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"O medo vai ter de voltar"

por henrique pereira dos santos, em 22.01.21

O título do post replica o título que o Público escolheu para uma entrevista excepcional e excepcionalmente interessante de Carlos Antunes, provavelmente o mais influente modelador da epidemia, da equipa de Manuel Carmo Gomes.

O título da entrevista não é sensacionalista, corresponde mesmo ao conteúdo da entrevista e ao que se consegue perceber que seja o pensamento de Carlos Antunes sobre o assunto.

Tinha feito para meu recreio e instrução um pequeno gráfico que replica o que o Público usou na sua primeira página de dia 13 de Janeiro, que se baseia nas previsões da equipa de Manuel Carmo Gomes por alturas da reunião do Infarmed.

Note-se que confinamento, no conceito associado a esse gráfico, é uma coisa próxima do que Carlos Antunes defende ser a única alternativa para baixar contágios de forma relevante (em oito semanas, ao contrário dos dois meses e meio que estima se não forem adoptadas as medidas que defende): "Daquilo que vejo noutros países, só permitir a saída de casa mesmo só exclusivamente para aquilo que é essencial e só uma pessoa de cada casa. Não ter ninguém na rua.".

Carlos Antunes defende uma experiência social brutal, cujas consequências sociais colaterais negativas ignora, tal como ignora a necessidade de sopesar face às consequências sociais negativas de uma epidemia, apenas com uma base: projecções matemáticas nas quais confia cegamente.

Por isso resolvi usar aqui um gráfico básico, que não discute a primeira e segundas derivadas associadas aos gráficos nowcasting, é mesmo um gráfico básico, básico, pelo que tem um interesse limitado, mas ainda assim, o suficiente para lembrar que antes de embarcar em engenharias sociais radicais com base na certeza científica e na promoção do medo (onde é que já terei ouvido qualquer coisa semelhante?), convém começar por olhar bem para a evidência científica empírica que realmente existe, em vez de a substituir por modelos.

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3 comentários

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De balio a 22.01.2021 às 11:40


convém começar por olhar bem para a evidência científica empírica que realmente existe, em vez de a substituir por modelos


Exatamente. Toda a boa ciência natural ou social - isto é, para ser mais explícito, todas as ciências com exceção da matemática - tem que ser experimental. Nenhuma ciência pode ser boa se fôr exclusivamente ou principalmente teórica, se se basear principalmente em elocubrações, lógica e modelos. A experiência é a mãe de todo o verdadeiro saber.
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De Elvimonte a 22.01.2021 às 20:16


Ora vamos lá ver as afirmações proferidas pelo Prof. Carlos Antunes em 26/11/2020. 
https://tvi24.iol.pt/aominuto/5e56645d0cf2071930699ff6/matematico-carlos-antunes-admite-que-ja-passou-pico-da-segunda-vaga-em-portugal/5fc039550cf203abc5b3a063



"O matemático Carlos Antunes acredita que, segundo os modelos de que dispõe, Portugal pode ter já passado o pico da segunda vaga e que o número de infeções vai continuar a diminuir progressivamente nas próximas semanas.
No cenário mais otimista, e a manterem-se algumas restrições até ao Natal, na época festiva o país poderá estar com 1.000 casos diários."



Acredita, acha, pensa, etc.. Portanto é este o grau de certeza, "segundo os modelos de que dispõe". 


Sem dispor de qualquer modelo matemático, em 11/11/2020 escrevia eu em comentário neste blogue:


"Extrapolando o que se passou anteriormente, presumo que lá para meados de Dezembro estejamos com níveis de mortalidade semelhantes a Junho e início de Setembro. O concorda essencialmente com a sua previsão.


Mas há aqui aspectos que merecem alguma reserva. O efeito virucida da radiação solar não é agora favorável. O facto das escolas estarem agora abertas tem, pelo contrário, um efeito favorável - a modelação matemática validada pelos dados de já se dispõe confirma esse efeito ("Effect of school closures on mortality from coronavirus disease 2019: old and new predictions", "SARS-CoV-2 waves in Europe: A 2-stratum SEIRS model solution"). Pelo contrário, o uso de máscara e outras medidas não-farmacêuticas tendem a dilatar no tempo as curvas de mortalidade. Já há bastantes artigos científicos a sustentarem esta afirmação e apenas queria deixar aqui como curiosidade um gráfico de um estudo comparativo realizado aquando da epidemia de gripe espanhola de 1918-19: https://prnt.sc/upo9jd "
(Meu comentário em 11/11/2020 https://corta-fitas.blogs.sapo.pt/zandinga-ataca-de-novo-7099210#comentarios) 



Olhe-se agora para este gráfico de mortalidade diária da Suécia, sem confinamento, sem máscaras e com escolas abertas até ao fim do secundário: http://prntscr.com/xgszs4


Lá está: "Pelo contrário, o uso de máscara e outras medidas não-farmacêuticas tendem a dilatar no tempo as curvas de mortalidade."
Portanto, acho que sim. Acho que o medo vai ter de voltar porque a estupidez, a ignorância e a crença, essas nunca nos abandonaram.  



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De Elvimonte a 23.01.2021 às 12:04

Adenda


"Impact of non-pharmaceutical interventions against COVID-19 in Europe: a quasi-experimental study"
«Surprisingly, stay-home measures showed a positive association with cases. This means that as the number of lock-down days increased, so did the number of cases. The use of face coverings initially seems to have had a protective effect. However, after day 15 of the face covering advisories or requirements, the number of cases started to rise. Similar patterns were observed for the relationship between face coverings and deaths.»


"Effect of school closures on mortality from coronavirus disease 2019: old and new predictions"
«(...) school closures and isolation of younger people would increase the total number of deaths, albeit postponed to a second and subsequent waves.»


"Too Little of a Good Thing - A Paradox of Moderate Infection Control" (artigo de 2008)
«The link between limiting pathogen exposure and improving public health is not always so straightforward. Reducing the risk that each member of a community will be exposed to a pathogen has the attendant effect of increasing the average age at which infections occur. For pathogens that inflict greater morbidity at older ages, interventions that reduce but do not eliminate exposure can paradoxically increase the number of cases of severe disease by shifting the burden of infection toward older individuals.»


Gráfico lapidar de estudo realizado em Marselha que ilustra as datas em que as várias medidas não-farmacêuticas foram adoptadas em França, a evolução da epidemia e o facto da taxa de infecções estar já em fase descendente quando o confinamento se inicia no final de Outubro: http://prntscr.com/wa8j30

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