Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




O crucifixo na sala de aula

por João Távora, em 10.02.19

crux1.jpg

"A fé dos outros não me diz respeito; aquilo em que acredito ou não acredito já é um trabalho a tempo inteiro. Mas admito que me faz alguma impressão a total indiferença religiosa. Não a indiferença à fé ou às igrejas, mas ao sagrado enquanto facto antropológico e alegoria do humano. Entendo, e às vezes acompanho, as críticas às intolerâncias e iniquidades das religiões organizadas, incluindo as cristãs, mas sempre achei bizarro que alguém declare, por exemplo, que nunca leu a Bíblia porque é ateu, como se a Bíblia fosse imprestável para incréus.

Uma refutação veemente desse tipo de recusas encontrei-a num artigo que a escritora italiana Natalia Ginzburg (1916-1991) publicou no jornal comunista “l’Unità” a 22 de Março de 1988. Nascida numa família laica de origens judaicas, filiada no PCI, Ginzburg interveio inesperadamente na polémica sobre os crucifixos nas escolas. Não é a questão concreta que aqui me interessa, até porque defendo que num Estado não-confessional os edifícios públicos não devem ter símbolos religiosos; mas impressionou-me a valorização simbólica que a escritora faz da cruz de Cristo, que ela não interpreta exclusivamente como um artefacto religioso. Admitindo que, se fosse professora, preferia ter a cruz na sala de aula, Ginzburg assevera que “o crucifixo não gera nenhuma discriminação” E que é, bem pelo contrário, a imagem de uma revolução, a “revolução cristã que espalhou pelo mundo a ideia de igualdade entre homens”. E, então, pergunta: vamos negar que essa ideia mudou o mundo? E vamos negar que é justo celebrá-la?

Pode contrapor-se que a cruz simboliza para muita gente alguns aspectos do cristianismo bem menos benévolos. Mas o argumento do artigo é que o crucifixo é igualmente um símbolo de todo o sofrimento humano. Os pregos e a coroa de espinhos e a cruz evocam a dor, a solidão, a morte, males aos quais ninguém está imune. Quem é aquele condenado na cruz? Filho de Deus para uns, judeu perseguido para outros, é para tantos a imagem viva de um homem martirizado pelo amor a Deus e ao próximo. E esta ideia do “próximo” não pode ser indiferente nem a um ateu, muito menos a um progressista. Jesus na cruz representa todos aqueles que sofreram e morreram pelos outros, escreve Ginzburg, e esclarece logo que não vê escândalo nenhum nessa afirmação: “Porque antes de Cristo ninguém tinha dito que todos os homens são iguais, e irmãos; todos, ricos e pobres, crentes e não-crentes, judeus e não-judeus, negros e brancos; e ninguém tinha dito que no centro da nossa existência deve estar a solidariedade entre os homens. E ser vendido, traído, martirizado e morto por causa da fé é uma coisa que pode acontecer a todos. Acho que é bom que os rapazes, as crianças, aprendam isso nos bancos da escola”.

A autora de “Léxico Familiar” [livro recenseado nesta edição] diz que olhamos para o crucifixo como coisa muda que está numa parede ou faz parte da parede, mas que o crucifixo não é mudo nem inócuo: é um símbolo que traz consigo palavras. Palavras cristãs mas que há muito fazem parte da consciência colectiva, palavras como “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados”. Pergunta Ginzburg: “Como e onde serão saciados? No Céu, dizem os crentes. Enquanto os outros não sabem nem quando nem onde, mas estas palavras fazem com que sintam, sabe-se lá porquê, a fome e a sede de justiça de forma mais severa, mais ardente e mais forte”."

