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"O aborto clandestino era uma das maiores causas de morte antecipada em Portugal antes de haver o direito à interrupção voluntária da gravidez em Portugal".
A autora desta frase é Catarina Martins, no debate que juntou o PS, o BE, a AD e o PAN.
Logo na altura, esta frase me fez levantar o sobrolho, de tal maneira me pareceu absurda.
A esquerda mais folclórica, que inclui largas franjas do PS, actualmente, resolveu, numa campanha eleitoral em que nada de essencial sobre o aborto está em causa, agitar este fantasma.
Porque esta esquerda está muito preocupada com as mulheres?
Não, porque esta esquerda quer eliminar, à nascença, a divergência, se preciso for, recorrendo a parvoíces como a que citei no início do post, que está ao nível da outra das barragens que são inúteis porque a água se evapora nas albufeiras.
Eu não falo, sequer, de canalhas que usam o terrorismo verbal deste parágrafo: "As mulheres ficaram a saber que não poderiam contar com ele para lutar pelo seu direito mais consequente. E Deus ficou a saber que Bugalho faz cedências em campanha eleitoral", pela simples razão de que esta rasquice está abaixo do nível mínimo de discussão, para mim.
Falo de Catarina Martins, que não tem dúvidas: “Sebastião Bugalho, o direito à IVG não é uma questão difícil, mas sim fácil e simples: ou as mulheres são respeitadas ou não são. Sebastião é só confusão”.
O facto de esta ser uma discussão global, de envolver milhões de pessoas, dezenas de Estados, milhares de organizações, não convence Catarina Martins de que o aborto é uma questão complexa e envolve o equilíbrio entre direitos (e riscos) das mulheres e direitos de terceiros.
Por que razão é fácil Catarina Martins dizer o que diz sobre o assunto?
Porque sabe que ninguém insistirá com ela para que responde de forma clara se é um direito de qualquer mulher fazer um aborto no dia anterior ao parto previsto.
E porque pode invocar argumentos sociais como os que invocou, mesmo que sejam totalmente falsos, porque ninguém com um mínimo de peso fará o que vou fazer, isto é, escrutinar a validade do argumento.
O ponto de encontro dos diferentes pontos de vista é o de que as mulheres não devem ser criminalmente perseguidas por fazerem um aborto (podendo haver diferentes sensibilidades sobre qual é esse ponto exacto), o ponto a que Catarina Martins pretende chegar, o aborto é um direito fundamental de qualquer mulher, em quaisquer circunstâncias, está muito longe de ser consensual na sociedade e está muito longe de ser sequer consensual entre as mulheres.

Basta olhar para este gráfico para perceber que a taxa de mortalidade materna ("A morte materna é uma causa de morte que remete para um período específico da vida da mulher, que se inicia com a gravidez e termina no período do pós-parto") tem uma evolução que terá muito pouca relação com uma alteração legislativa ocorrida em 2007.
E note-se que usei apenas a evolução da taxa de mortalidade materna, de que o aborto clandestino seria, talvez, a terceira causa, e não, como disse tontamente Catarina Martins, a morte antecipada (de que a mortalidade materna representa apenas uma parte).
O boneco foi retirado desta publicação, em que o aborto é referido, com relevância sim, mas nem de perto, nem de longe, nos termos em que Catarina Martins os colocou e toda a gente parece ter achado normal, apesar do seu absurdo ser de uma clareza inquestionável.
Que o aborto é uma realidade que é preciso gerir, equilibrando os pontos de vista dos que negam qualquer relevância aos indivíduos, antes do seu nascimento, e dos que consideram que essa relevância existe desde a concepção, desvalorizando as consequências sociais da criminalização do aborto, parece-me de largo consenso, que é um direito fundamental, deve poder discutir-se livremente.
O que me parece é que não são as mulheres e os seus direitos que preocupam esta esquerda folclórica que venho a referir (e de que Catarina Martins é uma das suas Miss Simpatia), mas sim a necessidade de calar a divergência que permite questionar que raio de benefício resulta, para quem quer que seja, de considerar o aborto como um direito
De resto, a necessidade de calar a divergência tem uma longa tradição associada a esta gente, sempre que têm algum poder para isso.
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