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"Surpreende-me ver-te a defender a política do medo, orientada para a resolução de emergências ambientais", disse-me um amigo em resposta ao facto de eu defender que "nós estamos a caminho de uma tragédia dentro uns seis anos, mais anos, menos ano, portanto acho extraordinário que perante a urgência de medidas para mitigar essa tragédia (não é para a evitar, é para a mitigar), estejamos a discutir processos complicados, contingentes e morosos, cujos resultados são incertos, em vez de aplicar as medidas possíveis com a informação que existe".
Inicialmente estranhei que se dissesse que eu estava a defender uma política do medo para obter ganhos de causa na minha defesa de que é preciso pagar a gestão de biomassa fina se queremos mitigar os problemas com o fogo que teremos num horizonte próximo, muito provavelmente menor que dez anos, porque não me passou pela cabeça que alguém interprete o que tenho escrito como a manipulação emocional do que se prevê que seja a evolução do padrão de fogo.
A explicação veio depois "Não tenho dúvidas de que estamos numa fase de emergência climática, manifestada pelo aumento da frequência, intensidade e duração de eventos meteorológicos extremos. Emergências exigem decisões firmes, ainda que, idealmente, bem ponderadas. O meu comentário surge porque tens sido um dos críticos das posições públicas fundamentadas nessa emergência ... Tenho em minha posse um texto teu, que acabei de reler, no qual argumentas veementemente contra a utilidade das declarações de emergência ambiental, mencionando, entre outras coisas, que elas inspiram as pessoas no sentido errado".
Esta equivalência entre o que digo sobre a futura evolução do padrão de fogo, e as propostas que defendo para mitigar os seus efeitos sociais (criar um mercado público de gestão da biomassa fina com o dinheiro dos contribuintes que beneficiariam com a gestão do abandono de gestão da paisagem crescente) e os discursos apocalípticos sobre alterações climáticas, de que derivam as soluções cesaristas, centralizadas e "firmes" que são defendidas, é, para mim, surpreendente.
Em primeiro lugar, em lado nenhum do que eu digo se consegue ler um apelo às emoções das pessoas para que elas se mobilizem para defender o que eu defendo, eu limito-me a apresentar, tão racionalmente quanto consigo, o que é a minha visão da evolução do padrão do fogo, assente em "forças modeladoras" bem definidas e sobre as quais não existe qualquer controvérsia.
A controvérsia que existe é entre os que acreditam que o abandono resulta de mercados imperfeitos cujas regras inibem o potencial económico da gestão de biomassa fina, a esmagadora maioria, e os poucos que, como eu, dizem que não há consumidores que paguem o suficiente para que os mercados potenciais e os que existem possam gerir biomassa fina na escala considerada necessária por quase toda a gente. Eu procuro lidar com essa controvérsia da forma mais informada e racional possível, nunca recorrendo a discursos do tipo "how dare you?" ou a fotografias com água pelos joelhos.
Em segundo lugar, ao contrário dos que defendem que só uma revolução social global e profunda, que altere os nossos modos de vida, nos pode salvar de uma alteração violenta, não controlada e não planeada, socialmente desastrosa, eu limito-me a dizer que, como sociedade, temos a opção de lidar com uma tragédia cíclica com intervalos entre dez e quinze anos, que nos custa os olhos da cara, ou a opção de criar um mercado público que nos sai mais barato.
Em terceiro e, não menos importante, ao contrário dos que entendem que só um governo centralizado e forte consegue impor as medidas sociais e económicas necessária, necessariamente de forma coerciva, eu defendo que os mercados são muito mais eficientes a lidar com a incerteza, para além de terem muito mais poder que os Estados, pelo que as intervenções públicas devem desenhar-se pela definição de incentivos que influenciem esses mercados, mantendo a liberdade dos seus operadores, em detrimento do desejo feroz de "domesticar os mercados", para usar a expressão de Capoulas Santos de que gosto tanto.
Sim, é verdade que acho que os discursos de medo associados a emergências ambientais são errados (frequentemente baseiam-se em faltas de rigor homéricas, quando não mesmo em grosseiras manipulação da informação existente), é verdade que acho que esses discursos influenciam erradamente muita gente a defender soluções sub-óptimas (ou por irrealistas, ou por ineficientes), mas não há qualquer ponto de contacto entre esses discursos e o que digo sobre a gestão do fogo: nós estamos numa situação em que o mais natural é que ocorra, num período menor que dez anos, uma tragédia grande, portanto deveríamos estar concentrados no desenho de soluções que, no mais curto espaço de tempo, conseguissem minimizar os efeitos negativos dessa tragédia.
Se as elites, os decisores políticos, os agentes do mercado que ainda existe, preferem investir em discussões que, mesmo que funcionem e sejam adequadas, nunca darão qualquer resultado relevante em períodos de menos de vinte anos (como no caso das soluções das alterações de contexto que visam tornar mais eficientes os mercados potenciais ou que existem), eu limito-me a esperar que eu esteja errado e eles tenham razão, que esse seja um caminho melhor e mais eficiente que aquele que eu defendo.
Seguramente não tenho a menor intenção de assustar ninguém continuando a dizer que esse caminho vai dar asneira em menos de dez anos.
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Nada se salva, mas Corina ao menos, sabe o que faz...
A Máquina do PS tem sem dúvida, uma força tremenda...
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diplomata ou ''o que vai só até 1/2 da ponte'' tem...
gostava de saber o que acontece às ''merdalhas'' a...