 

Pedro Mexia na Revista do Expresso desta semana

Autoria e outros dados (tags, etc)



10 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 10.02.2019 às 19:18


João Távora,
Um post muito bem arquitectado.
Muito bem 'metida' a referência a Natalia Ginzburg.
Felicito-o
ea
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 10.02.2019 às 19:21


Não interessa se o artigo é da autoria de Mexia. Numa página do espesso só para assinantes,
João Távora, o senhor divulgou-a.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 11.02.2019 às 10:14

Se isto é assim, pode configurar uma violação da lei dos direitos de autor. O João Távora pode ser processado por isso.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 11.02.2019 às 09:22

admito que me faz alguma impressão a total indiferença religiosa

Pode-lhe fazer impressão, mas é a minha posição: total indiferença perante a ideia de Deus ou deuses. É coisa em que não penso um momento durante a minha vida.

sempre achei bizarro que alguém declare, por exemplo, que nunca leu a Bíblia porque é ateu, como se a Bíblia fosse imprestável para incréus

Eu nunca li senão pequenos excertos da Bíblia, mas conheço pessoas que leram livros inteiros e me dizem que ela é imprestável para toda e qualquer pessoa. Conheço aliás uma pessoa que, por ser judia, foi educada a ler a Bíblia, e que logo abandonou o judaísmo porque, disse-me, cenas aparecem na Bíblia que são piores do que aquilo que Hitler fez aos judeus.
Sem imagem de perfil

De EMS a 11.02.2019 às 14:35

Por acaso sou daqueles incréus (olhem só a maneira fraterna como certas pessoas nos tratam) que já leram a bíblia e posso dizer que se trata de um livro tão mau que se fosse lido a serio por mais gente teríamos mais ateus neste mundo.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 11.02.2019 às 15:11

Em rigor, a Bíblia são diversos livros, e possivelmente alguns, ou até boa parte deles, não serão maus. Mas alguns, no Antigo Testamento, são completamente horríveis, de tal modo nojentos que quem os leia não pode deixar de deitar fora qualquer religião que se sustente neles. Por outro lado, o Novo Testamento tem o grave defeito de não ser credível, uma vez que todos os estudos sobre ele chegaram invariavelmente à conclusão de que tem partes adulteradas, outras mal traduzidas, etc, de tal forma que uma pessoa não sabe bem que uso dar àquilo.
Sem imagem de perfil

De zazie a 11.02.2019 às 09:33

Muito bom e boa ideia em divulgar o texto do Pedro Mexia
Sem imagem de perfil

De Francisco a 11.02.2019 às 10:02


É uma perspectiva bastante interessante, mesmo para quem não acredita o crucifixo diz muito e pode de facto ensinar muita coisa.

Partilho só uma tristeza em que o problema não é retirar-se o crucifixo das salas de aula mas sim tê-lo tirado do Altar e da capela mortuária.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 11.02.2019 às 15:16

Onde a Natália Ginzburg vê um símbolo do sofrimento humano, eu vejo uma imagem horrível de tortura, maldade e sadismo, certamente imprópria para ser exibida a crianças em salas de aula. A crucificação era, como é sabido, uma forma particularmente sádica e cruel de execução, que os romanos reservavam estritamente para os sediciosos, os rebeldes - como Jesus, que terá tentado sublevar os judeus contra o poder de Roma. Exibir uma pessoa a sofrer aquele suplício é tudo menos apropriado para uma sala de aula.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 12.02.2019 às 10:29

Há certa gente que nunca se deveria dar ao atrevimento de se pronunciar sobre  religião, ou sobre a Bíblia e, muito menos sobre o significado do crucifixo...
Muito menos escrever cronicas  em jornais sobre estes temas. Resulta  ridículo...


Comentar post



Corta-fitas

Inaugurações, implosões, panegíricos e vitupérios.

Contacte-nos: bloguecortafitas(arroba)gmail.com




Notícias

A Batalha
D. Notícias
D. Económico
Expresso
iOnline
J. Negócios
TVI24
JornalEconómico
Global
Público
SIC-Notícias
TSF
Observador

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Anónimo

    De Anónimo a 15.10.2019 às 14:11"vai dizer no 'par...

  • Anónimo

    O Homem diz coisas certas. Realidades.Até ganhou e...

  • Vortex

    não escrevo em russo o correspondente usado no tem...

  • Vortex

    inicio de 50 conheci-o no falecido CADCa integrali...

  • Anónimo

    vai dizer no 'paralamento' o que 'Mafoma não disse...


Links

Muito nossos

  •  
  •  
  • Outros blogs

  •  
  • Links úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2008
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2007
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D
    170. 2006
    171. J
    172. F
    173. M
    174. A
    175. M
    176. J
    177. J
    178. A
    179. S
    180. O
    181. N
    182. D