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O cerco à divergência

por henrique pereira dos santos, em 29.05.24

"O aborto clandestino era uma das maiores causas de morte antecipada em Portugal antes de haver o direito à interrupção voluntária da gravidez em Portugal".

A autora desta frase é Catarina Martins, no debate que juntou o PS, o BE, a AD e o PAN.

Logo na altura, esta frase me fez levantar o sobrolho, de tal maneira me pareceu absurda.

A esquerda mais folclórica, que inclui largas franjas do PS, actualmente, resolveu, numa campanha eleitoral em que nada de essencial sobre o aborto está em causa, agitar este fantasma.

Porque esta esquerda está muito preocupada com as mulheres?

Não, porque esta esquerda quer eliminar, à nascença, a divergência, se preciso for, recorrendo a parvoíces como a que citei no início do post, que está ao nível da outra das barragens que são inúteis porque a água se evapora nas albufeiras.

Eu não falo, sequer, de canalhas que usam o terrorismo verbal deste parágrafo: "As mulheres ficaram a saber que não poderiam contar com ele para lutar pelo seu direito mais consequente. E Deus ficou a saber que Bugalho faz cedências em campanha eleitoral", pela simples razão de que esta rasquice está abaixo do nível mínimo de discussão, para mim.

Falo de Catarina Martins, que não tem dúvidas: “Sebastião Bugalho, o direito à IVG não é uma questão difícil, mas sim fácil e simples: ou as mulheres são respeitadas ou não são. Sebastião é só confusão”.

O facto de esta ser uma discussão global, de envolver milhões de pessoas, dezenas de Estados, milhares de organizações, não convence Catarina Martins de que o aborto é uma questão complexa e envolve o equilíbrio entre direitos (e riscos) das mulheres e direitos de terceiros.

Por que razão é fácil Catarina Martins dizer o que diz sobre o assunto?

Porque sabe que ninguém insistirá com ela para que responde de forma clara se é um direito de qualquer mulher fazer um aborto no dia anterior ao parto previsto.

E porque pode invocar argumentos sociais como os que invocou, mesmo que sejam totalmente falsos, porque ninguém com um mínimo de peso fará o que vou fazer, isto é, escrutinar a validade do argumento.

O ponto de encontro dos diferentes pontos de vista é o de que as mulheres não devem ser criminalmente perseguidas por fazerem um aborto (podendo haver diferentes sensibilidades sobre qual é esse ponto exacto), o ponto a que Catarina Martins pretende chegar, o aborto é um direito fundamental de qualquer mulher, em quaisquer circunstâncias, está muito longe de ser consensual na sociedade e está muito longe de ser sequer consensual entre as mulheres.

Sem título.jpg

Basta olhar para este gráfico para perceber que a taxa de mortalidade materna ("A morte materna é uma causa de morte que remete para um período específico da vida da mulher, que se inicia com a gravidez e termina no período do pós-parto") tem uma evolução que terá muito pouca relação com uma alteração legislativa ocorrida em 2007.

E note-se que usei apenas a evolução da taxa de mortalidade materna, de que o aborto clandestino seria, talvez, a terceira causa, e não, como disse tontamente Catarina Martins, a morte antecipada (de que a mortalidade materna representa apenas uma parte).

O boneco foi retirado desta publicação, em que o aborto é referido, com relevância sim, mas nem de perto, nem de longe, nos termos em que Catarina Martins os colocou e toda a gente parece ter achado normal, apesar do seu absurdo ser de uma clareza inquestionável.

Que o aborto é uma realidade que é preciso gerir, equilibrando os pontos de vista dos que negam qualquer relevância aos indivíduos, antes do seu nascimento, e dos que consideram que essa relevância existe desde a concepção, desvalorizando as consequências sociais da criminalização do aborto, parece-me de largo consenso, que é um direito fundamental, deve poder discutir-se livremente.

O que me parece é que não são as mulheres e os seus direitos que preocupam esta esquerda folclórica que venho a referir (e de que Catarina Martins é uma das suas Miss Simpatia), mas sim a necessidade de calar a divergência que permite questionar que raio de benefício resulta, para quem quer que seja, de considerar o aborto como um direito

De resto, a necessidade de calar a divergência tem uma longa tradição associada a esta gente, sempre que têm algum poder para isso.


