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A generalidade dos media portugueses, com as televisões à cabeça -- e, dentro destas, a Sic na vanguarda -- não produz hoje informação. O que produz é propaganda, omissão e desinformação, ou seja, o fruto do trabalho dos activistas, serventes e dos pobres diabos sem deontologia nem espinha que, aparentemente, poluem as redacções. Chamemos-lhe, abreviadamente, «a clique».

Este tipo de intoxicação tem já episódios antigos. Como o de Reagan, um mero «cowboy» de filmes B, que, inconvenientemente, derrubou o império soviético e mudou o mundo; ou do segundo Bush, ignorante por se referir aos gregos como «grecians», palavra que os ignorantes desconheciam existir em inglês, e ser o equivalente do nosso «helénicos». Ou talvez de Kohl, um aventureiro que unificou a Alemanha (coisa que nenhum homem de esquerda faria). Mas estes eram apenas episódios. A intoxicação é, agora, total e generalizada.

É por isto que, a cada vez que, perante a baixa de tiragens, ou audiências, ou vendas, leio ou oiço os porta-vozes das aflições dos nossos media clamar por ajudas e subsídios, eu me sinto extremamente confortado. Por enquanto, ainda não vivemos num país inteiramente socialista; por enquanto, os media ainda dependem da opinião dos consumidores.

É que a maioria dos que ainda consomem o produto da generalidade dos media portugueses, deixaria de consumir se soubesse os erros que a clique divulga, os factos relevantes que a clique ignora, e as verdades que a clique propositadamente oculta.

Infelizmente para a clique dos media, qualquer indivíduo que goste de estar informado tem cada vez maior facilidade em obter informação fidedigna em blogues, sites noticiosos e imprensa internacional, onde dispõe de dados, números, factos relevantes e relatos verídicos, ou seja, aquilo que a clique chama «fake news».

Dois casos apenas. Um amor de estimação e um ódio de estimação (um novo), respectivamente, da clique.

Diz-nos a clique que a activista sueca do ramo de negócio da ecologia, a Greta, é heróica, impoluta e iluminada, a versão secular de uma santa. Tanto que, para evitar poluir o ambiente, viajou de barco para uma conferência em Nova Iorque. A tsf, com total destemor do ridículo, disse até que ela viajava num «iate ecológico». Foi pena não nos terem informado que a rapariguinha e o pai regressarão à Europa de avião; e que quatro indivíduos viajarão agora de avião até aos EUA para trazerem o iate de volta ao Mónaco e às mãos do proprietário, filho da princesa Carolina. Seria evidentemente excessivo pedir à clique que explicasse se é este o futuro que deseja: o dos pobres e remediados quietos em casa, enquanto os ricos e os arautos de causas trabalham ou fazem férias de iate ou fragata, sem o incómodo das multidões e do convívio com a maralha.

O que a clique seguramente deveria ter informado, é que santa Greta padece da síndrome de Asperger, e que, como facilmente aprenderia no site da CUF (são privados, são um horror!), as manifestações mais habituais desse problema são, nomeadamente, «conversas longas mas quase em monólogo, sem perceção se o ouvinte deseja falar ou mudar de assunto (...) obsessão por um ou dois temas muito específicos, como estatísticas de desporto, horários de comboios, meteorologia; incapacidade de compreender ou mostrar empatia em relação aos sentimentos dos outros; (...) atitude inflexível face à mudança».

Já sabíamos que Trump é incompetente politicamente, apesar de ter derrotado santa Hillary, e economicamente apesar de colocar a economia a crescer mais de 3%, o rendimento familiar em alta, os impostos em baixa, e o emprego branco, negro e «latino» em alta recorde, e de ter renegociado com grande vantagem tratados com o México e o Canadá. Trump é, além disso, segundo a clique, um criminoso que conduz o mundo à beira da guerra ao destratar a Coreia do Norte, apesar de ter levado a Coreia do Norte à mesa de negociações, que continuam, e ter sido o primeiro líder mundial a afrontar os abusos monetários e comerciais da China. A clique também nunca contará que, caso as negociações com Pyongyang cheguem a bom termo, Trump cortará os biliões de dólares anuais de apoio à Coreia do Sul (como intenção mediata não está nada mal para um néscio).

