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O impacto da epidemia

por henrique pereira dos santos, em 24.01.22

"Há quase um milhão de pessoas isoladas em Portugal ... Os números mostram o impacto da pandemia na sociedade".

Está no Público, hoje, mas podia estar em qualquer jornal, rádio, televisão ou publicação de facebook, mas nem por isso deixa de ser o que é: um tremendíssimo equívoco.

O impacto de uma epidemia mede-se em doentes e mortos (e doentes internados ou acima de um determinado nível de gravidade, se quisermos ser mais precisos), tudo o resto revela o impacto da forma como lidamos com a epidemia.

E esta distinção é fundamental para as opções de gestão de qualquer epidemia, porque é a distinção que nos permite avaliar que medidas têm um custo social aceitável para o custo sanitário potencial de não as tomar, e que medidas têm um custo social acima do custo sanitário potencial de não as tomar.

Os isolamentos, incluindo os mais extremos que são os confinamentos, isto é, os isolamentos de pessoas saudáveis porque não se sabe quais são as que transmitem ou não a infecção, têm efeitos sociais muito relevantes, e têm efeitos sanitários muito diferentes consoante as doenças e as pessoas que são isoladas.

Numa doença em que a fase infecciosa começa depois dos sintomas, o isolamento de doentes é muito eficaz - não há transmissão por assintomáticos - e, provavelmente, com um custo social muito baixo, apenas pessoas doentes são isoladas.

Já em doenças com fases infecciosas antes dos sintomas, a gestão dos isolamentos é bem mais complicada porque não há maneira de saber quando começa a fase infecciosa de alguém, a não ser testanto, testando, testando.

O problema é que testar reduz o desconhecimento em relação à fase infecciosa, mas não a elimina, na medida em que ou toda a gente é testada todos os dias, ou a decisão de testar é uma decisão mais ou menos aleatória, que apenas mitiga o número de infecciosos que andam na comunidade sem que ninguém saiba do risco de infecção, começando pelo próprio.

O argumento usado para responder a esta questão é o de que, sendo verdade que isso não resolve tudo, pelo menos mitiga o problema do contágio.

A teoria e, já agora, a prática desta epidemia, demonstram cabalmente que este raciocínio é muito pouco útil por duas ordens de razões.

A primeira é a de que o contágio tem uma relação de Pareto com o contacto, ou seja, não há equivalência entre contacto e contágio (talvez a maior das falácias na base dos modelos de gestão desta epidemia) porque a um pequeno número de contactos corresponde uma grande percentagem dos contágios.

Por isso tenho repetido incessantemente o exemplo das ignições dos fogos, em que a redução das ignições em 50% apenas se traduziria, na melhor das hipóteses, numa redução de 10% da área ardida (e estes valores são resultado de modelação matemática, o que se verifica na prática é que 1% das ignições são responsáveis por percentagens de área ardida na ordem dos 90%).

A segunda é de ordem prática: o custo social de evitar contactos sociais sobre rapidamente quando a incidência sobe.

Essa incidência está directamente relacionada com factores externos que não controlamos, como a meteorologia, tornando impraticável essa estratégia exactamente quando ela poderia ser útil: quando a incidência está alta (como é evidente, não há recursos disponíveis para fazer o rastreio de tantas pessoas, em tempo útil para a que a estratégia seja eficaz).

O que nos conduz ao início deste post: qual é o objectivo de ter um milhão de pessoas em isolamento, sabendo o custo social brutal que decorrem de ter 10% da população em isolamento, mesmo esquecendo que um desses custos é o da erosão da autoridade do Estado porque haverá milhares e milhares de pessoas que não cumprem o isolamente, sem que o Estado tenha qualquer capacidade para as sancionar?

O objectivo será mitigar os efeitos da epidemia, o que se mede em mortalidade e internamentos hospitalares.

A mortalidade continua baixa, atingindo sobretudo grupos sociais que estão em situação de fragilidade extrema, sendo difícil de saber:

se de há uns dias a este parte vemos maior mortalidade covid porque a covid desencadeia mais mortes;

ou se as temperaturas mínimas que se fazem sentir desde 12 a 14 de Janeiro (ver aqui), com destaque para os cinco graus abaixo da normal da mínima no dia 20 de Janeiro, estão a ter o efeito na mortalidade que a literatura identifica e, porque a incidência de covid está altíssima, acaba por haver mais mortes covid (o ministro da saúde inglês fala em cerca de 40% de pessoas internadas ou mortalidade que são incidentalmente covid, isto é, cujo internamento ou morte não tem qualquer relação com a doença, mas incidentalmente testam positivo).

Os internamentos estão perfeitamente dentro do que é uma época de doenças respiratórias infecciosas.

Sobra a questão teórica de controlar cadeias de contágio, mas acho que já nem vale a pena falar dessa ideia que a prática tem demonstrado impraticável, e cujos benefícios sociais parecem ser marginais, quando o impacto da doença em mortalidade e internamentos é o que é.

A ponderação de custos e benefícios de cada medida deveria ser, desde o primeiro momento, a pedra de toque da adopção de medidas de gestão da epidemia.

Só que isso é manifestamente impossível quando se desloca o critério do impacto da doença - internamentos e mortalidade - para um critério que tem um efeito de retorno brutal sobre a própria percepção da epidemia: o contágio medido com testes laboratoriais.

Felizmente, para todos nós, a realidade é o que é, tem a força que tem, e apesar dos imensos prejuízos perfeitamente escusados, lá chegaremos, um dia, a uma gestão sensata da covid.

Um desses imensos prejuízos escusados é a perda de credibilidade dos sistemas de saúde pública, não na assistência aos doentes, mas na prevenção.

E os profissionais de saúde têm grandes responsabilidades na destruição de valor da sua palavra que me parece inevitável que venha a ocorrer.



2 comentários

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De anónimo a 24.01.2022 às 12:33


Muito bem, muito claro. Mais, "...para um critério que tem um efeito de retorno brutal sobre a própria percepção da epidemia: o contágio medido com testes laboratoriais....".

Isso sem falar na pouca precisão dos vários testes que apresentam amiúde resultados contraditórios. E que ainda por cima o que detectam é apenas a existência de uma reação do organismo a qualquer coisa....
Parar, arruinar vidas num País a partir de esta informação!.
Porque se optou por discutíveis "vacinas" tipo "produto biológico injectável", em vez de terapias, conhecidas, eficientes?.
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De Francisco Almeida a 25.01.2022 às 11:31

Esse é um dos cernes da questão. Porque se calam e desvalorizam as terapias em favor das vacinas. Eu acrescentava também porque se fez uma campanha totalitária (uso o termo de propósito) contra a vacina da Astra-Zeneca, mais barata, mais fácil de armazenar e que tem muito menos ocorrências de reacções do que as mRNA? Isto o que já se sabe pois as consequências das vacinas mRNA a prazo são perfeitamente desconhecidas. O último estudo que vi referido, sugeria que a prazo, diminuiam a reacção imunitária natural. 

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