22 comentários

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De cela.e.sela a 29.05.2024 às 15:23

currículo de Catarina na RTP «+ de10 anos como coordenadora do BE»


observação de mulher a dias sobre o referendo do aborto «como há antes, durante e depois, o meu dinheiro não é para as porcas da perna aberta».


atualmente só engravida quem quer.


Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
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De balio a 29.05.2024 às 16:13


o aborto é uma questão complexa


Eu diria que é uma questão cada vez mais simples, uma vez que cada vez se faz menos abortos, e creio que não somente em Portugal.


O facto é que cada vez há menos gravidezes em geral, e gravidezes indesejadas ainda menos.


O aborto é, cada vez mais, uma questão do passado.
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De passante a 29.05.2024 às 19:11


> uma questão do passado.



As ecografias foram o fim. Uma geração que já questiona os bifes não tem estômago para o assassinato.

(A não ser de pessoas que façam mal a bichos fofinhos, mas isso é mais teórico.)
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De lucklucky a 29.05.2024 às 21:22

"Uma geração que já questiona os bifes não tem estômago para o assassinato."



Oa história nos ensina é  que terá certamente estomago para o assassinio. Basta que o outro seja pintado como mal. Já o animal  nunca tem mal.
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De Anonimo a 29.05.2024 às 20:13

segundo um relatório (https://webpages.ciencias.ulisboa.pt/~mcgomes/publicacoes/Artigos%20pdf/Mortes%20Maternas%20-%20DGS.pdf) da Direção-Geral de Saúde (DGS), Cerca de “15% das mortes maternas ocorridas entre 2001 e 2007 associaram‐se a diferentes situações de aborto“. Se tivermos em conta que as causas mais comuns no mesmo período foram a hemorragia/coagulopatia (26,4%) e a doença hipertensa da gravidez (23,6%), o aborto (à data clandestino) era mesmo a terceira maior causa de morte materna, seguido por infecções e tromboembolias.
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De henrique pereira dos santos a 30.05.2024 às 07:46

1) Entre as principais causas de morte materna e as principais causas de morte antecipada vai uma grande, grande distância;
2) No que refere não sei (e não sei mesmo, gostava de saber) se nesses 15% estão apenas abortos clandestinos ou se incluem os espontâneos e afins;
3) Também não sei, e gostava de saber, qual é essa percentagem depois de 2007.
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De Anonimo a 30.05.2024 às 09:41

Os dados da DGS referem abortos.
São 15% dos totais (referenciar que são menos de 100, portanto números residuais), sendo que sobem para cerca de 25% dos casos com causas conhecidas. Pode especular-se mas apenas isso que os clandestinos entram nas causas desconhecidas.
Depois de 2007, registados, são zero.
Felizmente a saúde materna em Portugal chegou a um nível elevado, pelo que não será duvidoso que os números de mortes (e outras complicações) decorrentes de abortos ilegais seja elevado na proporção, ainda que pequeno em valores absolutos.
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De henrique pereira dos santos a 30.05.2024 às 12:08

Eu sei que referem abortos, mas abortos podem ser legais (e nestes incluem-se os espontâneos) ou ilegais, e sobre isso não há qualquer informação que eu tenha visto (ou porque é irrelevante, ou porque não existe).
Não pode ser nas causas desconhecidas porque explicitamente o texto equivale abortos a abortos ilegais, quando diz que espera que esses números desapareçam com a legalização do aborto a pedido da mulher (antes já havia abortos legais).
A sua última frase demonstra que o que disse Catarina Martins não faz sentido nenhum, porque se refere ao antes da legalização da lei, que inclui períodos em que a mortalidade materna era muito mais elevada, evidentemente por outras razões, tornando o peso do aborto ilegal no conjunto dessas mortos muito baixo.
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De Anonimo a 30.05.2024 às 12:33

A frase da Catarina (roubada e mal à Iasbel Moreira) faz sentido pois será factual. Terceira causa em contexto de mortalidade materna. São números relevantes no contexto global? Falamos de menos de 100 mortes, pelo que o valor estatístico é subjectivo. Pos lei, o número passa para zero. Zero mortes por aborto. Haverá uma causa efeito? Talvez.


