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O Forno de Jales

por henrique pereira dos santos, em 09.06.18

O meu post anterior parece que incomodou algumas pessoas que se sentem injustiçadas por ninguém lhes pagar aquilo a que acham que têm direito por viver em zonas de baixa densidade populacional.

Resolvi por isso ser mais explícito falando do Forno de Jales, o restaurante do Toni, em Vreia de Jales (aqui num video de um dos projectos sobre alimentação e gestão de paisagem, não no dia a dia do restaurante).

O Toni resolveu fazer um restaurante no cimo de uma serra, longe de grandes concentrações populacionais, mas em vez de abrir uma porta como estivesse em Campanhã e depois passar o tempo todo a queixar-se da falta de condições, desenhou o restaurante para as condições que tinha, longe de tudo e com produtos de muito boa qualidade, boa parte deles de produção própria.

O restaurante não está aberto, só serve por marcação, o que imediatamente limita os custos fixos (o Toni e a família têm muitos outros afazeres na sua exploração agrícola e o restaurante é complementar).

Mas o Toni foi mais longe, embora possa receber grupos bastante grandes, decidiu que só abre para um grupo de cada vez, um mínimo de dez pessoas, é certo, mas uma vez feita a marcação, considera o reataurante cheio, apesar de poder acolher mais de cem pessoas à larga.

Ou seja, o Toni ofereceu uma coisa que é difícil aos restaurantes de porta aberta, movimentados, oferecer: privacidade a cada um dos grupos que vão ao seu restaurante.

E ao fazer estas escolhas, o Toni consegue não só reduzir os custos fixos, como consegue servir pratos de cozedura lenta, como o javali no pote, porque sabe com antecedência quantas pessoas vai servir, quando e o que vão comer.

Isto permite à sua exploração subir na cadeia de valor e vender as suas galinhas pica no chão a um valor bastante mais alto que o que conseguiria se as vendesse como é tradicional.

E era isto, um mero exemplo de como um empresário desenha o seu negócio para as condições que tem e é capaz de criar, em vez de passar o tempo a queixar-se da injustiça de não ter as condições que existem no centro de Nova York.

Com isto o Toni cria riqueza, cria algum emprego, aumenta o preço de venda do seu produto e a distância ao Porto, de onde vêm muitas vezes os seus clientes, deixa de ser uma dificuldade inultrapassável para ser uma vantagem relativa quando uma empresa resolve fazer o jantar de Natal difernete do habitual, no Forno de Jales.

É claro que tudo isto só funciona porque se come muito bem no Forno de Jales.

O meu post anterior era só sobre isto, sobre as possibilidades que existem e a inutilidade de chorar o facto de Alcaravela não ser Aveiro.

Questão diferente, sobre a qual, aliás, escrevo frequentemente, é a do pagamento da gestão de bens difusos que o mercado tem dificuldade em remunerar, como é, por exemplo, a gestão de serviços de ecossistema.

Tal como é diferente a questão do Estado desviar os recursos disponíveis para apoiar a coesão territorial para Lisboa e Porto, com o argumento de que a economia circular é muito importante.

Tal como é diferente a questão do Estado resolver colocar grande parte dos seus serviços nas grandes cidades em vez de os localizar nas cidades intermédias.

Tudo isso são questões que merecem atenção e discussão, mas nenhuma delas, nem todas elas, justificam a cultura de calimero que está instalada no "interior" do país, como o Forno de Jales bem demonstra.



9 comentários

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De Anónimo a 10.06.2018 às 00:41

Olha, o Henrique conhece o Toni
Gosto destas palestras vocacionais. Esta é do género "vao trabalhar,malandros, ponham os olhos no Toni". Quer um roteiro de dezenas de bons restaurantes no interior, que fazem bom dinheiro? É só dizer.
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De Henrique Pereira Dos Santos a 10.06.2018 às 10:01

Confesso que gostaria que publicasse aqui os dez primeiros desse roteiro. Não vale a pena o roteiro todo porque são às palettes, mas escolha dez desses restaurantes e traga par aqui essa lista, para ver se lhe consigo explicar o sentido do post.
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De Anónimo a 10.06.2018 às 12:22

Hoje estou sem tempo, mas amanha ponho-lhe entao aqui uma lists de dez bons restaurantes, de boa comida tradicional, de onde o amigo pode sair muito satisfeito e na companhia de muita clientela. Sempre a contribuir para o seu conhecimento do interior
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De Anónimo a 10.06.2018 às 20:45

Afinal, estou sem pachorra para fazer listas. Indico-lhe só um da minha terra, a Lousã, O Burgo, cozinha tradicional excelente, num ambiente fantástico. Sempre cheio, sobretudo de turistas. É um restaurante a sério, não desse género de abrir com marcação para grupos. Cria riqueza, lucro, emprego, etc. Por melhor que seja a comida no Forno de Jales e por mais simpático que seja o Toni, a terra onde está está lixada se o modelo de negócio da terra for o desse restaurante. Ó Henrique, é preciso mesmo não ter noção nenhuma.
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De Henrique Pereira Dos Santos a 11.06.2018 às 00:01


Não se preocupe, um só chega para eu ter a certeza de que realmente não percebeu nada do post.
Em lado nenhum eu defendi o modelo de negócio do Forno de Jales como panaceia para todas as situações, o que disse foi que o Toni, nas suas circunstâncias (que não são as do Burgo, que está a menos de dez minutos do centro da Lousã num local de visita turística tradicional), soube encontrar um modelo de negócio que funciona, em vez de se queixar da falta de condições para fazer um restaurante que está num fim do mundo, ao mesmo tempo que se mantinha a exploração agrícola.
Mas francamente agradeço-lhe imenso a demonstração do que pretendia dizer: a cultura de calimero gera essas visões pequeninas de "eu contra o mundo", portanto o relevante é dizer que o Burgo é que é bom e não há nada a aprender com opções diferentes noutros lados do mundo.
Continuai assim, a lutar sozinhos contra o mundo dos maus que querem liquidar o interior e os resultados serão, com certeza, os mesmos que têm sido até agora.
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De Anónimo a 10.06.2018 às 21:06

Mas se o Henrique gosta desse tipo de restaurante familiar, posso indicar-lhe alguns bons aqui na serra, na zona das aldeias do xisto, por exemplo no Talasnal, o Ti Lena, excelente cabrito, ou em Gondramaz, também com o cabrito maila chanfana. São umas aldeiazitas para os turistas, e uns poucos habitantes, com as casas recuperadas. Very tipical e dá algum movimento ao turismo na região. Está a ver? Só com estes restaurantes, e num raio de 30 km da minha terra, fazia-lhe uma lista com 50. Muitos nem precisam de marcação prévia só para grupos.
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De henrique pereira dos santos a 11.06.2018 às 00:05

Lamento ter de estar a explicar tudo vezes sem conta: a questão não é se há restaurantes bons ou maus (existem palettes de restaurantes bons pelo país fora) a questão é se é possível fazer um restaurante na Vreia de Jales que não tem a chuva de dinheiros públicos que tem sido deitada em cima das aldeias de xisto.
O Toni, em vez de se queixar do tratamento evidentemente desigual da Vreia de Jales, limitou-se a fazer o que achou melhor com as condições que tinha.
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De Anónimo a 11.06.2018 às 00:17


Ah, é isso? Entao acha que o restaurante do Toni foi feito sem dinheiros públicos?
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De Anónimo a 10.06.2018 às 10:03

a maior parte das pessoas esquecem o mais importante:
 estudo do mercado, qualidade, ....

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