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O grande Eça no Panteão Nacional?

por João-Afonso Machado, em 19.12.20

EÇA QUEIROZ.JPG

Está na ordem do dia: os restos mortais de Eça de Queiroz, pretende o Governo de Costa trasladá-los para o chamado Panteão Nacional.

O grande Eça, caso não saibam - e muitos não saberão... - morreu em Neuilly, França, e foi o cabo dos trabalhos para o trazer para Portugal, onde foi sepultado nos Prazeres, Lisboa, e, posteriormente, levado para Tormes, em Santa Cruz do Douro.

Ali repousa na sua merecida paz, longe da política e de todos os Abranhos deste mundo.

Agora, manifesta o Governo a sua vontade em o levar para o Panteão Nacional. Onde jazem figuras várias, nenhuma com a sua visão da política, do mundo e da Arte. Aliás (sem procurar apoio historiográfico), arrisco dizer - quase todos os sepultos no dito Panteão, far-se-iam mais depressa em nada se Eça sobre eles escrevesse...

Eu suponho - e espero! - a derradeira palavra caiba à Família Eça de Queiroz. E contra a Família Eça de Queiroz, é óbvio nada tenho a contradizer. Tenho é algumas ideias na cabeça. Por exemplo:

- Os governantes da época de Eça não perderam muita atenção com a sua morte. Só devido aos esforços de alguns amigos dele, atribuiram uma "pensão de sobrevivência" (aliás, de extrema necessidade) à viúva,  a Senhora Dona Emília de Castro, e aos Filhos;

- Os ditos Filhos perderam essa pensão em virtude das suas convicções monárquicas, pelas quais se manifestaram nas "Incursões" de 1911-12;

- Eça, monárquico que foi, é lido da frente para trás, assim se esquecendo os seus romances A Cidade e as Serras, e A Ilustre Casa de Ramires, entre outros escritos do maior significado;

- Eça, confrontado com esta III República morreria do primeiro mal que lhe desse. Calcula-se que esse mal seria a própria enunciação do termo - "III República". É só imaginar o grande Eça em conversa com o Eduardo (Dâmaso) Cabrita;

- Pensando em As Farpas, Ramalho acompanhá-lo-ia, também, em tal desterro no Panteão. Mas Ramalho, politicamente, não é tão sonante. Mais a mais, sobreviveu à Monarquia e (in Últimas Farpas) escreveu - «A República continua dando ao mundo o mais inacreditável espectáculo - existe»...

Costa quer popularidade. Eça, que na História vai imenso mais além deste batoteiro, quer sossego. Está bem em Tormes, e recomenda-se. Por isso... Vamos todos zurzir bengaladas nestes Palmas Cavalões (e cavalonas...) da sacanice governamental. Pelo inesquecível e inigualável Eça de Queiroz.



16 comentários

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De Bic Laranja a 19.12.2020 às 15:34

Concordo. Subscrevo. 
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De Anónimo a 19.12.2020 às 17:50

Amãlia w Euz´wbio gente Grande
p resto é má companhia
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De Robinson Kanes a 19.12.2020 às 18:25

Fique onde está! Além disso, a última coisa que o Eça quer é voltar atrás no tempo e ficar a viver na mesma Lisboa bafienta que tão bem descreveu...
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De olhosqueleem a 19.12.2020 às 20:45

Se Eça pudesse opinar, creio que dispensaria tal honra.
Subscrevo o seu texto.
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De João-Afonso Machado a 19.12.2020 às 20:47

Do que conheço desse (alguma coisa, por correspondência dele que guardo), não creia no contrário..
Obrigado
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De João-Afonso Machado a 19.12.2020 às 20:48

Desculpe: não é «desse», é «dele».
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De Anónimo a 20.12.2020 às 13:18

Estas criaturinhas caricaturais, que se querem guindar à custa do grande Eça, não têm capacidade para alcançarem, nem de perto, a ironia do autor. E este esteta da linguagem, burilada de requintes, também não é para estes burgessos com pernas. "Pérolas a porcos!"
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De Margarida Palma a 19.12.2020 às 21:58

Eça amou Lisboa! Mais do que ele ninguém soube apreciar a luz da cidade, as ruas e travessas que percorreu com deleite, a melancolia das tardes, do anoitecer: quem não andou com ele pelo bairro adormecido das Janelas Verdes, quem não o encontrou descendo  R. de S. Roque ou da Misericórdia, ou a Rampa de Santos, ou passeando no Aterro, onde deusas desciam de núvens? E mais muito mais! Mas em Lisboa havia (há?) também um mundo bafiento que ninguém como ele soube zurzir. Grande, imenso, imortal  Eça. Não era indiferente ao reconhecimento do seu talento, isso não era. Contudo, lá onde está, muito se deve rir quando for discutida esta questão. Uma coisa é certa, Eça não precisa do Panteão para nada. O resto será como for, quem puder decidirá - nada aumentará o seu valor, nada o diminuirá. 




