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O mecanismo habitual dos populistas (mesmo aceitando a definição de populismo que Jaime Nogueira Pinto passa a vida a citar: "populismo é a popularidade dos outros") consiste em identificar um problema (real, no caso dos populistas mais sérios, reconstruído, no caso dos populistas mais básicos), fazer um diagnóstico razoável, eliminar a complexidade do problema e do seu contexto, e propor soluções simples para problemas complexos.
Frequentemente, a solução simples consiste em dividir o mundo entre bons e maus, e depois propor eliminar os maus e entronizar os bons que, surpresa, coincidem com os que concordam com o populista.
Infelizmente, a cobertura mediática da catástrofe da madrugada do dia 28 de Janeiro segue, passo a passo, a cartilha populista e corresponde ao desporto nacional de apontar o dedo para a origem dos nossos males, que são sempre os outros, claro.
Desta opção não vem grande mal ao mundo, excepto por reforçar a falta de credibilidade do jornalismo.
O problema principal, para quem se interessa por políticas públicas, é que perdemos demasiado tempo a falar da Ministra da Administração Interna, da sua falta de jeito para falar em público (esquecendo que o príncipe dos fala barato em público, António Costa, já exerceu o mesmo cargo, tendo deixado como herança, para além da boa imagem por ser bem falante e amigos de muitos jornalistas, a organização da protecção civil que temos, a compra dos Kamov, as decisões sobre o SIRESP e outras coisas que tais), dos atrasos do governo e falhas disto e daquilo, sem que realmente falemos de políticas e das instituições que as suportam.

Este boneco foi-me lembrado pelo Paulo Fernandes e resulta de avaliações externas sobre o que deveria ser um modelo de protecção civil e o que realmente é em Portugal.
Não me interessa muito falar do que deveria ser o nosso sistema de protecção civil (obrigado António Costa pelo contributo fundamental para que a protecção civil tenha nascido torta), até porque há por aí muito literatura sobre o assunto. Ver, por exemplo, este artigo recente no Sapo, escrito por um militar, que compara parcialmente Espanha e Portugal.
São incontáveis os diagnósticos sobre a disfuncionalidade da nossa protecção civil, independentemente do ministro e do governo concreto em cada momento.
Mesmo quando se tomam decisões acertadas, como a criação da AGIF (obrigado António Costa por às vezes tomar decisões certas, independentemente de depois as sabotar), ou melhor, a criação de um modelo alternativo para a criação de informação sólida sobre a gestão de fogos, associado à tentativa de o tornar operacional, o contexto institucional não melhora grande coisa.
E não melhora por uma razão central, tanto quanto me parece, mas estou disponível para mudar de ideias se me demonstrarem que estou a dizer disparates (o que não é de estranhar, visto este assunto estar nas margens do que sei sobre a matéria, só vou tendo alguma informação em consequência do meu interesse pela gestão da paisagem).
A espinha dorsal da protecção civil, apesar da evidente disfuncionalidade que tem levado à progressiva criação de estruturas profissionais fora e dentro do universo dos bombeiros, são os corpos de bombeiros, geridos fundamentalmente por associações privadas financiadas essencialmente pelo Estado (as duas grandes fontes de financiamento dos bombeiros são o transporte de doentes e tudo o que gira à volta da gestão do fogo).
E, no entanto, o jornalismo venturoso que por aí domina, quando multiplica repórteres a repetir as mesmas coisas pela zona de catástrofe (paradoxalmente, são relativamente raras as reportagens de jornalistas que percorram a pé e de carro as zonas afectadas que, em vez de usar as declarações de terceiros para substituir a necessidade de reportar o que vêem, as usem essencialmente para compreender e reportar melhor o que realmente vêem), praticamente não fala da acção dos bombeiros que não são originários das zonas de catástrofe.
No grandes fogos, a protecção civil fala orgulhosamente dos milhares de bombeiros que tem espalhados pelas frentes de fogo, vindos de todo o país, mas, estranhamente, neste caso, há protestos por falta de militares, há protestos pela ganância das empresas, há loas aos voluntários e à entreajuda das comunidades, mas não tenho visto muitas perguntas ou reportagens sobre o contributo dos bombeiros de fora da zona de catástrofe em apoio aos bombeiros (evidentemente exaustos) das zonas afectadas.
Mesmo o vocal presidente da câmara de Leiria, que, é bom não deixar esquecer, é o responsável máximo pela protecção civil no seu concelho, embora não se perceba que qualificações tem para essas funções e qual é a vantagem em acumular a função de presidente de câmara, com a função de responsável pela protecção civil, nestas alturas em que a protecção civil é realmente necessária (o cargo de presidente de câmara é tão ligeiro que pode ser abandonado durante dias na ocorrência de uma catástrofe, ou o cargo de responsável pela protecção civil é tão fácil que qualquer pessoa, sem formação e experiência, pode ser responsável pelas operações de protecção civil pós-catástrofe?) que protesta com tudo e atira responsabilidades para todo o lado, tem evitado falar dos bombeiros que existem pelo país fora, com camiões cisternas (falta a água em alguns sítios, não é?), com geradores de emergência (falta a energia, não é), com gruas (falta apoio para acções imediatas nas coberturas de edifícios destelhados, não é?) parados nos seus quartéis.
Não me lembro de ter ouvido o presidente da liga dos bombeiros vir reivindicar uma maior visibilidade para o esforço dos bombeiros de todo o país no apoio aos bombeiros locais, mas não vejo tudo, pode ser que tenha aparecido sem eu dar por isso, e não seja para explicar que sem saber quem e como são pagos, os bombeiros não podem deslocar-se para fora das suas áreas de actuação habituais.
Sim, há responsabilidades políticas neste estado de coisas, mas não decorrem da senhora ministra da administração interna falar melhor ou pior sobre os efeitos da tempestade e as operações de protecção civil, o problema é muito mais complexo e é por isso que não se resolve.
Se o jornalismo venturoso não estivesse obcecado com as soluções simples para problemas complexos, praticado o amado tiro ao alvo ao político do momento que seja escolhido como cordeiro sacrificial, provavelmente há muito tempo que andava a fazer reportagens sobre a complexa teia de interesses financeiros (o corajoso Passos Coelho, com o respaldo da troica, quis liberalizar o transporte de doentes, acabando com o quase monopólio dos bombeiros, mas recuou porque percebeu o vespeiro político em que se estava a meter, de que dificilmente o seu governo sairia incólume) e, sobretudo, de relações pessoais entre dirigentes de associações bombeiros, misericórdias, clubes de futebol, associações recreativas, estruturas partidárias e autárquicas que impede qualquer reorganização institucional séria do nosso sistema de protecção civil.
Foi exactamente a fina intuição política de António Costa que, depois dos fogos de 2003 e 2005, constatando-se o desastre da sua gestão e a necessidade de reformular o sistema, o levou a evitar fazer a opção clara de entregar a gestão do fogo a quem sabe de gestão da paisagem, criando o híbrido monstruoso e em permanente ebulição institucoinal paralisante a que chamamos protecção civil.
Afrontar a longa teia que historicamente foi tecida à volta destas associações privadas, financiadas pelos contribuintes, tem um custo político que nenhum governo está disposto a suportar.
Nem nenhuma oposição, André Ventura, que teoricamente afronta o "sistema" globalmente, não me parece que alguma vez tenha falado desta sólida teia de relações que existe à volta desta originalidade de termos uma protecção civil assente em instituições privadas, financiadas pelos contribuintes.
E o jornalismo segue a mesma orientação de Ventura: disparar para todo o lado, mas questionar esta originalidade do sistema de protecção civil português, isso é que não.
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