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O rápido aproveitamento político dos inimigos do eucalitpto que está a ser feito é tanto mais irracional quando, a terem sucesso na campanha desencadeada, o resultado será mais eucalipto e pior gestão da produção do eucalipto e do território.
Na verdade o eucalipto não passa de um espantalho nesta discussão sendo usado por demagogos politicamente empenhados, e aceite por uma enorme quantidade de bem intencionados que estão convencidos de que se, num piscar de olhos, todo o eucalipto do país fosse erradicado, a área que hoje ocupa se transformava, miraculosamente, em frondosos carvalhais maduros.
Por isso uma das linhas de argumentação que tem sido usada é a desvalorização do que hoje se sabe, a partir da investigação científica, sobre a relação entre a produção de eucalipto e a conservação do solo, da água e da biodiversidade: como em quase tudo, os efeitos (positivos ou negativos) da produção de eucalipto sobre esses factores, tal como a sua relação com o fogo, depende essencialmente dos modelos de gestão adoptados, e consequentes práticas silvícolas, e não da espécie em si.
Na falta de argumentos sólidos fornecidos pela investigação científica (é tristemente ridículo o esforço de João "Lysenko" Camargo listar uma longa séria de papers científicos que supostamente dariam suporte ao que diz e ler as reacções dos autores de algumas das referências mais importantes dessa lista tentando explicar-lhe que teria sido útil ler antes o seu conteúdo, para verificar que dizem o contrário do que pretende João "Lysenko" Camargo) a técnica, velha e relha, é dizer que os investigadores são avençados das celuloses. Este assunto não merece mais que a curta resposta de José Miguel Cardoso Pereira (um dos visados) lhe deu: "Avençada seria a senhora sua mãe".
O que me interessa são as legiões de bem intencionados que, furiosos com a heterodoxia sobre eucaliptos vinda do campo da conservação (eu, por exemplo), inventam uma suposta guerra entre os que defendem os eucaliptos (ou seja, os interesse privados) e os que defendem os carvalhais (ou seja, o bem comum).
Por mim estão convidados a visitar os terrenos em que se preparam carvalhais para o futuro, também com o meu empenho directo, e estou muito interessado em conhecer os carvalhais concretos geridos por muitos dos que pretendem que têm uma posição mais favorável aos carvalhais maduros que eu.
O essencial, no entanto, é um erro estratégico: enquanto pressionam o Estado a adoptar uma política de repressão ao eucalipto com prejuízo da economia e da capacidade de gestão do território, abrem espaço a que ninguém esteja a fazer três perguntas concretas aos responsáveis pelas decisões do Estado:
1) Por que razão, havendo milhões de euros disponíveis para o mundo rural, o Estado dá prioridade ao apoio à produção e ao financiamento do Estado, desprezando a oportunidade de usar esses dinheiros na remuneração de serviços de ecossistema (e o mesmo em relação ao POSEUR, aos PO regionais, etc.)?
2) Por que razão, sendo o Estado o gestor do Fundo Florestal Permanente, o afecta prioritariamente ao financiamento do próprio Estado e ao combate aos fogos, em vez de o afectar prioritariamente ao pagamento de serviços de ecossistema por parte dos produtores florestais, contribuindo para equilibrar de forma socialmente mais útil o retorno que é possível obter de diferentes usos do solo, em especial daqueles que prestam serviços de ecossistema que o mercado tem dificuldade em remunerar?
3) Por que razão, sendo o Estado o gestor do Fundo Ambiental, o afecta ao financiamento do próprio Estado e, pior ainda, a grupos de interesse como os organizadores de festivais de música, em vez de o usar para pagar serviços de ecossistema efectivamente produzidos?
A guerra não é entre defensores de eucalipto e defensores do bem comum, a guerra é entre a introdução de racionalidade na decisão de políticas públicas e o uso de espantalhos como cortinas de fumo para desviar as atenções da real captura do Estado por interesses privados, sejam eles os interesses das celuloses, dos bombeiros, dos organizadores de festivais de música, das associações florestais ou outros quaisquer.
A guerra do eucalipto tem apenas servido os interesses políticos de demagogos e a manutenção de posições de favor na afectação de recursos do Estado (isto é, dos contribuintes).
Como defesa do bem comum, convenhamos que é muito pouco útil.
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