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De vez em quando, gente que me é próxima, escandaliza-se com o que eu digo, argumentam que com isto ou aquilo que digo, não tanto pela substância, mas pela forma como o digo, pareço um idiota, o que não lhes parece que seja verdade.
Respondo que provavelmente sou mesmo idiota, seguindo o princípio de que se grasna como um pato, voa como um pato e nada como um pato, o mais provável é ser um pato, reconhecendo, pela enésima vez, a minha incompetência social.
A última vez em que isto aconteceu foi por causa das cheias e temporais, suponho que tivesse sido porque escrevi algures, no meio de outras coisas, que estava farto de tanto dramatismo nunca visto, ligando depois para um texto sobre as cheias de 1876.
Para mim era claro que o que me põe fora de mim é a cobertura noticiosa sobre os desastres naturais que insiste em criar mais drama em cima do drama real, nomeadamente dizendo, com a maior das leviandades, que nunca se viu coisa assim (os mais inconscientes dizem que nunca aconteceu coisa assim), quando toda a vida houve desastres naturais, fossem sismos, meterológicos, pragas e etc..
O que me explicam é que isso não é claro para os que estão em situações complicadas, por vezes mesmo muito dramáticas, que interpretam o que digo como falta se sensibilidade (eu sei que agora se diz empatia, mas eu sou um velho reaccionário, não tenho paciência para essas modernices linguísticas) para com o sofrimento dos outros.
Só muito parcialmente isso é verdade, a parte que é verdade é que a ingratidão me parece um coisa moralmente condenável e na verdade não há nenhum direito a ser ajudado pelos outros, o que há é uma obrigação moral de ajudar os outros, que deve ter como contraparte a gratidão pelo reconhecimento dessa ajuda, e não, como parece ser infelizmente bastante frequente, investir na acusação de que se foi abandonado, quando essa ajuda não foi possível.
Patrícia Fernandes, uma das mais interessantes cronistas que vão escrevendo em jornais nos dias que correm, veio em meu auxílio para me explicar este meu incómodo, no Observador.
"a culpa do homem branco incentiva os “oprimidos” a adotar uma atitude de permanente vitimização, que os leva a interpretar todos os insucessos como resultado de “injustiça” ou “discriminação”, sem considerar a possibilidade de erros pessoais, fragilidades próprias ou mera casualidade. A consequência é sermos levados a entrar numa espiral de ressentimento que perpetua os problemas em vez de sermos incentivados a realizar o processo de aperfeiçoamento pessoal de que todos precisamos".
Sem que isto afaste a hipótese muito plausível de eu ser mesmo idiota - a que por defesa própria chamo incompetência social - afinal há alguma razão para esta minha irritação: o facto de alguém ser vítima não significa que a vitimização seja uma virtude, eu tenho real respeito pelas vítimas, e mais ainda pelas que, sendo vítimas, e tendo a humildade da gratidão para com tudo o que limite o seu sofrimento que resulta do que correu mal, conseguem ainda assim olhar para tudo o que aconteceu procurando separar o que resultou de opções suas, de casualidade ou de injustiça, para que nos dias seguintes consigam fazer melhor que fizeram nos dias passados.
Não, isto não é responsabilizar as vítimas pelo que lhes acontece, é aceitar a imperfeição do mundo e a minha responsabilidade pessoal indeclinável pela minha vida, mesmo que eu não tenha a menor responsabilidade em 99% do meu sofrimento.
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