Já sabíamos que o Brasil e o seu povo se suicidaram ao eleger Bolsonaro, em vez de mais um corrupto (que, aliás, acaba de ser detido), fruto e filho dilecto de um bando de corruptos.

Mas a clique tem agora um ódio novo, Boris Johnson. Boris Johnson é, para a clique, um ódio mais ingrato, pois tem mais política num dedo do que a clique no corpo inteiro, e mais cultura e educação em 10 g de cérebro do que a clique tem no seu cérebro colectivo (embora alguns palermas da clique se aventurem debalde a sugerir que não é assim). Mas desinformation oblige. Logo...

Logo, soubemos hoje que a decisão de Boris Johnson de «suspender o Parlamento», causou «grande polémica» e suscitou até acusações de «comportamento ditatorial».

Que se passou, de facto, e que se esquece a clique de informar?

-- que Johnson não «suspendeu o parlamento». Nos termos constitucionais pediu a suspensão da sessão parlamentar, que foi autorizada pela rainha;

- que a sessão parlamentar em curso era já a mais longa de toda a história de Inglaterra;

- que é normal a sessão parlamentar ser suspensa antes do discurso da rainha em que exporá as principais medidas do programa de um novo governo britânico (como é o caso do anúncio dos cortes de impostos, do combate ao crime, e dos grandes investimentos em infraestruturas que Johnson já anunciou). 

- que é normal a sessão parlmentar ser interrompida para férias, embora eu acrescente que nunca por um período tão longo (assim tentando eu demonstrar que não é preciso omitir o que não nos convém para discutir um ponto).

- que a senhora que classificou Johnson de «ditador de pacotilha», a senhora Sarah Wollaston, tem a grande autoridade moral de ser a mesma que em poucos meses abandonou o Partido Conservador em favor do Change UK, e depois o Change UK em favor dos Liberais Democratas, sem nunca achar que precisava de perguntar alguma coisa aos eleitores da circunscrição por que foi originalmente eleita.

O que a clique, de qualquer forma, recusa informar, é que a «polémica» de Johnson é apenas alta política: a redução do tempo de conspiração dos críticos do no-deal Brexit e dos remainers (que, de qualquer forma, já dispuseram de 3 anos); que as principais medidas do programa de governo são uma arma poderosa em caso de eleições (que Johnson quase proclama que deseja); que quanto mais crível for um Brexit sem acordo mais a UE tenderá a negociar.

O que a clique nunca informará é que uma Inglaterra livre da UE poderá negociar um tratado bilateral com os EUA que além de vantajoso, pode atirar o Tratado Intercontinental para as calendas ou para o lixo; que um Brexit sem acordo escancara uma porta que os burocatas de Bruxelas receiam ver sequer entreaberta; que sejam quais forem para a Inglaterra as consequências económicas do divórcio com a UE, as consequências económicas no continente terão neste consequências políticas (os agricultores franceses que perderem o seu principal cliente ainda votarão Macron? Os polacos e os húngaros sob sanções da UE não terão novas ideias? Os partidos entre eurocéticos e euroalérgicos de França, Alemanha, Itália e países nórdicos não terão novo alento?)

Tudo isto seria mais esclarecedor, mais complexo, mais informativo? Pois seria. Mas a clique não quer esclarecimento, nem complexidade, nem informação. A clique quer apenas uma vulgata e uma agenda. Elas resumem-se na velha descrição certeira: «a filosofia do falhanço, o credo da ignorância, e o evangelho da inveja».



