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O meu post anterior parece que incomodou algumas pessoas que se sentem injustiçadas por ninguém lhes pagar aquilo a que acham que têm direito por viver em zonas de baixa densidade populacional.
Resolvi por isso ser mais explícito falando do Forno de Jales, o restaurante do Toni, em Vreia de Jales (aqui num video de um dos projectos sobre alimentação e gestão de paisagem, não no dia a dia do restaurante).
O Toni resolveu fazer um restaurante no cimo de uma serra, longe de grandes concentrações populacionais, mas em vez de abrir uma porta como estivesse em Campanhã e depois passar o tempo todo a queixar-se da falta de condições, desenhou o restaurante para as condições que tinha, longe de tudo e com produtos de muito boa qualidade, boa parte deles de produção própria.
O restaurante não está aberto, só serve por marcação, o que imediatamente limita os custos fixos (o Toni e a família têm muitos outros afazeres na sua exploração agrícola e o restaurante é complementar).
Mas o Toni foi mais longe, embora possa receber grupos bastante grandes, decidiu que só abre para um grupo de cada vez, um mínimo de dez pessoas, é certo, mas uma vez feita a marcação, considera o reataurante cheio, apesar de poder acolher mais de cem pessoas à larga.
Ou seja, o Toni ofereceu uma coisa que é difícil aos restaurantes de porta aberta, movimentados, oferecer: privacidade a cada um dos grupos que vão ao seu restaurante.
E ao fazer estas escolhas, o Toni consegue não só reduzir os custos fixos, como consegue servir pratos de cozedura lenta, como o javali no pote, porque sabe com antecedência quantas pessoas vai servir, quando e o que vão comer.
Isto permite à sua exploração subir na cadeia de valor e vender as suas galinhas pica no chão a um valor bastante mais alto que o que conseguiria se as vendesse como é tradicional.
E era isto, um mero exemplo de como um empresário desenha o seu negócio para as condições que tem e é capaz de criar, em vez de passar o tempo a queixar-se da injustiça de não ter as condições que existem no centro de Nova York.
Com isto o Toni cria riqueza, cria algum emprego, aumenta o preço de venda do seu produto e a distância ao Porto, de onde vêm muitas vezes os seus clientes, deixa de ser uma dificuldade inultrapassável para ser uma vantagem relativa quando uma empresa resolve fazer o jantar de Natal difernete do habitual, no Forno de Jales.
É claro que tudo isto só funciona porque se come muito bem no Forno de Jales.
O meu post anterior era só sobre isto, sobre as possibilidades que existem e a inutilidade de chorar o facto de Alcaravela não ser Aveiro.
Questão diferente, sobre a qual, aliás, escrevo frequentemente, é a do pagamento da gestão de bens difusos que o mercado tem dificuldade em remunerar, como é, por exemplo, a gestão de serviços de ecossistema.
Tal como é diferente a questão do Estado desviar os recursos disponíveis para apoiar a coesão territorial para Lisboa e Porto, com o argumento de que a economia circular é muito importante.
Tal como é diferente a questão do Estado resolver colocar grande parte dos seus serviços nas grandes cidades em vez de os localizar nas cidades intermédias.
Tudo isso são questões que merecem atenção e discussão, mas nenhuma delas, nem todas elas, justificam a cultura de calimero que está instalada no "interior" do país, como o Forno de Jales bem demonstra.
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