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O jornalismo Zandinga

por henrique pereira dos santos, em 01.03.17

Está na moda publicar em jornais (aqueles sítios em que procuramos informação sobre o que se passou no mundo) umas peças sobre o que ainda não aconteceu.

É o caso desta peça em que no dia anterior a serem ouvidos dois Secretários de Estado, uma jornalista resolve dizer o que acha que deveriam ser as perguntas a que falta responder.

Para além de não perceber a utilidade do exercício (eu, o Joaquim, a Felismina ou a Ana teremos com certeza dúvidas diferentes e delegámos nos nossos deputados a tarefa de as concretizar em audições parlamentares), a peça é notável pela forma como se esquece o que se sabe, para se focar numa tese que se pretende impingir aos leitores.

1) A primeira dúvida da Ana é se o anterior Secretário de Estado teve intenção de ocultar as estatísticas. Sobre essa dúvida constroi uma história, que é a sua interpretação da sucessão de factos conhecidos, mas sem a mínima preocupação de trazer à luz a única coisa que poderia ajudar a esclarecê-la: qual é o teor das informações sobre as quais foi escrito "visto". Isto é, se da sua leitura era claro que se pedia uma decisão sobre a publicação das listas, ou se a forma como a informação está escrita não é clara;

2) A segunda pergunta é extraordinária: se não foi um lapso, por que razão pretendeu Paulo Núncio não tornar públicas as estatísticas. Como a pergunta é completamente absurda, naturalmente o texto que a acompanha é também surrealista: é claro que sem esclarecer primeiro se há ou não intenção, não faz sentido pôr a hipótese das razões para essa intenção. Isto não é jornalismo, é conversa de café;

3) A terceira pergunta mantém o registo surrealista: partindo agora da hipótese de que houve intenção de não publicar (o que não está esclarecido) então será preciso saber de quem foi essa intenção que não se sabe se existe. Como jornalismo zandinga, é de primeira água;

4) A quarta pergunta é perfeitamenta razoável: qual é a relação entre a não publicação das estatísticas e o não tratamento e controlo por parte do fisco. Só que essa pergunta tem uma resposta clara e linear, que a jornalista não quis usar para não lhe estragar a peça: nenhuma. Como esta resposta desvaloriza tudo o resto, a jornalista diz que não é claro se existe ligação, como porta de entrada no registo surrealista das perguntas anteriores e apimentar a coisa;

5) A quinta pergunta não tem uma resposta tão linear, mas tem uma resposta razoável: o dinheiro que saiu pagou impostos? É uma pergunta semelhante a perguntar à jornalista se o dinheiro que recebeu de quem lhe paga o ordenado pagou todos os impostos devidos. Em princípio sim, mas só quando o fisco fizer a verificação da sua declaração de IRS é que a respota é cabal. Também neste caso não há qualquer razão para supor que o dinheiro não pagou impostos, sendo muito pouco provável que não o tenha feito (o dinheiro está registado e as análises que foram feitas a operações semelhantes não indiciam grande risco de fuga aos impostos, mas a jornalista preferiu esquecer-se destas informações). Para justificar a pergunta a jornalista diz que ainda não sabemos e depois não diz nada, só fala sobre o assunto;

6) Uma pergunta relevante: qual é a relevância destas operações de transferências bancárias para o controlo fiscal (enfim, deve haver gralhas na pergunta, portanto não se percebe bem). A jornalista, para manter a sua história, entra agora decididamente no campo das realidades alternativas, ao dizer que esta informação escapou ao radar do fisco, quando o fisco tem doze anos para a analisar e não tem de fazer nenhuma análise prévia às operações. E como não há nada a dizer (a resposta à pergunta é "praticamente nenhuma relevância) a jornalista não diz nada;

7) Uma pergunta razoável, sobre se é verdade que desapareceu informação dos ficheiros da AT, tendo a jornalista concluído, sem surpresa, que ainda está em investigação (e não tem nenhuma relação com a audição dos Secretários de Estado, claro);

8) Por fim, uma pergunta sobre o que pode mudar em consequência destas notícias. A jornalista, que surpresa, fala de propostas do PSD e do BE, sendo esta última uma proposta de proibição de transferências para paraísos fiscais não cooperantes com o Estado Português, e a que a jornalista, pelos vistos, leva a sério, esquecendo-se que a maioria das offshores são cooperantes e que propostas desse tipo não são para ser levadas a sério e por isso nunca poderão ser aprovadas.

E estamos nisto, a gastar o tempo dos jornalistas e dos leitores em histórias da carochinha, em vez de logo mais à tarde fazer uma notícia séria sobre as audições, que é o que qualquer pessoa normal quer.

As outras, as que querem saber o futuro, não lêem os jornais, lêem a sina.



4 comentários

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De SS a 01.03.2017 às 09:41

"Também neste caso não há qualquer razão para supor que o dinheiro não pagou impostos,"  , critica a jornalista por fazer "futurologia" , mas tambem sem investigar como sabemos?
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De Anónimo a 01.03.2017 às 12:07

Como me parece, também, óbvio.
António Cabral
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De Nuno a 01.03.2017 às 21:04

Já estão disponíveis as estatísticas de 2015/2016?
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De João. a 01.03.2017 às 23:26

O melhor é a jornalista solicitar aos homens as perguntas que querem ver feitas.

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