em todas estas linhas de argumentação o que é impressionante é o desprezo pela realidade: independentemente das nossas opiniões e convicções morais e éticas, o facto é que há milhares de pessoas a fazer horários muito mais extensos que 40 horas semanais, têm é de faze-lo ilegalmente (como é muito, muito frequente em todo o país, em especial nas micro-empresas que concorrem directamente com o padeiro anarquista) ou em mais que uma entidade patronal, com perdas para todos.

É verdade que a ideia de poder estender horários de trabalho até 60 horas semanais (que não é o mesmo que dizer que jornada de trabalho é de 60 horas, mas sim que as jornadas de trabalho de 40 horas podem ser estendidas, com o pagamento devido e por acordo com o trabalhador) levanta problemas muito delicados: a relação de trabalho não é simétrica e o patrão tem, com frequência, um ascendente muito grande sobre o trabalhador que lhe permite "formatar" a vontade do trabalhador.

Uma coisa é discutir problemas reais, postos por soluções reais, para realidades existentes, outra coisa, estupidamente frequente no espaço de debate público, é pretender discutir opiniões e propostas retirando da equação toda a realidade que limita o alcance dos nossos argumentos.

Senhores jornalistas, por favor, não poderiam passar da espuma das coisas e contribuir para aprofundar o debate em vez de simplesmente alimentarem a superficialidade emocional associada a realidades complexas?

Que tal fazerem uma reportagem sobre as condições de trabalho dos pequenos cafés e pastelarias de bairro, de base familiar?

Que tal fazerem uma reportagem sobre as pessoas que fazem jornadas de trabalho de mais de 40 horas, aposto que nos vossos jornais, em que aceitam tanta gente a escrever sem lhe pagar um tostão, não será difícil encontrar quem vá fotografar casamentos, depois do horário de trabalho, quem vá escrever livros, depois de acabar a jornada de trabalho no jornal, quem vá fazer uns extras numa rádio local, numa revista institucional, etc., etc..

E que tal perguntarem aos funcionários do PC (e respectivos sindicatos) qual é o seu horário de trabalho, se cumprem escrupulosamente as 40 horas estipuladas no seu contrato?

Deixem lá o padeiro fazer o seu trabalho em paz, deixem-no ter as opiniões que tiver sobre o assunto e façam o vosso trabalho com a mesma eficiência com que o padeiro faz o seu pão: talvez assim fosse possível ver jornais a abrir com o mesmo ritmo das padarias, em vez de os ver fechar por falta de clientes.

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