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O chão comum

por henrique pereira dos santos, em 18.07.25

Escrevi algures:

"Israel faz abrigos antiaéreos para defender os seus civis, esperando que os seus militares morram para os defender, o Hamas constrói túneis para proteger os seus militares, esperando que os civis morram para lhes dar cobertura.

Quem, perante isto, não consegue fazer distinções morais, é porque tem a sua bússola moral avariada".

Em resposta a isto, que na primeira parte é puramente factual, e na segunda é uma conclusão moral que me parece bastante razoável e moderada, uma pessoa com quem tenho divergências ideológicas tão grandes como o respeito que tenho pela sua integridade moral (tanto quanto nos é possível conhecer a integridade moral de terceiros), respondeu-me educadamente, mas muito ofendida.

Resolvi usar partes dessa resposta para realçar a ideia, que repito muitas vezes (desde que a li no discurso do método, de Descartes), de que o bom senso ou razão é a coisa mais bem distribuída no mundo, e se temos ideias diferentes não é por termos mais bom senso ou razão que outros, mas por considerarmos informação diferente ou olharmos de forma diferente para a mesma informação. 

"Bússola moral avariada ... tem quem faz uma comparação tão estapafúrdia".

Grande parte da forma sectária como olhamos para o que os outros dizem ou escrevem decorre do facto de querermos situar a discussão no termos que achamos justos, em vez de considerarmos que a opinião dos outros é definida nos seus próprios termos. No caso, não me parece que tenha feito uma comparação estapafúrdia, descrevi uma realidade bem concreta que define os termos morais de actuação das duas partes em conflito em Gaza.

"O que o Hamas tem feito ... nunca deveria ser usado como desculpa, por alguém honesto e defensor dos direitos humanos, para as atrocidades que Israel tem cometido"

É fácil de constatar que eu não usei nenhuma desculpa para coisa nenhuma, limitei-me a realçar o contexto moral em que actuam os dois beligerantes que se guerreiam em Gaza. E muito menos falei nas atrocidades que eventualmente Israel tem cometido em Gaza, essa é uma discussão diferente, difícil pela falta de informação, na qual se confunde muitas vezes o que é a guerra - sempre suja, violenta, letal, com injustiças frequentes, com vítimas inocentes, desumana, como são todas as guerras -, com o que são as intenções das partes em confronto.

"uma opressão e ocupação fanática, destruição de aldeias, com prisões arbitrárias e tortura, quer com o massacre que está a cometer em Gaza".

O que torna a discussão sobre a situação em Gaza difícil (tal como muitas outras discussões), é que quem contesta o que escrevi toma como certo coisas que eu não tomo como tal, no caso, eu olho para a situação e não dou como adquirido que haja mais opressão, ocupação fanática, destruição de aldeias, prisões arbitrárias, tortura e massacres que a que resulta de qualquer situação de guerra, num contexto especialmente difícil.

"Um Estado supostamente democrático que defende os seus, desumanizado e aniquilando outro povo, matando crianças à fome, pode construir bunkers e proteger os seus, mas não merece respeito nem aplauso".

Idem neste caso, em que não dou por adquirido que Israel não seja um Estado democrático, que desumanize e aniquile outro povo e mate crianças à fome.

Mais que isso, onde eu considero que as forças em confronto são o Estado de Israel e o Hamas, o que a frase que citei pressupõe é que haja um confronto entre Israel e o povo palestiniano, pressuposto para o qual não vejo a menor base objectiva. Nem o povo palestiniano está em armas, nem resiste ao exército israelita, nem tem o poder de devolver reféns ou negociar a paz, o povo palestiniano é uma vítima impotente do confronto entre o Hamas e o Estado de Israel, não é parte no conflito.

"Como é que um cristão, judeu, muçulmano ou ateu com um mínimo de sentido de humanidade não se indigna em primeiro lugar com a barbaridade que está a ser cometida pelo tal Estado que pensa nos seus"?

Esta pergunta não faz o mínimo sentido e bloqueia qualquer discussão racional sobre o assunto, na medida em pretende colocar um ónus moral em quem olha para a realidade de forma distinta, no pressuposto de que os termos da discussão que existem são únicos e estão claramente estabelecidos entre as pessoas que pretendem discutir o que se passa em Gaza.

Só que não é assim, a fundação moral da discussão deveria ficar de fora (sim, é a minha frase inicial que apela ao julgamento moral inicial), enquanto a forma como duas pessoas olham para o problema não tiver um chão minimamente comum.

Neste caso, se alguém pensa que existe um confronto entre Israel e o povo palestiniano, e outro alguém pensa que existe um confronto entre o Hamas e o Estado de Israel, sendo o povo palestiniano uma vítima impotente do confronto entre esses dois actores, a conversa torna-se especialmente difícil.

Um bom exemplo é a forma como se olha para a mortalidade de crianças em Gaza.

Para alguns, há milhares de crianças, isto é, pessoas antes da puberdade, a ser mortas em Gaza, muitas à fome, e isso provoca um sofrimento moral indizível nessas pessoas.

