Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O eterno retorno

por henrique pereira dos santos, em 15.09.20

Paulo Fernandes, numa discussão sobre fogos no Soajo (e, mais genericamente, nas serras do Parque Nacional, ou, mais genericamente ainda, nas serras de Portugal): "Abandonar o pastoreio e as queimas associadas significa acabar com o mosaico de recorrências do fogo e passar a ter nas montanhas do norte os incêndios que temos no pinhal interior e na serra algarvia (ou equivalentes, porque a orografia é demasiado quebrada para ter incêndios tão grandes)".

Traduzido em miúdos, ou temos muitos fogos, menos intensos e em mosaico ao longo dos anos, ou temos menos fogos, mais intensos e extensos.

O primeiro padrão de fogo dificulta a recuperação das matas autóctones, visto que os carvalhos, embora bastante adaptados ao fogo, precisam de intervalos seguramente maiores que quatro anos, entre fogos, para que os carvalhinhos novos não morram com o fogo.

O segundo padrão de fogo é o que conhecemos do actual fogo de Proença-a-Nova e Oleiros, mas também dos fogos de 2017 e 2003, nos xistos centrais, ou 2004 no Caldeirão, ou 2016 na serra da Freita, ou Monchique, em vários anos.

O primeiro padrão de fogo permite alguma produção económica, quer porque os rebanhos produzem riqueza, quer porque é mais fácil a um proprietário defender-se isoladamente de fogos menos intensos e com menor continuidade de combustíveis. E, de maneira geral, não provoca perdas sociais tão elevadas, em mortes, infraestrutras e casas ardidas.

O segundo padrão de fogo provoca tragédias cíclicas, com intervalos em torno dos 12 a 15 anos, com mortes, casas e infraestruturas ardidas e grande destruição em mega operações, inevitavelmente ineficientes, de protecção civil.

Perante estes factos, a sociedade divide-se.

Há os utópicos - o que é preciso é esmagar a actividade viral, desculpem, a actividade do fogo, prendendo incendiários, mesmo que a maior parte da área ardida não tenha nenhuma relação com o fogo posto, ensinando as pessoas a comportar-se como deve ser, mesmo que 1 a 2% das ignições sejam responsáveis por 90% da área ardida, equipando e treinando o sistema de combate para a detecção precoce e a supressão de qualquer início de incêndio, mesmo que isso potencie as condições para as tais tragédias cíclicas, gastando rios de dinheiro a procurar alterar a estrutura de propriedade, mesmo que o problema seja a competitividade da actividade, fracamente ligada à estrutura da propriedade e fortemente dependente dos mercados, afundando recursos em mudar os povoamentos de pinheiro e eucalipto em carvalhais, mesmo que os carvalhais ardam como o resto e o fogo seja comandado pelos combustíveis finos e não pelas espécies de árvores que lá estão.

E há os pragmáticos - se o primeiro padrão tem problemas mas é uma base de partida que demonstra algumas vantagens, e se o segundo padrão tem mais desvantagens que vantagens e mais dificuldade de evolução porque destroi o capital necessário à sua transformação, vamos lá olhar para o primeiro padrão de fogo e ver como podemos gerir a paisagem no sentido de optimizar os seus benefícios e minimizar as suas desvantagens.

Nós, os pragmáticos, temos a generalidade da ciência (a ciência, felizmente, não é monolítica) e do conhecimento do nosso lado.

Eles, os utópicos, controlam o dinheiro e os recursos.

Resultado final: estamos feitos, não apenas nós, os pragmáticos, mas também os agnósticos que em Oleiros e Proença-a-Nova se viram nestes dias em palpos de aranha para prevalecer.



7 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 15.09.2020 às 10:28

Santa ingenuidade...claro que tem de ser a segunda opção, caso contrário como iamos comprar Kamovs e outros que tal.....

https://expresso.pt/politica/2017-07-13-A-heranca-do-ministro-Costa



Sem imagem de perfil

De Anónimo a 15.09.2020 às 11:45


"...Nós, os pragmáticos, temos a generalidade da ciência (a ciência, felizmente, não é monolítica) e do conhecimento do nosso lado. Eles, os utópicos, controlam o dinheiro e os recursos....".

Os partidos, o poder político hiper-centralizado, prefere e  negoceia com quem?. Óbviamente que os "utópico", cientistas ou não, todos a mexer nos dinheiros e que têm muitos votantes por toda a infindável industria do apagar fogos. (Pa)ciência.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 16.09.2020 às 23:40

A maior parte da área ardida não tem relação com o fogo posto?!? A maior parte da área ardida nem sequer tem causa atribuída! 
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 16.09.2020 às 23:42

Se os rebanhos produzem riqueza, porque é que os abandonam?


https://www.tvi24.iol.pt/amp/sociedade/chamusca/rebanho-abandonado-morreu-a-fome-e-a-sede
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 16.09.2020 às 23:46

Quando diz que tem a generalidade da ciência do seu lado, refere-se a avençados das papeleiras como o auto-intitulado guru do fogo Paulo Fernandes?
Imagem de perfil

De henrique pereira dos santos a 17.09.2020 às 10:45

O seu comentário é difamatório. E, por cima disso, anónimo.
Só pessoas sem a menor sobra de espinha usam a difamação anonimamente.
A senhora ou o senhor é simplesmente uma canalha ou um canalha.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 18.09.2020 às 20:10

Boa tarde, 


Os fogos em Portugal acontecem naturalmente (devido a fenómenos climatéricos ou químicos) ou devido à mão humana? 

Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Albino Manuel

    Este idiota apresentou-se primeiro como ambientali...

  • Anónimo

    princípios só no começo do ano

  • Anónimo

    Parece que em Liège ouviram o nosso Henrique Perei...

  • pitosga

    João Távora,Leia isto: El Vaticano dio a Afineevsk...

  • João-Afonso Machado

    O OE é uma bela representação tragico-cómica. Vai ...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2008
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2007
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D
    183. 2006
    184. J
    185. F
    186. M
    187. A
    188. M
    189. J
    190. J
    191. A
    192. S
    193. O
    194. N
    195. D