16 comentários

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De Anónimo a 28.08.2019 às 18:00

não compro jornais há 30 anos
passo sem som pelas tvs do rectângulo
lamento que a comunicação social-fascista ainda não tenha falido 
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De Anónimo a 28.08.2019 às 18:26


Excelente texto J.M. da Cruz. Os exemplos que coligiu demonstam que a pobreza moral da comunicação social, em Portugal, vem de longe ... e esta só se pode queixar dela mesma.
Nas TVs aparecem Professores, ex-Ministros e cabotinos diversos, a perorarem as mais inconcebíveis "fake news", sem o mais elementar contraditório.


Os pobres dos apresentadores antes de cada sessão de aldrabices deveriam afirmar, alto e bom som, que os textos que vão ler, e os comentários que se seguem, são responsabilidade dos seus autores.

Em última análise são responsabilidade da administração da estação, sendo que essa está, mais clara ou menos claramente, intervensionada.
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De Anónimo a 28.08.2019 às 19:39

A clique é a clique, mentirosa, sem espinha dorsal, 'esquerdoide'. A clique das redacções dos media produz a cultura marxista gramsciana. Este é o seu propósito, o seu proselitismo... 
A clique não tem pingo de vergonha e deve achar que os portugueses são todos uns totós ou un imbecis que enngolem todas as suas mentiras, falácias, deturpações e, sobretudo, a lavagem ao cérebro com que de forma continuada e asquerosa acham que vão conseguir erradicar da face da Terra a Direita e todos quantos têm a ousadia de pensar a agir de maneira diferente da clique.
A clique, esta clique, desavergonhada, mentirosa e parasita, não tem emenda!
Está-lhe na massa do sangue...
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De Anónimo a 28.08.2019 às 20:16


José Mendonça da Cruz e Anónimo a 28.08.2019 às 18:26


O original é excelente, conforme o dito anónimo confere.


O portuga é estúpido. Vai-se lixar, e bem...
Infelizmente, nós também.

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De Anónimo a 29.08.2019 às 00:58

Para ler e pensar.
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De Anónimo a 29.08.2019 às 11:43

Um "post" que tem categoria de Serviço Público.
Merecia (merece) a maior difusão possível, face à autêntica prostituição comunicacional que , por cá, passa por informação.
Limita-se a ser "desinformação interessada".


jsp
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De marina a 29.08.2019 às 11:50

Muito obrigada pela luz sobre tudo isto.
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De Anónimo a 29.08.2019 às 12:49

Resta acrescentar que o iate ecológico é todo construído em fibra de carbono e elaboradas resinas químicas, isto é, basicamente é um objecto de plástico (shock, horror!)


PS: já agora, não que isso faça diferença para o argumento, mas por uma questão de educação do povo (neste caso, tu :), também não é propriamente um iate, é um barco puramente de regata (iate implica algum tipo de lazer e lazeira)
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De José Mendonça da Cruz a 29.08.2019 às 16:08

Obrigado, simpático educador da classe escriturária
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De Frederico Pinheiro de Melo a 29.08.2019 às 22:57

Reparo agora que comentei como anónimo, que não era a intenção (nabices de velho info-sofrível). Abraço
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De Anónimo a 29.08.2019 às 16:41

Concordo com tudo neste post excepto um ponto. A parte em que afirma que os media em Portugal dependem da opinião dos consumidores. em Portugal subsidiamos através da taxa audiovisual um valor anual de centenas de milhões de euros. Com o dinheiro que gastam os portugueses deveriam ter acesso à informação jornalística de altíssima qualidade que apresentasse os vários pontos de vistas de forma aprofundada. Infelizmente (e apesar de eu reconhecer que a informação da RTP não é completamente enviesada) a qualidade de informação dos media públicos não tem a isenção nem a profundidade correspondentes à fortuna paga pelos portugueses anualmente
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De marina malheiro a 29.08.2019 às 19:12

Excelente visão do pseudo-jornalismo atual. 

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