Para outros, como eu, sabendo que o conceito de criança vai até aos 18 anos e que a esmagadora maioria das crianças que morrem são rapazes entre os 15 e os 18 anos, indiciando que se trata de combatentes recrutados pelo Hamas, o julgamento moral é mais severo pelo facto do Hamas usar crianças soldado, que pela inevitabilidade de morrerem combatentes numa guerra, mesmo que esses combatentes, por opção do Hamas, sejam crianças, isto é, pessoas com menos de 18 anos.

Nestas duas posições não é a bússola moral que é diferente, é a informação e a forma como se olha para a informação que conduz duas pessoas moralmente sólidas a fazer julgamentos morais completamente diferentes.

Destruindo o chão comum que poderia permitir uma discussão racional de diferentes pontos de vista.


8 comentários

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De cela.e.sela a 18.07.2025 às 18:23

a guerra contra o Hamas é a única que conheço onde nada pode acontecer de mau.
mas na Ucrânia tudo pode suceder.
no séc. XX a Europa sofreu na I e IIGG, na Civil de Espanha, nos Balcãs e nada se ouviu de semelhante ao que acontece no Próximo Oriente.
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De Filipe Costa a 18.07.2025 às 18:29

Gostei da sua resposta. Sabe, eu tenho visto entrevistas com fanáticos de Harvard  e reparo que eles nem sabem onde fica Gaza, pensam que o Hamas é o governo de Gaza e recusam ver filmes ou estórias do 7 de Outubro.


Vivem numa realidade paralela e não procuram a verdade, simplesmente são fanáticos.
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De lucklucky a 18.07.2025 às 20:54


Questões á integridade moral dessa pessoa.:


Se Israel não se preocupasse com os seus civis teria dezenas de milhar de mortos pelos mais de 70000 rockets/mísseis/drones lançados pelos Palestinianos , o Heezbollah, Houthis e Irão. 
Por isso a questão para essa pessoa é porque que não considera importante que o governo do Hamas se preocupe com os Palestinianos como o governo Israelita se preocupa com o seu povo. 


Essa pessoa julga que com o Hamas pode existir Paz ou julga que teremos outra guerra?  Qual a integridade moral de ser certo outra guerra?


Não se deveria ter tomado a cidade de Mosul á ISIL?  Também um combate recente em cidade com civis e mesmo assim já muito evacuada desde a altura da sua conquista pela ISIL. https://en.wikipedia.org/wiki/Battle_of_Mosul_(2016-2017)
----------------


Uma parte disto é culpa do jornalismo activista, quase todo ele. Qual tem sido a narrativa do jornalismo sobre Gaza nesta ultima década?


Ora temos aqui um video sobre a abertura de um stand de carros de luxo em Gaza em 2023
https://www.tiktok.com/@yousefalhelou/video/7273589830578195745?lang=en


Agora comparem com o que o jornalismo nos dizia de Gaza.
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De Anonimo a 18.07.2025 às 22:43

Isto passa em Portugal?
https://www.dailywire.com/news/hamas-is-preparing-attacks-on-american-contractors-helping-distribute-aid-in-gaza
Duvido


Depois, ah e tal dúvidas, porque os números...
Não há dúvidas nenhumas, o conflito está a ser seguido minuciosamente,  a diferença é que o IDF publica números reais, enquanto que as NU e ONG martelam números já inquinados pelo Hamas. Toda a gente sabe que o Hamas recruta crianças (hábito milenar na cultura árabe), e que todos os mortos abaixo de 18 anos eram uma ameaça, e usa mulheres como escudos humanos. Essas são as tais "vítimas civis".


https://www.dailywire.com/news/every-innocent-life-lost-is-a-tragedy-netanyahus-statement-after-idf-mistakenly-hits-catholic-church


Alguma vez o Hamas pede desculpa por danos colaterais?
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De Anonimo a 19.07.2025 às 10:42

https://www.dailywire.com/news/study-shows-how-u-s-and-european-media-parrot-hamas-propaganda-present-it-as-truth
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De Anonimo a 18.07.2025 às 22:12

Nunca haverá paz com o Hamas. É uma organização militar cujo objectivo é atacar (nem digo destruir pois isso acabaria com a própria existência) Israel e os seus aliados.
O plano de Israel é arrasar Gaza (Smotrich dixit), só assim pode expurgar o Hamas da região. Os palestinianos, irão para onde os receberem (alguém pagará).
Nem Israel sabe quantos combatentes tem o Hamas, nem sabe quantos eliminou (o hps saberá,  ou tem indícios de, falta dizer quantos restam). Esse é o busílis da operação. 
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De Anonimo a 18.07.2025 às 22:27

Concordo a 100% com esta análise. Irrefutável. 
Quem discordar só pode ser desinformado. 
O jornalismo tem muita culpa do que se passa, não informa nem transmite factos, limita-se a dar uma visão parcial dos acontecimentos. Por isso mesmo só sobrevivem à custa dos Governos socialistas, e foram ultrapassados pelos meios digitais tais como blogs (como este), podcasts, canais youtube ou outras plataformas isentas, como Daily Wire, cuja cobertura do conflito tem sido exemplar. Para verdadeira informação, é o caminho a seguir 
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De Anonimo a 18.07.2025 às 23:13

Não há solo comum com essa gente

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