Quanto aos desconhecidos, sim, alguns podem estar relacionados com aborto. Até porque parte do estudo mete inquéritos. Já agora, há outra incorrecção: 15% consequência de aborto, mas aborto não é "causa".
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De henrique pereira dos santos a 31.05.2024 às 06:49

Catarina Martins não fala em mortalidade materna, mas em mortalidade antecipada, a frase não tem nada de factual.
E refere-se a todo o período anterior à legalização, quando esses 15% só dizem respeito a um pequeno período em que todas as outras causas já tinham baixado mesmo muito.
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De henrique pereira dos santos a 30.05.2024 às 07:58

De resto, note-se que nos anos em causa, estamos a falar de 14 mortes, o que manifestamente desqualifica a afirmação de que o aborto era uma das principais causas de morte antecipada em Portugal: "Em 14 casos a morte ocorreu numa situação de aborto (Tabela 10), o que não quer dizer que tenha havido uma relação de causa‐efeito. A situação legal ou não do aborto nem sempre foi conhecida. É de realçar que este relatório se reporta a um período anterior à nova lei da IVG e que a morte nas mulheres mais jovens foi, em 50% (2 casos em 4), associada a situação de aborto. Espera‐se que, em futuros relatórios, estes números possam não ter lugar".  
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De umnome a 30.05.2024 às 21:46


E fazendo as contas o que isto significa é que ocorriam em média 2 mortes por aborto por ano e que a taxa de mortalidade por aborto era igual ou até inferior à taxa de mortalidade da gravidez levada até ao seu termo


É um disparate colossal dizer que era uma das principais causas de mortalidade antecipada antes da legalização porque na mesma época existiam e existem causas de mortalidade antecipada que provocavam e provocam centenas e até milhares de mortes. Tais como suicídio, acidentes de viação, SIDA, cancro do pulmão e cancro do fígado, etc.
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De maria a 29.05.2024 às 21:04

se uma mulher grávida for vítima de assassinato o agressor tem dupla condenação, mas se fizer um aborto já está dentro da lei.
Limpa-se a vida de um SER mas não é crime! Até os animais têm mais protecção.
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De lucklucky a 29.05.2024 às 21:20

"aborto é uma questão complexa e envolve o equilíbrio entre direitos (e riscos) das mulheres e direitos de terceiros."



Direitos de primeiros também é a criança, terceiro é o pai.


Como ninguém que vota/decide pode ser abortado o problema de agência existe logo á partida.
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De Anonimo a 30.05.2024 às 09:41

O pai não ter palavra foi o que me levou a votar em branco no referendo. 
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De lucklucky a 31.05.2024 às 00:28

A criança não tem palavra. 
Aliás quero corrigir-me, o direito primeiro é a criança. É esse que é espezinhado porque não dá votos.
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De Anonimus a 30.05.2024 às 09:44

Qual é a definição de morte antecipada?
Ao menos a Catarina explicou isso?
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De Octávio dos Santos a 30.05.2024 às 19:00

«... Esta esquerda folclórica que venho a referir (e de que Catarina Martins é uma das suas Miss Simpatia)...»



Suponho que seja ironia por parte de HPS porque Catarina Martins, tal como muitas outras mulheres da (extrema) esquerda, raramente ou nunca se caracterizam pela simpatia ou até mesmo por um sorriso.
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De umnome a 30.05.2024 às 22:01


https://nascer.pt/2022/05/27/a-mortalidade-materna-em-portugal-o-que-dizer-da-sua-evolucao/


acho que ajuda
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De Anónimo a 31.05.2024 às 17:17

"O aborto clandestino era uma das maiores causas de morte antecipada em Portugal antes de haver o direito à interrupção voluntária da gravidez em Portugal"

Se calhar esta frase é verdadeira. Em casa aborto, clandestino ou não, há uma morte antecipada 
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De henrique pereira dos santos a 31.05.2024 às 19:03

Mas o aborto é marginal em relação às causas de morte antecipada
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De Anónimo a 01.06.2024 às 08:18

Era ironia- não conheço os números. Referia me aos bebés que tem morte antecipada.

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