P.S.Ah! importa dizer- Cesário, tal como Eça, soube entender Lisboa.    
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De Anónimo a 20.12.2020 às 11:21

Pode crer que já tenho pensado o mesmo, na falta que nos faz aquele olhar sobre nós de um Eça, com a sua verve e fina ironia, dando umas boas "bengaladas" no Portugal de hoje, para que se mirasse ao espelho.
Com o enxame de novos Cohen's, Euzebiozinhos, Gouvarinhos, Dâmasos e tanta gente "chique a valer" que se passeia pelo Aterro... e com o manancial inesgotável de "Episódios" grotescos, sem dúvida que o nosso Eça, hoje, teria uma fonte renovada de inspiração e de puro deleite, para aplicar o seu olho fino "à Balzac" sobre esta pobre "comédia de costumes"!


Consigo imaginar o diálogo hilariante entre o Carlos da Maia e o amigo Ega a propósito da ida do autor para o Panteão. Julgo que haveria ali discussão séria e debate cómico, com ambos a sopesarem, entre monumentais gargalhadas "panteónicas", qual a Bandeira e qual o Hino que melhor acompanharia o cortejo fúnebre.  Acabariam ambos, certamente, a decidir-se, pelo "Hino a arrastar-se de rabona!"


Mas estou como o Ega "este país do que precisa é da invasão espanhola!" , frase essa que dizia tudo : isto precisa de ser tudo arrasado e construído de novo, mas Ega percebeu também, que o país inerte que éramos(e somos) nunca seria capaz de tomar a dianteira e tomar as rédeas das mudanças necessárias. 

"Que ferro!"_ diria ele de novo, pois continuamos iguais, pasmados nesta modorra.


P.S. Creio que a família de Eça de Queirós terá o "Bom Senso e Bom Gosto" de não permitir tal desaire ao ilustre escritor. Que o deixem sossegado entre as serranias "de luz macia" e os "verdes tenros" dos "pensativos pinheirais" que ele pincelou como ninguém.
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De João-Afonso Machado a 20.12.2020 às 13:34

Só uma pequena correcção  quanto ao hino - "gingava de rabona"...
Quanto ao mais, Eça feito abaixo, com Ramalho, o regime bipartidário.
Vasco P. Valente, A. Barreto, M. Carreira tentaram o mesmo para a actualidade. Mas está dificil...
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De Anónimo a 20.12.2020 às 15:31

É isso! "Gingava", que falha imperdoável a minha. No meu imaginário a rabona "arrastava-se", pesadamente, como mandam as grandes solenidades.

No resto estou de acordo, mas só em parte. Os que enumera também "pensaram o país" (que termo tão caro aos nossos intelectuais!!!) mas acontece que, depois de os lermos, facilmente se fica ainda mais deprimido, como se já não nos bastasse a realidade do país! Fazem análises certeiras, mas o tom é demasiado pessimista, um tanto carrancudo. No caso do Pulido Valente tem um humor pesado, demolidor, optou pelo tom sarcástico e corrosivo. 
 Eça também apresentou a mesma visão muito crítica do Portugal seu contemporâneo. Mas fê-lo, como ainda não houve outro, com aquela visão caricatural, hilariante, que faz rir até às lágrimas. O humor de Eça era de uma outra natureza: demolidor mas procurava aligeirar com um tom trocista, cheio de fina ironia; nunca o seu registo era sarcástico, mas de uma leve mordacidade logo cortada pelo tom jocoso. Acho-o, por isso, mais libertador, mais redentor. 
Só há um nome, uma pessoa neste país, onde vejo estas características queirosianas: nada escapa ao seu olhar aquilino na avaliação que tem feito deste país, dos "tipos" humanos, dos nossos políticos cujo ridículo ele capta com um sentido de humor único e com uma subtileza e mestria inexcedíveis. Tem-me arrancado verdadeiras gargalhadas à Eça. E o seu nome é Alberto Gonçalves. 
Anda agora um pouco sem esperança e mais pessimista (mas quem não sucumbe neste país?)


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De Manuel Sousa a 20.12.2020 às 09:45

Entre os governantes socialistas, abundam Pachecos e Acácios.
Abranhos, poucos. Soares, não sei a quem compare. similitude é mais com certo personagem de mario puzo - com tipologia de enguia sortuda. Ou ornitorrinco.
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De Isabel A. Ferreira a 20.12.2020 às 15:16

Subscrevo este texto. Por tudo o que conhecemos do carácter de Eça de Queiroz, ele jamais desejaria que a sua ossada repousasse no Panteão Nacional. Eça está acima dessa vã vaidade, além de que Tormes é o lugar ideal para acolher um corpo que deu guarida a um espírito que, se existisse nos dias de hoje, demoliria os que, para proveito político, pretendem desalojá-lo da paz da sua sepultura, varrida pelos ventos…

Contudo, como refere João-Afonso Machado, a  derradeira palavra pertence à Família Eça de Queiroz. 
Partilho no meu Blogue.

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De Maria a 20.12.2020 às 15:24

Subescrevo o seu texto.
Eça não merece tal "desdita"
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De Anónimo a 20.12.2020 às 18:39

Se revolvessem os seus restos para o virem misturar nessa ralé que vai por Lisboa, até lhe dava um chelique e ressuscitava de cólera!!
Agora é que se lembraram dele ... ( que fitasdepois do "aeroporto."..)

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