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Escrevi algures:
"Israel faz abrigos antiaéreos para defender os seus civis, esperando que os seus militares morram para os defender, o Hamas constrói túneis para proteger os seus militares, esperando que os civis morram para lhes dar cobertura.
Quem, perante isto, não consegue fazer distinções morais, é porque tem a sua bússola moral avariada".
Em resposta a isto, que na primeira parte é puramente factual, e na segunda é uma conclusão moral que me parece bastante razoável e moderada, uma pessoa com quem tenho divergências ideológicas tão grandes como o respeito que tenho pela sua integridade moral (tanto quanto nos é possível conhecer a integridade moral de terceiros), respondeu-me educadamente, mas muito ofendida.
Resolvi usar partes dessa resposta para realçar a ideia, que repito muitas vezes (desde que a li no discurso do método, de Descartes), de que o bom senso ou razão é a coisa mais bem distribuída no mundo, e se temos ideias diferentes não é por termos mais bom senso ou razão que outros, mas por considerarmos informação diferente ou olharmos de forma diferente para a mesma informação.
"Bússola moral avariada ... tem quem faz uma comparação tão estapafúrdia".
Grande parte da forma sectária como olhamos para o que os outros dizem ou escrevem decorre do facto de querermos situar a discussão no termos que achamos justos, em vez de considerarmos que a opinião dos outros é definida nos seus próprios termos. No caso, não me parece que tenha feito uma comparação estapafúrdia, descrevi uma realidade bem concreta que define os termos morais de actuação das duas partes em conflito em Gaza.
"O que o Hamas tem feito ... nunca deveria ser usado como desculpa, por alguém honesto e defensor dos direitos humanos, para as atrocidades que Israel tem cometido"
É fácil de constatar que eu não usei nenhuma desculpa para coisa nenhuma, limitei-me a realçar o contexto moral em que actuam os dois beligerantes que se guerreiam em Gaza. E muito menos falei nas atrocidades que eventualmente Israel tem cometido em Gaza, essa é uma discussão diferente, difícil pela falta de informação, na qual se confunde muitas vezes o que é a guerra - sempre suja, violenta, letal, com injustiças frequentes, com vítimas inocentes, desumana, como são todas as guerras -, com o que são as intenções das partes em confronto.
"uma opressão e ocupação fanática, destruição de aldeias, com prisões arbitrárias e tortura, quer com o massacre que está a cometer em Gaza".
O que torna a discussão sobre a situação em Gaza difícil (tal como muitas outras discussões), é que quem contesta o que escrevi toma como certo coisas que eu não tomo como tal, no caso, eu olho para a situação e não dou como adquirido que haja mais opressão, ocupação fanática, destruição de aldeias, prisões arbitrárias, tortura e massacres que a que resulta de qualquer situação de guerra, num contexto especialmente difícil.
"Um Estado supostamente democrático que defende os seus, desumanizado e aniquilando outro povo, matando crianças à fome, pode construir bunkers e proteger os seus, mas não merece respeito nem aplauso".
Idem neste caso, em que não dou por adquirido que Israel não seja um Estado democrático, que desumanize e aniquile outro povo e mate crianças à fome.
Mais que isso, onde eu considero que as forças em confronto são o Estado de Israel e o Hamas, o que a frase que citei pressupõe é que haja um confronto entre Israel e o povo palestiniano, pressuposto para o qual não vejo a menor base objectiva. Nem o povo palestiniano está em armas, nem resiste ao exército israelita, nem tem o poder de devolver reféns ou negociar a paz, o povo palestiniano é uma vítima impotente do confronto entre o Hamas e o Estado de Israel, não é parte no conflito.
"Como é que um cristão, judeu, muçulmano ou ateu com um mínimo de sentido de humanidade não se indigna em primeiro lugar com a barbaridade que está a ser cometida pelo tal Estado que pensa nos seus"?
Esta pergunta não faz o mínimo sentido e bloqueia qualquer discussão racional sobre o assunto, na medida em pretende colocar um ónus moral em quem olha para a realidade de forma distinta, no pressuposto de que os termos da discussão que existem são únicos e estão claramente estabelecidos entre as pessoas que pretendem discutir o que se passa em Gaza.
Só que não é assim, a fundação moral da discussão deveria ficar de fora (sim, é a minha frase inicial que apela ao julgamento moral inicial), enquanto a forma como duas pessoas olham para o problema não tiver um chão minimamente comum.
Neste caso, se alguém pensa que existe um confronto entre Israel e o povo palestiniano, e outro alguém pensa que existe um confronto entre o Hamas e o Estado de Israel, sendo o povo palestiniano uma vítima impotente do confronto entre esses dois actores, a conversa torna-se especialmente difícil.
Um bom exemplo é a forma como se olha para a mortalidade de crianças em Gaza.
Para alguns, há milhares de crianças, isto é, pessoas antes da puberdade, a ser mortas em Gaza, muitas à fome, e isso provoca um sofrimento moral indizível nessas pessoas.
Para outros, como eu, sabendo que o conceito de criança vai até aos 18 anos e que a esmagadora maioria das crianças que morrem são rapazes entre os 15 e os 18 anos, indiciando que se trata de combatentes recrutados pelo Hamas, o julgamento moral é mais severo pelo facto do Hamas usar crianças soldado, que pela inevitabilidade de morrerem combatentes numa guerra, mesmo que esses combatentes, por opção do Hamas, sejam crianças, isto é, pessoas com menos de 18 anos.
Nestas duas posições não é a bússola moral que é diferente, é a informação e a forma como se olha para a informação que conduz duas pessoas moralmente sólidas a fazer julgamentos morais completamente diferentes.
Destruindo o chão comum que poderia permitir uma discussão racional de diferentes pontos de vista.
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