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O desnorte da União Europeia

por Maria Teixeira Alves, em 17.02.16

Os "sábios" da União Europeia, depois do "sucesso" da aplicação do bail-in (uso do dinheiro dos clientes) aos bancos, não acham nada melhor do que aplicar esta regra à dívida soberana. Se nos bancos já cria os problemas que cria (os investidores privados perderem os seus investimentos para salvar o capital do banco), imagine-se o que será se os privados com Obrigações do Tesouro, ou outros instrumentos de dívida do Estado, forem chamados a perdoar a dívida em caso de "falência" do país. 

Vamos por partes. Os "sábios", que na verdade são alemães, querem pôr os credores privados a suportar as reestruturações de dívida soberana nos estados-membros, em caso de risco de incumprimento. Em caso de crise de financiamento a condição prévia para o recurso ao Mecanismo Europeu de Estabilidade é uma análise prévia à sustentabilidade da dívida. Mas no caso de dúvida sobre essa sustentabilidade "os sábios" (e que sábios!) propõem como primeira opção uma extensão das maturidades da dívida que é detida pelos credores oficiais (por ex: FMI, BCE, CE). Por exemplo num caso como o grego, um próximo resgate poderá passar por extensão das maturidades de pagamento dos empréstimos concedidos por entidades oficiais.

Mas em situação de sobreendividamento, seria, se as propostas forem implementadas, aplicado uma redução nominal do valor da dívida em mão dos privados, um hair-cut da dívida, a par com um programa de ajustamento macroeconómico supervisionado pelo MEE. Esse programa vai obrigar o país "resgatado"  a consolidar as contas públicas e a implementar reformas na legislação laboral, e outras.

Os alemães não se ficam por aqui. Para evitar a elevada exposição dos bancos a esta dívida soberana (que se aproxima cada vez mais da categoria de bomba-relógio), os mesmos "sábios" defendem a imposição de limites para os bancos nacionais comprarem dívida pública doméstica.

Antevêem-se grandes alterações à União Europeia. Poderão os países periféricos continuar a sobreviver com estas regras da União Europeia? Poderão os países periféricos evitar um short de obrigações do tesouro para os credores evitarem serem apanhados num bail-in para resgatar o país? É que se esta regra chegar a ser implementada os países excessivamente endividados ficam à mercê de um ataque especulativo. Para além de poderem mesmo sofrer de falta de investidores privados para a sua dívida.

 



9 comentários

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De Anónimo a 17.02.2016 às 09:38


Quem ainda não percebeu que a Alemanha está a começar a alijar a carga (países periféricos endividados) que é um peso para o centro da Europa, vai ser apanhado na curva. Os portugueses que se ponham a jeito que vão ver o que acontece...
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De Luís Lavoura a 17.02.2016 às 09:41

Eu não vejo nada de extraordinário nestas novas regras. A mim, elas parecem-me perfeitamente normais e adequadas.
Se uma pessoa compra obrigações de uma qualquer empresa, seja ela o Futebol Clube do Porto ou a Mota-Engil ou a Bial (para falar de alguns casos concretos de empresas portuguesas que têm vendido obrigações a investidores), sabe perfeitamente que está exposto a um default por parte dessa empresa. Ou seja, a empresa pode ver-se incapaz de pagar de volta ou juros e/ou o principal dessas obrigações.
Com os Estados deve ser a mesmíssima coisa. Quem compra obrigações deles deve estar exposto à sua falência.
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De Joaquim Amado Lopes a 17.02.2016 às 11:50

Incluíndo o Fundo de Estabilização da Segurança Social.
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De CsA a 17.02.2016 às 10:22

É mais justo serem todos os contribuintes chamados a contribuir (bail-out) ?
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De Luís Lavoura a 17.02.2016 às 11:16

"se esta regra chegar a ser implementada os países excessivamente endividados ficam à mercê de um ataque especulativo. Para além de poderem mesmo sofrer de falta de investidores privados para a sua dívida."

Evidentemente que sim. E então? Também uma qualquer empresa, quando coloca obrigações no mercado, corre o risco de haver falta de investidores que as queiram comprar. Com um país deve passar-se exatamente o mesmo. Aliás, passa-se mesmo! Já se passou com Portugal e com a Grécia, etc. Esses países pediram empréstimos à tróica precisamente porque tinham "falta de investidores privados para a sua dívida."
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De JP a 17.02.2016 às 11:55

O resultado das conversações, em curso, Reino Unido (sintonizado arranjinho dos poderosos EUA) vs UE e EZ (descarado arranjinho dos sábios alemães) será importante ... para todos.
Revolução ou evolução?. Estrondo ou suspiro?.
Em qualquer caso o mexilhão é que vai continuar a pagar.
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De Luís Lavoura a 17.02.2016 às 12:21

Uma pergunta à autora do post: trabalha nalgum banco?
(Uma declaração de interesses nunca fica mal.)
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De ali kath a 17.02.2016 às 12:21

interpretação psiquiátrica do risco.
psiquiatra desenha segmento de recta (risco)
o cliente pensa na representação duma mulher nua
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De JP Ribeiro a 21.02.2016 às 18:52

A pergunta que me consome é a seguinte: e depois? que mal tem isso?


pelo menos os estados irresponsáveis (e os bancos que os sustentam) estarão avisados dos riscos em que incorrem. Não é isso mesmo o que se pretende, tornar os governos e os povos mais responsáveis, sem gastarem à tripa forra sabendo que alguém do BCE/FMI/UE virá logo salvar a situação? 

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